Vetherapy: startup usa células-tronco no tratamento de animais

Tainá Freitas

Por Tainá Freitas

22 de outubro de 2018 às 20:00 - Atualizado há 2 anos

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Em 2016, um em cada quatro alunos tinha ou queria ter um negócio próprio, segundo estudo do SEBRAE em parceria com a Endeavor. Em muitos casos, esse desejo se torna realidade – como no caso da Vetherapy, startup que utiliza células-tronco na medicina regenerativa para animais.

A brasileira Fernanda Berti e o português Pedro Carvalho se conheceram no Instituto Europeu de Excelência em Engenharia de Tecidos e Medicina Regenerativa, onde realizavam pós doutorado. Fernanda é engenheira química e desenvolveu sua tese sobre a engenharia de órgãos e tecidos. Após a conclusão, ela foi para Portugal para exercer a prática da profissão – e assim conheceu Pedro Carvalho, também doutor em engenharia de tecidos e especialista em células-tronco.

Na época, Pedro Carvalho desenvolvia as soluções com foco na medicina veterinária, enquanto Fernanda Berti pesquisava para a saúde humana. Com o tempo, os pesquisadores começaram a trabalhar juntos, focando em terapias celulares baseadas em células-tronco para animais.

A pesquisa trouxe bons frutos: Berti e Carvalho desenvolveram terapias com células-tronco que duram até 48 horas em temperatura ambiente. “Percebemos que tínhamos diferencial porque as terapias geralmente são congeladas. Nossas terapias chegam no médico com a garantia de que vão funcionar, porque não precisam ser processadas”, explica Berti. Assim, Fernanda Berti e Pedro Carvalho criaram a Vetherapy em Portugal.

Fernanda Berti é brasileira e foi para o país pelo “Ciência Sem Fronteiras”, programa de pesquisa criado em julho de 2011 para incentivar a formação acadêmica no exterior. Ela permaneceu em Portugal por dois anos. A brasileira tentou trazer a startup para seu país natal, mas a produção na Europa europeu já havia começado. “Tentamos importar os produtos, mas fizemos uma avaliação de mercado e percebi que pagaríamos impostos imensos. É complexo para terapias celulares entrarem no Brasil, acabam chegando com um preço pouco acessível”, afirma Berti. Uma opção avaliada pelos acadêmicos que se tornaram empreendedores é de abrir a empresa e produzir no Brasil, mas investimentos são necessários.

O uso das células-tronco

Foi justamente com a intenção de levantar capital que Fernanda Berti e Pedro Carvalho inscreveram a Vetherapy na IndieBio, uma das maiores incubadoras de biotecnologia do Vale do Silício. A startup foi selecionada e era a única das 14 naquele ciclo focada na área PET. “Nós fomos para o Vale do Silício sabendo que, até o momento, essa é a melhor oportunidade de fazer a empresa crescer”, explicou Fernanda Berti, que hoje exerce o cargo de Chief Scientifc Officer, a sigla em inglês para cientista-chefe da startup.

No Vale, a primeira lição que tiveram foi que um portfólio com muitos produtos não era sinônimo de sucesso ou um argumento para atrair investidores – pelo menos nos Estados Unidos. Na Europa, a startup possui um catálogo de 14 produtos, todos baseados em medicina regenerativa e em células-tronco. Alguns produtos podem ser comprados facilmente e são utilizados na solução de problemas mais comuns, como a cicatrização de ferimentos e queimaduras, inflamações articulares, tendões e ligamentos – como no caso dos cavalos, que são usados para a prática de corrida esportiva. Além dos cavalos, a Vetherapy também oferece produtos para cães e gatos.

Já outras terapias são mais complexas e auxiliam até na regeneração de movimentos. “As células estão conseguindo reverter alguns casos de paralisia em animais. Fizemos testes em cachorros, eles continuam a ser os animais que mais sofrem com esse tipo de doença, como nos quadros de cinomose”, explicou a CSO da Vetherapy.

Além disso, a startup ainda realiza serviços de criopreservação, em que possibilita o tratamento dos animais com suas próprias células. “Nós retiramos uma amostra do tecido adiposo, extraímos as células-tronco e armazenamos congeladas em hidrogênio líquido. Caso fique doente, podemos desenvolver produtos personalizados para o próprio animal, utilizando suas células”, afirmou Fernanda Berti.

O aprendizado no Vale do Silício

Mas além de uma grande cartela de produtos dificultar o interesse de investidores, eles também dificultam a criação e patentes nos Estados Unidos, país em que a startup visualiza possuir seu maior mercado. “Nos Estados Unidos, precisamos da chancela do FDA (órgão americano regulador de remédios), onde a aprovação de um produto terapêutico pode custar de US$ 3 a 5 milhões”, disse a cientista. “Acabamos selecionando lá no Vale do Silício dois produtos-chaves mais atrativos, que seriam as terapias celulares com células-tronco e o gel de cicatrização. Essa foi uma estratégia que nos fizeram ver”, contou Fernanda.

O principal aprendizado que Berti e Carvalho tiveram na aceleradora foi como gerir um negócio. “Éramos duas pessoas com perfil acadêmico para cuidar da parte administrativa e vendas e eles abriram um leque gigante para a nossa vida, tanto na parte empresarial quanto acadêmica”, afirmou. Com a aceleração, foi feito o investimento de US$ 250 mil na startup. Até então, a Vetherapy crescia na técnica de bootstrapping, em que os investimentos eram fruto da própria receita gerada pelas vendas e do aporte de seus fundadores.

Passos para o futuro

Hoje, a startup transferiu sua sede para o Vale do Silício e possui uma filial em Portugal. “Pretendemos vir para o Brasil quando conseguirmos criar um centro de produção aqui”, disse a CSO. Além disso, Fernanda Berti acredita que a mesma tecnologia com células-tronco pode ser aplicada aos seres humanos. “Sabemos que conseguimos utilizá-las nos seres humanos, mas no momento queremos focar nos pets porque o número de animais de estimação tem aumentado muito”, finalizou.

Na foto de destaque: Pedro Pires Carvalho, PhD (fundador e presidente), Fernanda Vieira Berti, PhD (co-fundador e cientista-chefe), Leonardo Menegotto (representante comercial), Alessandra Zonari, PhD (executiva-chefe de tecnologia).

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