Nunca uma companhia vai ser 100% segura, afirma gerente do Airbnb

Em painel sobre economia de compartilhamento, gerente da Airbnb e diretor da Blablacar falam sobre mercado, futuro e cultura segurança

Avatar

Por Paula Zogbi

18 de novembro de 2015 às 11:12 - Atualizado há 4 anos

“Uma das premissas da sharing economy é a confiança”, afirma Julien Lafouge, francês casado com uma brasileira que é hoje diretor geral da Blablacar para a América latina. “E são as empresas que devem criar essa confiança através de sistemas de segurança”.

A Blablacar é um aplicativo de caronas, onde motoristas cadastram viagens que já pretendem fazer e disponibilizam assentos livres de seus veículos para que outras pessoas consigam pegar uma “carona paga”: as despesas são divididas entre o dono do veículo e o usuário da carona. Com dez anos de funcionamento na Europa, o serviço chegará em breve ao Brasil e faz parte do universo que chamamos de economia de compartilhamento, ou sharing economy.

Em um painel sobre esse tipo de serviço no evento Innovators Summit, Julien conversou com Samuel Soares, responsável por parcerias e marketing de campo no Airbnb – que oferece um conhecido serviço semelhante, com hospedagem, e já está no Brasil desde 2012.

Para ambos, a moderação é uma das partes mais importantes do negócio. “Temos mais de 40 ferramentas de verificação, entre softwares e humanos”, afirma Samuel. “Sua foto, por exemplo, não pode ser de nada que não seja você mesmo. Mediamos conversas, negociações, pagamentos, e se for necessário entramos em contato diretamente com o usuário; além de liberar os comentários, que são essenciais para a avaliação”, contabiliza. A Blablacar segue o mesmo padrão: “o principal é o usuário”, diz Julien.

Mesmo assim, eles sabem que seu modelo de negócio não funciona do dia para a noite e depende muito do relacionamento interpessoal. “Serviços compartilhados têm muito a ver com a cultura do país”, comenta o francês. “Na Alemanha, por exemplo, descobrimos que a cultura das caronas já estava bastante difundida, e no Brasil não é diferente: muita gente disse que existe uma insegurança do brasileiro, mas descobrimos que centenas de milhares de pessoas já se organizavam em caronas através das redes sociais”.

Isso também ocorre, segundo Samuel, no ramo da hospedagem. “Acho que o espírito hospitaleiro do brasileiro compensa essa possível insegurança”, diz. “Hoje o Rio de Janeiro é a sexta cidade que mais usa o Airbnb, e somos a parceria oficial com o Rio16 para a hospedagem de atletas nas Olimpíadas do ano que vem”, comemora o gerente.

Mas problemas acontecem.

“No caso de sinistros, procuramos sempre cooperar com as autoridades. Se tiver polícia envolvida, a Blablacar dará todo o suporte e trabalhará em conjunto”, garante Julien. No Airbnb também existem os seguros: “para quem disponibiliza seu espaço no Brasil, temos um seguro de até R$3 milhões para o caso de a casa pegar fogo, por exemplo. Isso já foi até usado no Brasil”, diz Samuel, que completa que os hóspedes também são cobertos por seguros.

Nenhum deles, entretanto, acredita que esse problema é exclusivo da economia de compartilhamento. “As empresas nunca estarão 100% blindadas”, crava Samuel. “Todos estão sujeitos a acidentes”.

Competição e coexistência

“Comparar o Airbnb com a rede hoteleira para mim é como comparar um carro é uma bicicleta”, diz Samuel. “O Airbnb nunca conseguirá oferecer o que um hotel oferece, assim como, na minha opinião, um hotel nunca poderá oferecer a humanização e o contato com a cultura local que o Airbnb oferece. Existem as pessoas que se preocupam, mas rechaçar sem entender não é a coisa mais inteligente a se fazer”, alfineta.

Segundo ele, o ritmo de crescimento da indústria hoteleira só comprova sua colocação: “nos últimos cinco anos, eles vêm crescendo em velocidades nunca vistas antes, tem espaço para todos”. O mesmo espaço para todos é um conceito também usado por Julien: “a economia vai se aquecendo. Muitas pessoas que vão usar a Blablacar são aquelas que só podem viajar porque pagarão mais barato – é mais gente viajando, o tamanho do bolo aumenta”, explica. “No transporte, todo mundo convive”.

“É normal que o player do mercado olhe sem entender, mas o nosso papel é explicar, comenta. De acordo com ele, a companhia está se aproximando, no total, de uma economia de 1 milhão de toneladas de CO2 emitido com o esquema de compartilhamento.

Governos e regulamentação

“Nem sempre o governo é nosso inimigo”, diz Samuel. “Na Copa do Mundo [2014], Cuiabá procurou o Airbnb proativamente, porque percebeu que o número de pessoas que chegariam para assistir aos jogos seria maior do que o número de leitos que a cidade dispunha”. Mas nem tudo são flores. “A tecnologia costuma outpace os governos, então se esperarmos a aprovação deles provavelmente não evoluiremos”, afirma.

Para Julien, o importante é que o diálogo seja constante: “o governo e as leis não podem ser ignorados, tudo precisa estar muito bem explicado para que todos estejam de acordo, se não a gente não pode trabalhar”. Segundo ele, aliás, os governos deveriam, em certa medida, agradecer a iniciativa. “Quem compartilha viagens dirige com mais cautela, dentro dos limites de velocidade, corre menos riscos de simplesmente dormir ao volante. A Blablacar melhora muito a segurança nas estradas”, garante o executivo.