Existe uma pergunta que nenhum comitê de inovação está fazendo: e se a ferramenta que está acelerando sua empresa também estiver atrofiando o cérebro dela?
sua área de desenvolvimento humano já está formando pessoas para pensar com a IA, ou apenas para depender dela?
, Colunista
11 min
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4 ago 2026
•
Atualizado: 4 ago 2026
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Existe uma pergunta que nenhum comitê de inovação está fazendo: e se a ferramenta que está acelerando sua empresa também estiver atrofiando o cérebro dela?
Parece exagero, mas não é.
Um estudo com programadores mostrou que o uso intensivo de IA para resolver problemas complexos reduziu em 17% a formação de novas competências técnicas. Ou seja: o time entrega mais rápido, mas aprende menos. E dados da Universidade de Yale apontam que, entre 2015 e 2025, o autorrelato de dificuldades cognitivas em jovens de 18 a 34 anos saltou de 5,1% para 9,7%.
Estamos diante de uma geração que chega ao mercado de trabalho, pela primeira vez na história recente, relatando queda de funções cognitivas justamente na fase em que deveriam estar no auge da sua potência intelectual.
Nenhuma dessas informações aparece nos relatórios de produtividade e deveriam aparecer, antes de mais nada, nos relatórios de RH.
A escrita externalizou a memória, a computação digital democratizou o dado e a IA está fazendo algo mais radical: ela não apenas guarda e organiza informação: ela processa, sugere e decide por nós.
Para quem lidera empresas, isso muda a natureza do problema. O risco não é a máquina substituir o profissional. O risco real é o profissional perder, aos poucos, a capacidade de pilotar a máquina com maestria e nem perceber que perdeu.
Isso tem nome: offloading cognitivo. É a delegação progressiva do esforço mental para uma ferramenta externa. Em pequenas doses, é ganho de eficiência puro. Em doses contínuas e sem supervisão, é a terceirização do próprio raciocínio.
O efeito colateral mais perigoso não é a queda de performance e sim a queda de aprendizado. Um time pode continuar entregando resultados por meses, até anos, enquanto sua capacidade de resolver problemas novos, sem assistência, se esvazia silenciosamente por dentro.
E há uma segunda mudança, ainda mais estrutural: o papel do profissional está migrando de "autor de soluções" para "revisor de sugestões". A IA propõe, a pessoa aprova e parece até produtivo, mas sem atrito, sem questionamento e sem construção própria, o time perde a musculatura mental necessária para criar o que ainda não existe. E é necessário saber a diferença entre saber cozinhar e saber reaquecer.
Isso deveria tirar o sono de qualquer um na área de Gente e Gestão. Porque o que está em jogo não é uma ferramenta nova para aprender a usar e sim o próprio conceito de desenvolvimento humano que precisa ser reescrito.
Por décadas, desenvolvimento de pessoas significou uma coisa relativamente simples: identificar lacunas de competência e fechá-las com treinamento, mentoria e experiência prática. Esse modelo pressupunha um cérebro em constante exercício e desenvolvimento.
A IA quebra essa premissa. Se o exercício cognitivo diário está sendo silenciosamente delegado à máquina, os programas tradicionais de capacitação: cursos, trilhas, workshops pontuais, elas deixam de ser suficientes. Eles tratam o sintoma (a competência técnica) e ignoram a causa (a capacidade de pensar de forma independente).
E o RH não vai ser medido pela quantidade de treinamentos oferecidos, mas por uma pergunta mais difícil: nossas pessoas estão pensando mais ou pensando menos depois de um ano usando IA no dia a dia?
Isso exige um novo território de atuação, que ainda não tem nome oficial em nenhum framework de competências, mas que já deveria estar na pauta de todo Comitê de Gente:
Diagnóstico cognitivo, não apenas técnico. Avaliar não só o que a pessoa sabe fazer, mas como ela pensa quando a ferramenta não está disponível. Isso muda entrevistas, avaliações de performance e planos de sucessão.
Curadoria de atrito, não apenas de conteúdo. O papel do RH deixa de ser só oferecer conhecimento e passa a ser desenhar situações de aprendizagem que obriguem a pessoa a pensar antes de consultar a IA, o oposto do que a maioria das ferramentas corporativas incentiva hoje.
Cultura de questionamento como competência formal. Empresas vão precisar avaliar e reconhecer, com a mesma seriedade que avaliam a entrega, a capacidade de alguém discordar de uma resposta gerada por IA com argumento sólido.
A grande virada de pensamento que toda liderança e especialmente todo RH precisa fazer agora é esta: o problema não é o volume de IA que a empresa usa. É a ausência de atrito produtivo no processo de trabalho e de aprendizagem.
E o mercado está prestes a se dividir em dois grupos, e essa divisão vai importar mais do que cargo, senioridade ou diploma:
Líderes de sistemas — profissionais que mantêm o hábito de questionar a máquina, cruzar sua lógica com julgamento próprio e preservar pensamento crítico ativo.
Dependentes de sistemas — operadores velozes, competentes em condições ideais, mas que perdem a capacidade de decidir quando a ferramenta falha, erra ou simplesmente não está disponível.
Nenhuma empresa quer descobrir, no meio de uma crise, que seu time pertence ao segundo grupo. E nenhum RH quer descobrir, tarde demais, que seus programas de desenvolvimento formaram exatamente esse perfil.
A resposta não é usar menos IA, mas usar a IA de forma mais inteligente, o que exige um conceito pouco discutido em treinamentos corporativos: consciência da inteligência. Trata-se de ensinar o time a identificar com clareza onde a máquina é imbatível (velocidade, dados, cálculo, escala) e onde o humano continua insubstituível (contexto, ética, intuição, julgamento diante do imprevisto).
Para o RH, isso se traduz em redesenhar, de forma concreta, três frentes:
Redesenho do onboarding e os treinamentos. Antes de ensinar a usar a IA, ensinar a pensar sem ela. As pessoas precisam estruturar a própria hipótese, mesmo que imperfeita, antes de consultar a ferramenta. A IA entrará para refinar o raciocínio e não para substituí-lo desde o início.
Transformar a IA em sparring partner, não em muleta, dentro dos programas de capacitação. Em vez de treinar o time para pedir respostas prontas, treiná-los para usar a máquina como crítica e pedindo que ela aponte falhas, contradições e pontos ocultos nos argumentos humanos. O cérebro se mantém ativo porque continua sendo testado e não substituído.
Criar indicadores de aprendizado, não apenas de entrega. Se o RH só acompanha conclusão de trilhas e horas de treinamento, está cego para o problema mais caro de todos: a queda silenciosa de capacidade que só aparece quando já é tarde. É hora de medir também a capacidade de resolver problemas sem assistência, antes e depois da adoção intensiva de IA.
Isso vale para qualquer área não apenas tecnologia. Jurídico, marketing, operações, atendimento: em todos os lugares onde a IA hoje sugere primeiro e a pessoa aprova depois, existe o mesmo risco. E em todos eles, o RH tem um papel ativo a cumprir, não apenas de apoio.
A tecnologia e a capacidade humana de pensar estão em um processo de coevolução. A IA tem potencial real de ser o maior amplificador cognitivo já criado. Mas o amplificador não gera potência sozinho, ele multiplica o que já existe.
Se o motor humano estiver desligado, a IA só vai acelerar o vazio. E cabe justamente ao RH garantir que esse motor continue ligado, redesenhando o que significa desenvolver pessoas numa era em que a máquina pensa junto.
O papel de quem lidera hoje não é escolher entre humano e máquina. É garantir que a tecnologia elimine o trabalho braçal, sem jamais eliminar o esforço de pensar.
A pergunta que fica não é quanto de IA sua empresa está usando. A pergunta é: sua área de desenvolvimento humano já está formando pessoas para pensar com a IA, ou apenas para depender dela?
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Daniele Avelino
, Colunista
LinkedIn Top Voices. Conselheira na área de Pessoas e especialista em Recursos Humanos e Diversidade & Inclusão. Palestrante, Mentora e Consultora. Atua com propósito no desenvolvimento de líderes e na construção de culturas mais humanas, diversas e sustentáveis.
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