Uma startup brasileira promete acabar com a falta de moradia nas cidades

Da Redação

Por Da Redação

8 de julho de 2015 às 14:58 - Atualizado há 5 anos

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*Por Rio Bravo Investimentos

O Podcast Rio Bravo entrevista Anielle Guedes, que é a fundadora do Urban 3D, uma startup dedicada à melhoria da qualidade de vida nos centros urbanos. Na entrevista, Anielle fala sobre o propósito da empresa, que é oferecer habitação sustentável nas cidades. “A ideia é trabalhar com governos e prefeituras que queiram construir moradia social. Queremos trabalhar não somente nos centros urbanos, mas, também, nos lugares onde a urbanização ainda não chegou”, diz a entrevistada, que recentemente foi convidada para falar na Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento e também participou do encontro do G20 sobre empreendedorismo. Para Anielle, é possível aliar desenvolvimento tecnológico e sustentabilidade

Quem era Anielle Guedes antes de começar a empreender?

Acho que, talvez, Anielle sempre tenha sido empreendedora. A gente entende o empreendedorismo como uma forma de solucionar problemas e propor essas soluções para o mundo real. Eu já gostei muito de pesquisa científica, trabalhei em laboratórios e achava que o que eu queria para a minha vida era resolver problemas de forma acadêmica. Então eu estudei física e depois economia para entender como a tecnologia e a ciência impactam o desenvolvimento socioeconômico de países e de sociedades. Mas daí entendi que não era bem esse o caminho. O caminho que encontro de maior autonomia para resolver os problemas de forma que eu consiga ver o impacto deles é o empreendedorismo. Acho que a Anielle sempre foi uma “resolvedora” de problemas!

Como surgiu a ideia da Urban 3D?

A Urban 3D surgiu dentro de um programa de estudos que fiz no ano passado, quando morei no campo da Nasa, na Califórnia, por três meses. A gente tinha um projeto para fazer. Eu lembro de ter sentado um dia perto de uma lousa no chão e um dos nossos colegas chegou e falou: ‘O que você faria com uma impressora gigante?’. Pra mim, a resposta foi quase que automática: eu faria, sei lá, moradia, óbvio! Acho que essa resposta foi tão óbvia e muito instintiva por conta da bagagem que eu tive em relação a ser de uma grande cidade do sul. As cidades do sul são essas megalópoles que têm mais de 10 milhões de habitantes e que são os centros urbanos caóticos, como São Paulo. Por ser de São Paulo, acho que essa bagagem já acabou aparecendo ali. Também trabalhei num programa chamado IDDS (International Development Design Summit), que aconteceu em 2012, quando engenheiros e pesquisadores do mundo todo vieram para o Brasil e a gente morou em favelas e comunidades para desenvolver soluções para as pessoas. Então eram soluções de tecnologia mais simples, mas elas eram feitas com as pessoas e para as pessoas. O fato de ter uma experiência ali num ponto mais extremo, onde a urbanização caótica chega, acredito que tenha me afetado de forma profunda. Meu pai também tem uma pequena empresa de construção civil, o que fez que eu tivesse praticamente nascido no concreto! Então, acho que foi uma mistura de tudo o que eu tinha visto, de tudo o que eu queria fazer e o que eu queria ser, na verdade. De tudo o que eu quero deixar para o mundo e impactar com esse legado de poder usar a tecnologia para criar um impacto positivo permanente na sociedade. Foi assim que a Urban 3D surgiu.

Como a Urban 3D atua ou planeja atuar no Brasil?

A Urban 3D é uma empresa de tecnologia que está desenvolvendo materiais hardware e software para uma impressora 3D de tamanhos reais, digamos assim. Para imprimir paredes, para imprimir prédios. Às vezes, as pessoas me perguntam: “Você vai imprimir maquete?”. Não, não é maquete! É para imprimir parede mesmo. A ideia é trabalhar com governos e prefeituras que tenham interesse em construir moradia social, como CDHU e outros tipos de entidades, além de empresas privadas, que têm interesse em fazer moradias ou edifícios comerciais. A gente acredita que temos que trabalhar com todos os setores do mercado para poder criar a solução que a gente quer criar e para poder fazer construções de fato sustentáveis. Não adianta ter um nicho de mercado só com construções sustentáveis. Essa é a forma que a gente pretende atuar aqui, mas não atuar só nos grandes centros urbanos. Atuar onde a urbanização ainda não chegou ou está chegando. Um dos grandes dilemas para mim, quando a gente fala de moradia social ou urbanização, é que a gente tenta corrigir o que já está feito. A gente reclama de São Paulo e tem muitos projetos tentando corrigir a urbanização caótica que já se instalou de forma orgânica. Então a gente chega lá e começa a refazer projetos na borda das favelas, tenta conter o crescimento, ou pretende pelo menos maquiar e encobrir o que foi feito ali. Minha proposta é completamente diferente. É trabalhar com áreas urbanas que ainda não foram urbanizadas, as áreas que serão urbanas, com o espaço de não favela que irá se tornar favela se nada for feito. Trabalhar com aqueles terrenos que ainda estão vazios e que vão crescer. Existe um dado muito interessante da UM-Habitat que diz que hoje cerca de 2 bilhões de pessoas moram em condições de não ter uma casa, que não é casa. Não tem água, não tem saneamento, não tem segurança de que você vai viver naquele espaço, seja porque você vai ser removido, seja porque vai cair o teto na sua cabeça, por alguma razão aquele espaço não é seguro no sentido subjetivo da coisa. Tem uma questão de segurança objetiva, que é da estrutura física mesmo, não tem estrutura física. E a quinta coisa é que geralmente é muito lotado, um espaço de 30 metros quadrados onde moram dez pessoas, o que é inconcebível. Há dois bilhões de pessoas que não têm isso hoje, mas, daqui a 15 anos, esse número cresce para 4 bilhões ou 4,5 bilhões, dependendo da projeção da população. Ou seja, a gente tem um problema hoje, que vai dobrar se a gente não fizer nada. A minha proposta é lidar com um problema que vai dobrar primeiro.

Como a tecnologia pode melhorar a qualidade de vida dessas pessoas?

A tecnologia consiste em mecanizar e automatizar o processo da construção civil. O processo hoje, que é lento, muito intensivo em mão de obra e muito caro, além de desperdiçar materiais, muda toda a sua configuração e passa a ser um processo rápido, de construir prédios em três semanas, e não em três anos. Ele passa a não ter desperdício de material, porque a gente vai usar um compósito reciclado e, além disso, reciclar os próprios materiais que formos utilizar. A impressão 3D também é um processo limpo. Ela só utiliza o material que vai ser impresso e solidificado. Ela não desperdiça materiais. Não é uma manufatura subtrativa onde eu tenho uma peça, como um mármore, que eu corto e faço Davi. Eu imprimo Davi. Eu tiro Davi camada por camada. A terceira coisa é que ele é um processo que pretende ser 90% mais barato e usar menos mão de obra, então eu vou ter menos pessoas morrendo, menos insegurança dentro dos canteiros de obra.

Recentemente, você foi convidada para falar na Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, da mesma forma que participou do encontro do G20 a respeito de empreendedorismo. Como surgiram esses convites e o que você falou nesses encontros?

Os convites surgiram por conta do alinhamento do perfil. Acredito que tem muito espaço hoje, ou está tendo, o espaço está sendo aumentado para os jovens se ligarem a esse tipo de instituição. Eu fui convidada para esses dois encontros porque o primeiro foi ligado a tecnologia, inovação, empreendedorismo, e a gente usa essas três ferramentas para fomentar desenvolvimento sustentável, para prover soluções que se encaixariam nas metas do movimento sustentável. A Urban 3D faz todo sentido quando a gente fala sobre habitação, urbanização sustentável, mais segurança para mulheres e uma série de outros aspectos. O encontro do G20 foi focado em empreendedorismo e eu fui escolhida por ser o perfil que teoricamente encontra mais dificuldades. Na prática, eu acredito que sim, porque eu sou mulher, jovem, de um país em desenvolvimento, trabalhando com uma tecnologia extremamente disruptiva e hardware, que é extremamente cara e com uma função social. Ou seja, eu teria “a maior dificuldade” para acessar capital. Então, eu seria o perfil perfeito, como eles me disseram, para ser representante desse novo empreendedorismo que busca soluções para o mundo real, não é só o empreendedorismo ligado ao lucro. Fui a primeira empreendedora convidada para falar em um evento do G20. Falei com uma série de figuras importantes ali e eles queriam saber basicamente sobre a minha trajetória, sobre o que é a Urban 3D e as dificuldades que o empreendedor encontra nesse caminho de querer prover esse tipo de solução. O objetivo do encontro da Unctad foi explicitar um pouco melhor como essa tecnologia pode de fato criar uma solução para um problema real.

Que tipo de resposta você obteve na Unctad sobre isso?

Bastante positiva. Depois da milha fala, eu fui abordada por uma série de pessoas, entre ministro de habitação da Tanzânia, muitas outras pessoas ali, Gente da UNDP (United Nations Development Programme), por exemplo, que é o programa das Nações Unidas para desenvolvimento mesmo, e várias pessoas já interessadas em usar a tecnologia. Então, isso tem acontecido muito. Existe uma demanda forte para utilização de tecnologia, não só de organismos internacionais, de governos, de construtoras… a demanda é muito grande. Existe um assédio até grande em relação à demanda, e o contrário também é verdade. Existe uma escassez de investidores dispostos a colocar essa tecnologia de pé por conta dos riscos envolvidos. Mas foi uma resposta muito positiva. Eu fiquei muito feliz, tanto na Unctad, em Genebra, como no G20. Nos dois lugares, a resposta foi bastante positiva.

Falando em sustentabilidade, é possível aliar desenvolvimento tecnológico a uma agenda preocupada à preservação do meio ambiente?

É tudo o que eu acredito, na verdade! Exatamente esse é o meu trabalho… Como a gente usa essa abundância tecnológica que a gente vive para criar soluções para os problemas que existem. A gente tem aí 17 (se chegarem a um acordo no fim do ano das metas do desenvolvimento sustentável) metas muito sérias, ligadas a “como é que a gente projeta o nosso futuro?”. Como a gente está usando o que tem hoje para construir o hoje e o amanhã? Muitas vezes eu acredito que a nossa sociedade não tem essa visão. A gente vive muito dia após dia e esse tipo de coisa não é projetada. Acredito, de fato, que existe uma abundância tecnológica e que está praticamente na mão de todo mundo, e que a gente pode usar isso para criar soluções para o mundo real, com certeza.

Mesmo falando de um projeto em larga escala como esse?

Sim, sim. Mesmo falando de um projeto em larga escala. Na verdade, eu não entendia nada de impressão 3D há um ano. Eu não sou engenheira química, eu não trabalho com robótica, eu não sou essa pessoa. Eu lembro muito bem de uma reunião, onde a gente começou a conversar sobre materiais e a pessoa me perguntou se eu estava fazendo doutorado em concreto. “Não, eu li 23 papers nas últimas duas últimas semanas e foi tudo o que eu consegui entender e que eu consegui experimentar com esse material!”. Então, eu acredito que existem ferramentas hoje disponíveis na internet que requerem um pouco de “levantar a bunda da cadeira e fazer”.

Vocês da Urban 3D trabalham com uma agenda a médio e longo prazo bastante audaciosa falando de 15 anos, junto com os governos, para erradicar a falta de moradia. Com base em quais dados foi feita essa projeção?

Como eu mencionei um pouco antes, tem um dado da UN-Habitat que diz que existem hoje 2 bilhões de pessoas sem acesso a casa, o que eu a chamo de houseless, ou sem casa, que é um pouco diferente da definição de homeless. Homeless é a pessoa que tinha alguma vida e por alguma decisão, em geral, não em casos como o Brasil que tem crianças que moram na rua, largou essa vida porque não tinha senso de pertencimento com a comunidade anterior, e aí ela vai para a rua. O houseless é diferente. Em geral, o houseless nasceu naquela comunidade, ele nasceu numa favela, ele não tem esses cinco critérios. Os dois não têm os cinco critérios, mas por razões diferentes, por causas socioeconômicas, mentais e psicológicas distintas. A gente pretende atuar no houseless. A gente pode atuar no homeless, como eu fui para Vancouver conversar com a prefeitura sobre a construção de casas que o governo daria para as pessoas morarem, porque elas são homeless e não porque elas são houseless. Porque elas são sem casa, não porque elas são sem lar. São coisas bastante distintas. A gente pretende atuar nos sem casa, que são esses dois bilhões de pessoas. Tem uma questão socioeconômica envolvida, que é: a gente não vai construir casas, a gente vai construir prédios para termos nos primeiros andares, pequenos comércios, para fomentarmos a vida econômica e ter a malha de moradia junto com a malha econômica intrinsecamente ligadas. Essa é a forma que a gente pretende dar uma solução para essa questão, mas isso depende muito também de vontade política. Muito de apoio de governos e fundações pelos quais nós já fomos procurados, e também do setor privado. O setor privado é muito importante para a gente poder mexer no mercado todo. Não adianta ter um prédio só completamente sustentável, o que eu acho incrível, mas isso tem que se espalhar, e tem que se espalhar rápido. A gente fez uma conta uma vez bastante interessante. Se a gente tivesse a tecnologia desenvolvida daqui a dois anos e a gente colocasse um dos nossos robôs em todos os guindastes Tower Cranes do mundo, que são 117 mil até nossa última pesquisa, e pudessem imprimir casas, ou unidades habitacionais, como a gente chama, a gente erradicaria o problema em seis minutos. O que é um número bastante curioso. Quinze anos dependem muito da vontade política, da vontade econômica, de meios que encontramos para viabilizar isso junto a outras empresas. Nós não seremos uma empresa de construção civil, a priori, nós somos uma empresa de tecnologia que provê a tecnologia para que outros possam construir. Dessa forma, se a gente consegue capilarizar tecnologia, o problema pode ser resolvido muito rápido.

Quais são os governos e os parceiros da iniciativa privada com os quais vocês já têm trabalhado?

A gente tem tido bastantes conversas iniciais com construtoras. O momento da construção civil no Brasil não é muito interessante. A gente chegou a conversar com construtoras da França, dos Estados Unidos e uma na África. Tem bastantes governos africanos interessados, curiosamente. Tem uma lista de mais de 20 países que já estão interessados. O governo do Canadá, que eu fui fazer uma visita à Prefeitura de Vancouver e ao secretário de habitação da cidade. Também tiveram um interesse muito grande, porque a gente tem um ‘pipeline’ de tecnologias, a gente tem uma tecnologia que vai sair depois da outra. Então a gente tem tecnologias de reciclagem de concreto, de aditivação de concreto, a tecnologia do software e depois do hardware. Eles já estão interessados em usar a primeira tecnologia de reciclagem do material da construção civil. Outros governos se interessam a médio e longo prazo, como o governo de Tanzânia, Uganda, Quênia, Zimbabwe… Esses são os com quais tivemos conversas mais longas. Teve uma conversa com um grupo de desenvolvimento de países islâmicos, que a gente ainda vai ter que entender o que fazer com isso, até porque o Oriente Médio e Norte da África têm guerra e um monte de coisas que a gente não sabe até que ponto quer envolver a nossa tecnologia. Existe um mercado privado muito grande, por outro lado, nos Estados Unidos, onde tem surgido mais interesse também. Eu acredito que o perfil da empresa brasileira é muito conservador, então, uma vez testado fora, a gente aceita aqui. A gente não aceita testar aqui, ser o inovador e aquele que bota para acontecer.