Os EUA investem US$ 725 bilhões para construir a infraestrutura da inteligência artificial. A China está faturando boa parte disso. E ninguém consegue separar os dois.
Foto: Bloomberg
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8 min
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12 mai 2026
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Atualizado: 12 mai 2026
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Existe uma ironia difícil de ignorar nos dados de comércio exterior da China divulgados esta semana.
Donald Trump passou os últimos anos tentando desacoplar as duas maiores economias do mundo. Tarifas, sanções, restrições tecnológicas, listas negras de empresas. O projeto era claro: reduzir a dependência americana de produtos chineses e empurrar as cadeias de suprimento para fora da China.
Funcionou em partes.
A participação dos EUA nas exportações totais da China caiu para uma mínima histórica de cerca de 9%, aproximadamente metade do pico registrado em 2017-2018. O divórcio econômico avançou.
Mas então veio a inteligência artificial. E ela embaralhou tudo.
O número que resume o paradoxo
As remessas chinesas para o exterior atingiram um recorde mensal de US$ 359 bilhões em abril, o equivalente a cerca de US$ 500 milhões por hora. O crescimento foi de 14% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo dados trazidos pela Bloomberg.
O motor desse salto não foi têxtil, não foi brinquedo, não foi o varejo de baixo custo que costuma dominar a pauta exportadora chinesa. Goldman Sachs e Nomura estimam que as vendas de semicondutores, computadores e outros produtos relacionados à inteligência artificial foram responsáveis por cerca de metade do crescimento das exportações chinesas em abril.
As exportações de chips dobraram. As vendas de equipamentos de processamento de dados, que incluem laptops, tablets e seus componentes, cresceram 47%.
Quem está comprando tudo isso? Em grande parte, empresas americanas.
O combustível vem de Silicon Valley
Somente neste ano, as grandes empresas de tecnologia dos EUA, incluindo Alphabet e Meta, planejam investir até US$ 725 bilhões em despesas de capital, principalmente em equipamentos para data centers de IA.
Construir um data center de IA exige uma quantidade absurda de hardware: servidores, chips, cabos, sistemas de resfriamento, equipamentos de rede. Boa parte desse hardware passa, em algum momento, pela cadeia de manufatura chinesa — seja como produto final, seja como componente intermediário.
A China não fabrica os chips mais avançados. As restrições americanas de exportação bloquearam esse caminho. Mas ela domina os chamados “chips maduros”, semicondutores que usam tecnologia mais antiga e que continuam essenciais para uma enorme variedade de eletrônicos. E domina, também, boa parte da montagem e do empacotamento dos produtos que chegam até os data centers americanos.
A China emergiu como o maior fornecedor mundial de bens relacionados à IA no ano passado, de acordo com economistas do Standard Chartered.
A interdependência que ninguém consegue cortar
Aqui está o nó estratégico que os números revelam.
Os EUA lideram o investimento global em IA. A China manufatura uma fração relevante da infraestrutura que esse investimento exige. Quanto mais os americanos investem em IA, mais a China exporta. Quanto mais a China exporta chips e hardware, mais ela financia seu próprio desenvolvimento tecnológico.
O boom do comércio em torno da IA revela a extensão da integração que ainda aproxima as duas maiores economias do mundo por meio da cadeia de suprimentos global de tecnologia.
Trump chegará a Pequim ainda esta semana para uma cúpula com Xi Jinping. Na pauta, entre outros temas, os controles de exportação de tecnologia. Os dois lados revelaram uma trégua em outubro, após a reunião anterior entre Trump e Xi, na qual os EUA concordaram em pausar por um ano algumas restrições relacionadas à tecnologia em troca de acesso renovado a elementos de terras raras.
O problema é que a pressão política por desacoplamento e a lógica econômica da corrida por IA puxam em direções opostas. Separar as duas economias tecnologicamente custa caro e leva tempo. Mas cada data center construído com componentes chineses aprofunda a dependência que Washington quer eliminar.
O que os dados não mostram
Os números de exportação da China em abril têm um elemento de distorção: o efeito de base, já que abril de 2025 foi marcado por quedas acentuadas em meio às tensões tarifárias mais agudas. Parte do crescimento de 14% reflete simplesmente a comparação com um período fraco.
Mas o crescimento nas exportações de chips e hardware de IA é estrutural, não conjuntural. Ele reflete uma posição que a China construiu ao longo de anos na cadeia de manufatura eletrônica global e que não se desmonta por decreto.
Economistas do Australia & New Zealand Banking apontam que a perspectiva de exportação chinesa permanece positiva no curto prazo, mas que o horizonte de longo prazo dependerá da capacidade da China de superar o gargalo tecnológico — especialmente no desenvolvimento de chips de alta precisão.
Se a China conseguir avançar nessa fronteira, o argumento para manter as restrições americanas enfraquece. Se não conseguir, ela continuará sendo um elo essencial da cadeia de suprimentos de IA, mesmo sem acesso aos chips mais avançados.
De qualquer forma, a corrida global por inteligência artificial tornou as duas economias mais interdependentes, não menos. E os dados de abril são o retrato mais claro disso até agora.
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Bruno Lois
, Editor
Jornalista e Copywriter. Escreve sobre negócios, tendências de mercado e tecnologia na StartSe.
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