Estudo da IBM com 3.221 executivos mostra que 8 em cada 10 empresas levaram incidentes de IA ao board no último ano. Só 4 em cada 10 mudaram alguma regra depois disso.
Conselhos de administração passaram a discutir inteligência artificial menos como promessa e mais como risco a ser governado.
, Redator
10 min
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22 out 2026
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Atualizado: 22 out 2026
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Durante anos, a inteligência artificial chegou ao conselho de administração como item de estratégia: a apresentação animada do CIO, o slide com o piloto promissor, a pergunta sobre “o que os concorrentes estão fazendo”. Em 2026, ela passou a chegar de outro jeito. Chega como incidente.
Um levantamento da IBM conduzido pela Censuswide, divulgado em 14 de outubro, ouviu 3.221 executivos de empresas com mais de mil funcionários em oito países da Europa e do Oriente Médio. Para 80% deles, algum incidente ligado à IA chegou ao board ou ao C-level nos últimos 12 meses: falha de um agente, vazamento de dados, decisão errada tomada por um sistema, brecha de segurança.
O dado que mais incomoda vem logo depois. Entre essas empresas, só 40% mudaram suas políticas ou frameworks de governança de IA em resposta.
Significa que o problema deixou de ser técnico. Quando uma falha sobe até o conselho, ela já tocou em reputação, em dinheiro, em cliente ou em regulador. O conselho não é acionado porque um modelo errou uma vírgula num relatório interno.
E o volume impressiona. Oito em cada dez é praticamente a regra. Se a sua empresa usa IA em escala e o conselho ainda não ouviu falar de nenhum problema, há duas hipóteses: ou ela é uma exceção rara, ou os problemas não estão subindo.
A segunda hipótese costuma ser a mais provável.
Porque o susto é tratado como evento, e não como sinal. O incidente vira um ponto de pauta, alguém explica o que aconteceu, a correção é aprovada e a vida segue. A estrutura que permitiu a falha continua igual.
O estudo da IBM mostra o padrão com clareza. Quando a implantação de IA corre mais rápido que a governança, 56% das empresas seguem em frente “dentro de limites de risco acordados” enquanto as regras tentam alcançar. Só 33% seguram a implantação até a governança estar pronta.
É uma escolha compreensível. Ninguém quer frear a inovação. Mas ela tem um custo que quase nenhuma empresa está medindo: apenas 37% dos executivos dizem ter uma quantificação formal, revisada pelo board, do risco financeiro criado pelas lacunas de governança.
Ou seja, a maioria dos conselhos aprova a velocidade sem saber o preço dela.
Ninguém sabe ao certo, e esse talvez seja o achado mais revelador da pesquisa.
Quando perguntados sobre quem deve responder por resultados adversos causados por agentes de IA, os executivos não chegaram a consenso algum. O CIO ou CTO foi a resposta mais citada, com míseros 17%. Sobre a responsabilidade legal em caso de dano grave, 20% defendem divisão proporcional entre a empresa e o fornecedor, 19% esperam um marco regulatório que ainda não existe e 14% jogam a conta no fornecedor da tecnologia.
O relatório de adoção de IA da Wharton com a GBK Collective, publicado em outubro com 1.416 profissionais de grandes empresas americanas, encontrou a mesma névoa: quando um agente erra, a culpa vai para o time de risco (28%), para o gestor de quem colocou o agente para rodar (26%) ou para o próprio funcionário (25%). Três respostas empatadas equivalem, na prática, a nenhuma resposta.
Esse vazio de responsabilidade não é detalhe jurídico. É uma falha de desenho organizacional. E desenho organizacional é assunto de conselho.
Vão acelerar tudo, inclusive o problema.
Segundo a IBM, 35% das empresas já rodam IA agêntica em produção. Três em cada quatro esperam que, até 2027, agentes tenham algum grau de autonomia sobre decisões. Mas só 37% afirmam que sua governança foi desenhada para escalar junto com esses agentes.
A diferença entre um chatbot e um agente é que o segundo age. Ele envia o e-mail, aprova o reembolso, altera o pedido, move o dinheiro. Um erro de chatbot gera uma resposta ruim. Um erro de agente gera uma transação ruim, às vezes milhares delas antes que alguém perceba.
Por isso chamam atenção os controles que as empresas esperam ter até 2027. Apenas 29% contam com a capacidade de interromper imediatamente a atividade de agentes em toda a organização. Em linguagem de conselho: sete em cada dez empresas não têm um botão de emergência.
Mora, e é ali que ele costuma ser menos vigiado.
Mais da metade dos executivos ouvidos pela IBM (54%) admite lacunas na forma como sua governança cobre a IA usada por fornecedores, parceiros e cadeia de suprimentos. Só 21% monitoram continuamente o risco de IA de terceiros, e 13% exigem certificação independente.
Pense no seu birô de cobrança, na sua empresa de atendimento terceirizado, no software de RH que faz triagem de currículos. Todos estão incorporando IA, muitos com agentes. Se um deles discriminar um candidato ou constranger um cliente, a manchete vai trazer o nome da sua marca, não o do fornecedor.
Resolve no papel. O estudo traz um número quase paradoxal: 98% das empresas dizem ter atribuído formalmente a responsabilidade pelo risco de IA a alguém no board, e 26% criaram um comitê específico de IA.
Ao mesmo tempo, a maioria não mudou nada depois de um incidente, não sabe quanto o risco custa e não tem botão de parada. A responsabilidade foi atribuída, mas não foi equipada.
Ana Paula Assis, vice-presidente sênior da IBM para EMEA e APAC, resumiu o momento: “O debate sobre IA saiu da adoção e foi para governança e responsabilização”. E acrescentou que a governança “precisa estar embutida na forma como os agentes operam”, e não colada por cima deles depois.
Para conselheiros brasileiros, a pesquisa europeia serve como espelho antecipado. A pressão regulatória aqui ainda é menor, mas os agentes chegam do mesmo jeito, comprados dos mesmos fornecedores globais.
Essa pergunta separa conselhos que governam IA de conselhos que apenas recebem relatórios sobre ela. Ela se desdobra em outras, bem práticas: quem tem autoridade para desligar um agente? Em quanto tempo? Quanto custaria uma falha grave no nosso maior processo automatizado? Qual fornecedor está usando IA com os dados dos nossos clientes sem que a gente saiba?
Se a resposta honesta para a maioria delas é “não sei”, o próximo incidente já tem lugar reservado na pauta. A diferença é se ele vai encontrar um conselho preparado para mudar a estrutura ou só para ouvir a explicação. Construir essa preparação, com repertório para fazer as perguntas certas à gestão sobre risco tecnológico, é exatamente o que o Board Program da StartSe propõe a conselheiros que não querem ser os últimos a saber.
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