Liderança não é um cargo que se veste de manhã e se tira à noite. O que o caso da diretora do JPMorgan revela sobre reputação, conduta e governança executiva.
Ela roubou uma lixeira. E jogou fora uma posição de liderança executiva.
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8 min
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26 jun 2026
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Atualizado: 26 jun 2026
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Na semana passada, durante a celebração do título da NBA do New York Knicks, uma mulher foi flagrada em vídeo esvaziando uma lixeira pública na calçada e levando o recipiente embora. A lixeira havia sido pintada com as cores do time: azul e laranja. O vídeo circulou rapidamente nas redes. A mulher foi identificada. Seu nome: Angie Báez, 40 anos, diretora executiva do JPMorgan Chase. Na terça-feira seguinte, o banco confirmou sua demissão.
Nenhuma irregularidade dentro do banco. Nenhum problema de performance. Nenhum conflito interno. Uma lixeira, um vídeo, e uma carreira encerrada.
A reação mais comum a casos como esse é o desconforto com a proporção: demissão por roubar uma lixeira parece excessivo para muita gente. Esse desconforto, quando levado a sério, revela um equívoco sobre o que significa ocupar uma posição de liderança executiva.
Um diretor executivo de um dos maiores bancos do mundo não representa apenas a si mesmo quando está em público. Representa a instituição, seus valores declarados, seu código de conduta e a confiança que clientes, reguladores e parceiros depositam na organização. Essa representação não obedece horário comercial.
O JPMorgan Chase opera sob escrutínio regulatório permanente, em um setor onde reputação é ativo estratégico. Para uma instituição financeira, a percepção de que seus líderes agem com integridade fora do ambiente corporativo não é mero detalhe de RH. É componente da licença social para operar.
A conduta de um líder fora do expediente importa porque liderança não é função. É identidade. Quem ocupa posições de alta responsabilidade carrega esse papel de forma contínua, visível e pública, especialmente em um mundo onde qualquer pessoa com celular é um potencial canal de distribuição de conteúdo.
O episódio de Angie Báez não é o primeiro e não será o último. Em julho de 2025, dois executivos - o CEO e a gestora de RH - de uma mesma empresa foram flagrados pela Kisscam no show do Coldplay, em Boston, nos EUA. O problema não era a presença no evento. Era a combinação: ambos eram casados, mas não entre si. Havia ali um caso de infidelidade. O vídeo circulou, as identidades foram reveladas, e os dois tiveram suas carreiras afetadas.
O que os dois casos têm em comum vai além do constrangimento pessoal. Em ambos, a exposição pública de comportamento considerado incompatível com a posição ocupada gerou consequências institucionais que nenhum dos envolvidos antecipou quando tomou a decisão naquele momento.
A ilusão de privacidade em espaços públicos acabou. E para líderes executivos, esse fato tem implicações práticas que precisam ser incorporadas à forma como se pensa sobre conduta, não apenas dentro das organizações, mas em qualquer ambiente onde se possa ser reconhecido.
Empresas investem recursos significativos em políticas de compliance, códigos de ética e treinamentos de conduta. A maioria desses documentos regula o comportamento dentro do ambiente de trabalho, nas relações com fornecedores e clientes, nas comunicações institucionais.
O que raramente aparece com clareza é a extensão dessas expectativas para a vida pública dos líderes. Essa lacuna gera ambiguidade onde deveria haver clareza, e ambiguidade em questões de conduta tende a ser resolvida de forma reativa, depois do dano, como aconteceu com Báez.
Governança executiva de alta qualidade define com antecedência o que a organização espera de seus líderes como pessoas públicas, não apenas como profissionais. Isso inclui o entendimento de que determinadas posições carregam padrões de conduta que transcendem o contrato de trabalho. Esse entendimento precisa ser construído, comunicado e reforçado, e não pode ser deixado para a intuição de cada indivíduo.
É exatamente esse tipo de competência que o Board Program da StartSe desenvolve em conselheiros e executivos que ocupam ou aspiram a posições de alta liderança: não apenas o domínio técnico de governança corporativa, mas a consciência sobre o papel que se exerce, dentro e fora das paredes da empresa.
Reputação executiva é construída ao longo de anos e pode ser destruída em minutos. Esse não é um lugar-comum motivacional. É uma descrição precisa do que aconteceu com Angie Báez: décadas de carreira em uma das maiores instituições financeiras do mundo, encerradas por um vídeo de 30 segundos numa calçada de Nova York.
A lição não é que executivos precisam viver com medo de câmeras. É que líderes de alta performance desenvolvem uma consciência permanente sobre quem são em público, porque entendem que essa identidade é parte constitutiva do cargo que ocupam.
Organizações que esperam um incidente para discutir conduta executiva pagam um preço desnecessário. As que estruturam essa conversa com antecedência, dentro de um framework claro de governança e expectativas, como indica ter o JPMorgan, protegem simultaneamente o líder, a instituição e todos os stakeholders envolvidos.
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Bruno Lois
, Editor
Jornalista e Copywriter. Escreve sobre negócios, tendências de mercado e tecnologia na StartSe.
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