Pesquisa de Daniel Ferreira, com Jin Li (HKU Business School), mostra como a IA reduz a dependência do CEO em relação ao próprio conselho — e por que isso enfraquece exatamente a supervisão que deveria freá-lo.
Board "amigável" virou vulnerabilidade, não vantagem
, Redator
10 min
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1 set 2026
•
Atualizado: 1 set 2026
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Quanto mais capaz a IA torna um CEO, mais fraco fica o conselho que deveria fiscalizá-lo. A frase soa contraintuitiva, mas é exatamente a tese que o pesquisador Daniel Ferreira defende num artigo publicado pelo ECGI (European Corporate Governance Institute) — e o mecanismo por trás dela é mais simples do que parece.
Historicamente, quando um CEO precisava de ajuda para resolver um problema complexo, recorria ao board. Esse pedido, por si só, já cumpria uma função de governança: sinalizava uma área de incerteza, abria espaço para os diretores questionarem, contribuírem, exercerem supervisão real sobre a decisão.
Por causa disso, muitas empresas historicamente mantinham boards "amigáveis" ao CEO — pesquisa anterior do próprio Ferreira com Renée Adams já mostrava que essa proximidade incentivava comunicação mais honesta entre CEO e conselho, já que pedir ajuda não soava como fraqueza diante de um grupo hostil.
A IA quebra esse arranjo. Se o CEO já chega à reunião com o problema resolvido — porque perguntou à própria IA, não ao board — o pedido de ajuda simplesmente deixa de acontecer. E com ele, desaparece um dos poucos momentos em que a supervisão do conselho realmente acontecia na prática, e não só no papel do estatuto social.
Vale entender por que esse arranjo de board "amigável" fazia sentido antes da IA existir. Um conselho hostil, cheio de diretores prontos para questionar cada decisão, tende a fazer o CEO esconder incerteza em vez de expor — o que é pior para a governança, não melhor, porque tira do board justamente a informação que ele precisaria para supervisionar de verdade. A proximidade funcionava como um seguro contra esse silêncio estratégico. O problema é que esse seguro dependia inteiramente de o CEO continuar precisando pedir ajuda para alguma coisa.
O argumento de Ferreira não é hipotético. Ele cita evidências recentes de pesquisa mostrando que a adoção de IA por executivos seniores cresceu mais de 50% em 2025 — e que CEOs especificamente usam essas ferramentas com mais frequência do que outros executivos da própria empresa.
Isso faz sentido dentro da lógica de poder de uma organização: quem está no topo tem mais decisões de alto risco e alto ineditismo para tomar, e é justamente aí que uma ferramenta capaz de gerar respostas rápidas e bem fundamentadas se torna mais tentadora primeiro para quem manda, antes de chegar ao resto da empresa.
Isso também significa que o efeito descrito por Ferreira não é uma possibilidade distante — é algo que já está em curso na velocidade mais rápida de adoção de qualquer tecnologia corporativa recente. Um conselho que ainda opera com os mesmos rituais de supervisão de cinco anos atrás está, literalmente, um ano de adoção de IA atrás da mudança de comportamento do próprio CEO que deveria supervisionar.
O mecanismo descrito por Ferreira funciona em duas frentes que parecem opostas, mas produzem o mesmo resultado. Na primeira, a IA age como uma espécie de colega que resolve problemas de forma independente — o CEO delega a dúvida à máquina antes de levá-la a qualquer humano. Na segunda, a IA age como ferramenta que amplia a própria capacidade do CEO, tornando-o competente o suficiente para decidir sozinho sobre temas em que antes precisaria de apoio externo.
Nos dois casos, o incentivo para consultar o conselho diminui. Não porque o CEO queira esconder algo — na maioria dos casos, é o oposto: ele genuinamente acredita que já tem a resposta certa, e não vê motivo para atrasar a decisão perguntando a alguém que, no fundo, também vai acabar recorrendo à mesma tecnologia.
Aqui está a virada mais desconfortável do argumento. A mesma proximidade entre CEO e board que antes era vista como positiva — porque estimulava pedidos de ajuda sinceros — agora se transforma em terreno fértil para entrincheiramento. Um CEO que não precisa mais pedir ajuda, cercado por diretores que foram escolhidos justamente por serem próximos e pouco confrontadores, tem cada vez menos fricção entre o que decide sozinho e o que deveria passar por escrutínio coletivo.
O resultado é um conselho que continua existindo no organograma, mas cada vez mais distante do momento real em que as decisões importantes são tomadas.
Isso não é exclusivo de empresas com governança fraca por natureza. Acontece até em boards tecnicamente bem desenhados, porque o problema não está na composição do conselho — está no timing. A supervisão tradicional pressupõe um momento de dúvida visível do CEO como gatilho. Quando esse momento simplesmente para de existir, nenhuma composição de conselho, por mais qualificada que seja, consegue compensar sozinha a ausência do sinal que deveria acionar a atenção dela.
"Se a IA resolve problemas que o CEO antes precisava pedir ajuda para resolver, por que perguntar ao conselho?", resume Ferreira. A conclusão do pesquisador é direta: estruturas de governança "desenhadas para a era pré-IA precisam de atualização" — não porque a IA seja um risco em si, mas porque os mecanismos que dependiam do CEO pedir ajuda como gatilho de supervisão simplesmente deixaram de disparar.
Isso não significa proibir CEO de usar IA, o que seria tão ingênuo quanto ineficaz. Significa redesenhar os pontos de checagem do board para não depender mais do momento em que o CEO decide, por conta própria, que precisa de ajuda — porque esse momento está desaparecendo, e nenhuma ata de reunião vai registrar isso até que o problema já tenha acontecido.
Na prática, isso empurra a supervisão para um modelo mais ativo e menos reativo: em vez de esperar o CEO trazer uma dúvida à mesa, o conselho passa a precisar de checagens programadas sobre decisões relevantes, independentemente de o CEO ter pedido ajuda ou não — e de visibilidade sobre em quais decisões a IA já está sendo usada como base, mesmo quando ninguém no board perguntou diretamente.
Se o gatilho que fazia seu conselho funcionar era o CEO pedir ajuda, e a IA está apagando esse gatilho, quem na sua empresa está redesenhando a supervisão para a era em que já estamos? É esse tipo de preparo que o Board Program da StartSe ajuda a construir, com quem já lida com esse dilema em conselhos de verdade.
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