A difícil arte de empreender no Brasil (mas vale a pena!)

Da Redação

Por Da Redação

5 de janeiro de 2017 às 13:25 - Atualizado há 4 anos

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Por Paulo Roberto Silva, mestre em Integração da América Latina pela USP e CEO da Comm Cloud e Beatriz Bevilaqua, COO da Comm Cloud

Como ter sucesso com startups em um país conservador, com mindset hierárquico e burocrático, e cujas instituições favorecem mais a dependência do estado que a livre iniciativa? Evidentemente, essa é uma pergunta para a qual existem muitas respostas na teoria. Contudo, foi empreendendo de verdade que descobrimos a prática de colocar em pé um negócio, que vale por décadas de teoria econômica.

Tudo começa com o processo de constituição de uma empresa. Em São Paulo, por exemplo, existe uma das maiores ironias burocráticas do país, um sistema chamado “Via Rápida Empresa”, que promete integrar Receita Federal e Junta Comercial para que a empresa seja aberta em 5 dias. Contudo, a lógica de funcionamento ainda é tão cartorial quanto antes, apesar da exigência de certificação digital e de 80% do processo ser online. Isso significa que se o funcionário do balcão achar que a assinatura no contrato social está errada, o processo de abertura volta para o começo. Com isso, os 5 dias viram dois meses.

Junte-se isso à necessidade de enquadrar um negócio inovador em uma CNAE, sigla que significa Cadastro Nacional de Atividades Econômicas, mas que para o empreendedor poderia se chamar Caramba, Não Acho minha Empresa. Parece bobagem, mas a alíquota de imposto, o enquadramento no Simples, o tipo de alvará ou mesmo o percentual de lucro presumido dependem de ter a CNAE certa. Por isso, é muito comum uma startup ser enquadrada em uma CNAE totalmente aleatória. Por exemplo, já vimos SaaS de gestão de projetos enquadrado na mesma CNAE de uma editora de listas telefônicas.

Superada a barreira burocrática, vamos ao mindset do mercado. E, quando se trata de Brasil, estamos falando de um mindset bastante conservador. Algumas startups B2C ficam eufóricas quando o early adopter corre experimentar a ferramenta, mas o desafio é superá-los e chegar ao consumidor comum. Aí, a estratégia de vendas e marketing precisa chegar para o público geral, e neste processo enfrenta a barreira do ceticismo e dos hábitos consolidados. Uma coisa é desafiar mercados doloridos e sem solução como telefonia, taxis e bancos. Outra é convencer o CMO ou o diretor industrial a substituir o procedimento que ele usa há décadas por conceitos novos como IoT, Inbound, Outbound e Crowdsourcing.

É aqui, na ausência de fit de mercado, que muitas startups morrem. E neste processo alguns mentores ajudam pouco. Nosso ecossistema é jovem, mas alguns conselhos que temos ouvido no mercado mostram que certos mentores desenvolveram vícios de percepção com sua própria experiência, e acabam colocando a startup em uma rota de risco com a melhor das intenções. Especialmente quando se trata de marketing e vendas, táticas adotadas quando o ecossistema era menos maduro podem não funcionar agora.

Junte a isso os processos engessados de compras das grandes empresas, que podem sufocar startups B2B. Já ouvimos de empreendedores com larga experiência corporativa que nos últimos dez anos suas empresas de origem construíram procedimentos que impedem a contratação de sua empresa atual. Novamente, a saída são as empresas early adopters. Mas, em algum momento, eles precisarão chegar aos executivos mais conservadores. Só para dar uma ideia, uma pesquisa da IBM em 2015 apontou que só entre os CMOs brasileiros 50% são mais conservadores. 50% de uma das áreas mais dinâmicas de uma empresa. Imagina CFOs, COOs, diretores industriais e comerciais!

Contudo, empreendedores seguem empreendendo e startups seguem tendo sucesso. Por quê será? Em grande parte, porque o Brasil não é para principiantes. A nossa história mostra que somos capazes de realizar grandes mudanças partindo de bases completamente desfavoráveis. Por exemplo, no início do século XX apenas dois países se industrializaram na América do Sul: Argentina e Brasil. Contudo, enquanto nossos vizinhos eram o 12º maior PIB per capita do mundo, com US$ 2.756,00, estávamos atrás de Peru, Venezuela, Colômbia e Chile, com US$ 704 per capita. Foi a capacidade empreendedora que nos tornou a maior economia da região, a mais diversificada e moderna.

Um insight sobre as razões do desenvolvimento do nosso ecossistema em condições tão adversas pode vir de uma pesquisa relevante sobre empreendedorismo digital feita muito antes da onda das startups. A economista Annalee Saxenian, que atualmente é Deã da School of Information da Universidade de Berkeley, estuda desde os anos 1990 os aspectos específicos do empreendedorismo digital no Vale do Silício. Em 2006, ao pesquisar como o modelo do Vale era replicado mundo afora, ela identificou um padrão de redes de cooperação entre a Baía de São Francisco e os demais ecossistemas mundo afora:

“As regiões emergentes estão combinando elementos do Vale do Silício com recursos e instituições locais. (…) Empreendedores tipicamente tentam (com sucessos variados) transferir venture capital, meritocracia e transparência corporativa a economias com tradição de elites privilegiadas controle governamental e corrupção disseminada. Mesmo assim, eles estão se adaptando às condições de seus países de origem” (The New Argonauths, Harvard University Press)

O nosso desafio é aproximar cada vez mais o ecossistema empreendedor do brasileiro médio e seu mindset conservador, aquele para quem concurso público e crédito do BNDES é sinônimo de sucesso. Isto afeta várias frentes de atuação, como PR, marketing, relações governamentais, aproximação com universidades etc., com um único objetivo: promover uma mudança geral de comportamento e mentalidades, para ganhar corações e mentes para o digital.

Gostou do texto? Ele faz parte do blog “Voz do Empreendedor” aqui no StartSe que pretende dar voz aos maiores empreendedores. Você empreende e quer ter seu texto publicado aqui? Basta mandá-lo para redacao@startse.com.br para que nossos jornalistas possam avaliar! Boa sorte!

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