Com valuation de US$ 1,75 trilhão e uma captação que triplica o recorde anterior, a empresa de Elon Musk chega à bolsa quebrando as regras do próprio processo.
O mercado financeiro pode estar prestes a assistir a um novo marco histórico.
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9 min
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11 jun 2026
•
Atualizado: 11 jun 2026
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O maior IPO da história dos mercados de capitais está acontecendo agora. A SpaceX divulgou os termos da sua oferta pública inicial na quarta-feira, com planos de vender 555,5 milhões de ações a US$ 135 cada, o que levantaria cerca de US$ 75 bilhões a um valuation de aproximadamente US$ 1,75 trilhão.
Para ter a dimensão do que isso representa: se concluída nesses termos, a oferta eclipsaria o recorde da Saudi Aramco em 2019, de US$ 29,4 bilhões, que havia se mantido como o maior IPO da história. A SpaceX está mirando quase o triplo desse número em uma única operação.
Ao valuation-alvo, a SpaceX figuraria entre as dez empresas mais valiosas listadas nos Estados Unidos, à frente de Meta, Berkshire Hathaway e Tesla.
Mas os números, por si sós, não contam a história mais interessante.
A empresa que recusou as regras de Wall Street
A SpaceX planeja oferecer as ações a US$ 135 cada num preço fixo, rejeitando mais uma convenção de Wall Street ao definir um valor antes mesmo da fase de marketing do deal.
No processo convencional de IPO, uma empresa anuncia uma faixa preliminar de preço, faz roadshow com investidores institucionais, coleta sinalizações de demanda e então ajusta o valor final. É um ritual que confere poder considerável aos bancos de investimento — que organizam o bookbuilding, gerenciam a fila de pedidos e, em grande medida, decidem quem recebe alocação.
A SpaceX ignorou esse ritual. Definiu o preço antes de ouvir o mercado, dispensou boa parte do processo tradicional de intermediação e manteve o controle da operação. Apenas 4% das ações da SpaceX estarão disponíveis para negociação pública. É um float excepcionalmente restrito para uma empresa desse tamanho — o que garante escassez estrutural do papel desde o primeiro dia.
O IPO está duas vezes sobredemandado, com mais de US$ 10 bilhões em ordens institucionais verificadas. O mercado não precisou ser convencido.
O que a SpaceX realmente é — e por que isso complica tudo
A dificuldade de precificar a SpaceX não é de falta de dados. É de excesso de categorias.
O modelo de negócio tem três segmentos principais: Starlink é uma empresa lucrativa de internet satelital crescendo em ritmo excepcional; o negócio de lançamentos é o núcleo histórico da empresa; e a estratégia de data centers orbitais é altamente especulativa.
A fusão com a xAI, a empresa de inteligência artificial de Musk, adicionou uma camada adicional de complexidade. Os recursos do IPO estão destinados não apenas às operações de lançamento da SpaceX, mas também para financiar iniciativas de IA sob a entidade combinada. No primeiro trimestre de 2026, 76% do capex do grupo foi direcionado a IA, com a xAI queimando mais de US$ 6 bilhões anuais em perdas operacionais.
Isso significa que quem compra ações da SpaceX no IPO está comprando, simultaneamente: a empresa que lança foguetes com mais consistência e menor custo do que qualquer concorrente; o Starlink, que conecta regiões remotas do planeta com internet de baixa latência e já tem dezenas de milhões de assinantes; e uma aposta de longo prazo em inteligência artificial e infraestrutura computacional orbital — um conceito que ainda não tem modelo financeiro comprovado em escala.
A Morningstar estima o valor justo da SpaceX entre US$ 600 bilhões e US$ 800 bilhões com base apenas no Starlink. O mercado está precificando a US$ 1,75 trilhão. A diferença — quase um trilhão de dólares — é pura aposta no que ainda não existe.
O que isso tem a ver com o mundo fora da bolsa
Há uma tendência de ler o IPO da SpaceX como evento financeiro. Ele é também um evento estratégico com implicações que vão além do mercado de capitais.
O Starlink já opera em mais de 100 países, incluindo o Brasil, onde tem dezenas de milhares de assinantes em regiões sem cobertura de infraestrutura convencional. A expansão do acesso a internet de alta velocidade via satélite está silenciosamente redefinindo o mapa de onde é possível trabalhar, estudar e operar um negócio — independentemente de onde a infraestrutura física de telecomunicações chegou.
A estratégia de data centers orbitais — colocar capacidade de processamento em satélites, fora da jurisdição terrestre, com latência mínima para usuários em qualquer lugar do planeta — é especulativa hoje. Mas se funcionar, redefine onde a computação acontece fisicamente, quem a controla regulatoriamente e quanto custa acessá-la.
E há o elemento Musk, que é impossível ignorar sem simplificar demais. A estrutura de ações de classe dupla garante controle incondicional da SpaceX a ele, independentemente de quantas ações forem vendidas ao público. Quem compra SPCX está comprando participação nos resultados — não na governança.
O que o valuation realmente está precificando
O preço de US$ 1,75 trilhão precifica a maior parte da opcionalidade de longo prazo já no dia um. É uma aposta de que a SpaceX não apenas continua dominando o lançamento de satélites e crescendo o Starlink, mas que também executa com sucesso a estratégia de infraestrutura orbital e captura valor relevante no mercado de IA.
Isso pode acontecer. A SpaceX tem um histórico de fazer coisas que o mercado achava impossíveis — pousar foguetes reutilizáveis, reduzir o custo de acesso ao espaço em uma ordem de magnitude, construir a maior constelação de satélites da história. A pergunta não é se a empresa é extraordinária. É se extraordinário justifica quase dois trilhões de dólares antes de qualquer um desses cenários especulativos se provar rentável.
O mercado, ao que tudo indica, decidiu que sim. Logo mais o mundo vai ver se estava certo.
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Bruno Lois
, Editor
Jornalista e Copywriter. Escreve sobre negócios, tendências de mercado e tecnologia na StartSe.
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