Estudo da Meta com a Fundação Dom Cabral, com mais de 100 CEOs e executivos de 20 setores, mostra empresas confiantes na relevância da IA — e despreparadas para medir se estão usando bem.
A régua de governança em IA ainda está em branco
, Redator
7 min
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14 set 2026
•
Atualizado: 14 set 2026
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Pergunte a qualquer executivo brasileiro se IA é relevante para o negócio dele, e a resposta vai ser sim — provavelmente com ênfase. Pergunte se a empresa avalia, de forma recorrente, o quão madura ela está para usar essa tecnologia com segurança, e o silêncio já é a resposta.
O estudo "IA Aplicada à Estratégia", conduzido pela Meta em parceria com a Fundação Dom Cabral e citado pela Capital Aberto, ouviu mais de 100 CEOs e executivos de 20 setores da economia brasileira. Mais de 80% das organizações consideram a IA relevante para o negócio. No mesmo levantamento, 80% não realizam avaliações recorrentes de maturidade em IA — ou seja, adotam a tecnologia sem processo estruturado para saber se estão evoluindo, estagnadas ou operando de forma arriscada.
A distância entre esses dois números é o problema real. Não é falta de convicção sobre a importância da IA. É ausência do instrumento básico de medição que permitiria a qualquer liderança saber, com dado e não com impressão, em que ponto a empresa está.
O mesmo estudo encontra 74% das empresas sem práticas consolidadas de gestão de risco em IA. Na prática, isso significa decisão de negócio apoiada em sistema automatizado sem processo formal para identificar viés, avaliar exposição regulatória ou auditar decisão antes que ela gere impacto real — para cliente, para colaborador, para o próprio resultado financeiro.
É o mesmo tipo de lacuna que aparece, do lado regulatório, na forma como a ANPD tem tratado uso inadequado de dado pessoal em treinamento de modelo: a ausência de processo formal de gestão de risco não é apenas ineficiência interna, é a porta de entrada para exposição legal que a maioria dos conselhos ainda não mapeou como prioridade explícita.
Volume de investimento em IA sobe todo ano nas pesquisas de mercado brasileiras. O que menos aparece é a contrapartida: 23,2% das empresas não têm indicadores claros de retorno sobre esse investimento. Quase uma em cada quatro companhias está gastando em IA sem conseguir demonstrar, com métrica objetiva, se esse gasto está gerando valor.
Para quem senta em comitê de investimento ou em conselho, esse é o tipo de lacuna que deveria travar aprovação de novo orçamento até ser resolvida — não o contrário.
O próprio estudo aponta os riscos de governança decorrentes dessa combinação: aprovação de investimentos equivocados por desconhecimento técnico dos conselheiros, negligência sobre exposição regulatória, ratificação de decisões opacas geradas por sistema sem escrutínio humano adequado, e risco sistêmico crescente na ausência de controle efetivo sobre os sistemas de IA em operação.
Nenhum desses quatro riscos se resolve deixando IA como pauta exclusiva da área de tecnologia. Eles são, por definição, riscos que atravessam a responsabilidade fiduciária de quem aprova orçamento e estratégia no nível mais alto da empresa.
Um dado complementar, do CEO Outlook da EY-Parthenon, mostra 30% dos executivos brasileiros apontando IA como essencial para o crescimento do negócio — e 46% priorizando adoção ética da tecnologia mesmo diante de ganhos menores no curto prazo. É um contraponto importante ao quadro de despreparo: parte relevante da liderança brasileira já entende que velocidade sem controle não é vantagem competitiva sustentável, é risco represado para o próximo trimestre.
O desafio é que essa intenção ética, sem estrutura de governança e de medição de maturidade por trás dela, vira discurso difícil de sustentar na prática — exatamente o gargalo que o estudo da Meta e da FDC expõe.
É a pergunta que separa board maduro de board que está, na prática, homologando decisão de tecnologia sem instrumento para avaliá-la de verdade. Maturidade em IA, gestão de risco e indicador de retorno não são detalhe operacional — são o mínimo que qualquer conselho deveria exigir antes de aprovar a próxima rodada de investimento. É esse repertório técnico e de governança que o Board Program ajuda conselheiros brasileiros a desenvolver, para que a pauta de IA deixe de ser aprovada por confiança e passe a ser aprovada por critério.
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