“O sonho é de trazer o que já acontece na China para cá”, diz diretor da 99

Tainá Freitas

Por Tainá Freitas

27 de agosto de 2018 às 08:59 - Atualizado há 2 anos

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No início deste ano, a 99 se tornou o primeiro unicórnio brasileiro. Isso aconteceu após a startup ser adquirida por US$ 960 milhões pela DiDi Chuxing, gigante chinesa da mobilidade. Antes disso, a startup já havia recebido uma rodada de investimentos recorde no Brasil no valor de US$ 200 milhões de investidores como a Softbank e a própria DiDi.

Davi Miyake, diretor de Estratégia e Operações da 99 esteve no Mobility Day – evento da StartSe sobre as maiores inovações do setor de mobilidade – nessa sexta-feira (24). No evento, Miyake trouxe uma provocação: “por quê temos tantos unicórnios na mobilidade?”, questionou, citando exemplos de outras startups do setor como a Ola na Índia, Grab no Sudeste Asiático e a DiDi Chuxing.

O próprio diretor de Estratégia e Operações da 99 trouxe a resposta: “porque somos disruptivos em uma indústria de US$ 7 trilhões”, segundo dados da Goldman Sachs. “Não é sempre que uma indústria desse tamanho tem uma disrupção”, comentou.

Para exemplificar, Miyaki citou alguns setores que sofreram mudanças importantes, como o varejo com o e-commerce e a comunicação com o advento das mídias sociais. Em ambos os casos, novos negócios foram criados a partir da disrupção – e a mobilidade está mudando, movimento que deverá se intensificar ainda mais nos próximos anos.

“A próxima década é a nossa década, é a década da mobilidade. Estamos em um momento muito especial onde muita coisa vai acontecer muito rápido”, prevê o diretor de operações da 99. Uma das mudanças em que Davi acredita é que a mobilidade deixará de ser concentrada nos automóveis devido ao trânsito cada vez maior e o impacto econômico na vida das pessoas.

“A popularização do carro há algumas décadas tornou as cidades ‘car first’ (colocando o carro em primeiro lugar), trazendo impactos relevantes para a sociedade. No Brasil não é diferente, as pessoas passam em média 30-40 dias no trânsito. Se você não é privilegiado a morar perto de seu trabalho, você está perdendo um mês da sua vida no trânsito”, afirmou.

Mas para o setor de mobilidade mudar, a sociedade deverá passar por uma grande desconstrução. Isso já está acontecendo – a Lyft, serviço de corridas por aplicativos realizou uma pesquisa nos Estados Unidos em que 25% dos usuários acreditam que agora ter um carro é menos importante.

Para Davi Miyaki, três iniciativas auxiliarão nessa transformação: o ride hailing, maior acesso e internet das coisas (ou IoT, internet of things). O ride hailing – como são chamados os aplicativos de corrida – acabam desconectando o sentimento de posse e utilização do transporte, já que os usuários podem ir de um local para o outro de carro, mesmo sem possui-los, em qualquer horário ou momento do dia.

Os próprios aplicativos desse tipo descomplicaram o serviço de andar de táxi ou com motoristas, possibilitando que a profissão se tornasse autônoma, o que se tornou uma oportunidade de trabalho e renda extra para muitas pessoas.

Já para os motoristas, Davi Miyaki citou a utilização de GPS como um ponto positivo, já que antes levava um tempo até aprenderem caminhos mais fáceis e que fugissem do trânsito da cidade. “Eu fui motorista da 99 nas horas vagas em uma cidade que desconhecia e ninguém notou”, comentou.

Já a iniciativa de “maior acesso” permite que os motoristas reduzam o custo por quilômetro rodado, aumentando o público que troca a posse por utilização do transporte. Na China, país natal da dona da 99, isso tem acontecido através dos carros elétricos, já que a energia elétrica é um ativo mais barato que o combustível hoje.

E mesmo em países onde os carros elétricos ainda não são uma realidade palpável, o maior acesso trazido devido aos aplicativos de ride hailing está fazendo que algumas pessoas deixem seus carros de lado. “Andar de 99 é mais barato do que ter um carro próprio para a grande parte das pessoas. Fizemos uma pesquisa na 99 e para pessoas que moram até 12 km do trabalho e vão e voltam todos os dias, é mais barato”, afirmou. Na pesquisa, foram considerados custos de gasolina, manutenção, impostos e veículo com preço médio.

No futuro, as pessoas que tiverem carros os usarão como uma ferramenta de trabalho – como nos aplicativos de ride hailing -, ou compartilhamento (chamado de “car sharing”), iniciativa já disponível no país através do aplicativo Moobie, por exemplo.

E se para muitas pessoas hoje vale mais a pena percorrer a cidade com o auxílio de aplicativos de corrida, em breve deverá ser ainda mais – pelo menos é o que a 99 deseja alcançar. “A 99 adotou a estratégia de reduzir preços, o que pode fazer com que mais pessoas desistam de comprar os seus carros – queremos acelerar tudo isso”, explicou.

A terceira iniciativa citada por Davi Miyaki é a internet das coisas porque os próprios aplicativos auxiliam na criação de dados e inteligência do trânsito nas cidades (como no caso do Google Maps e Waze). “Hoje temos a visibilidade dos dados em tempo real, imagina o que iremos conseguir fazer quando os analisarmos de forma estrutural. É possível realizar parcerias com governos para a monitoração de dados de trânsito e ajudar em políticas públicas”, exemplificou. A 99 já possui parcerias com algumas cidades no país, auxiliando-as no monitoramento do trânsito.

A iniciativa da DiDi

Segundo o diretor de Operações e Estratégia da 99, a DiDi Chuxing possui parceria com mais de 10 cidades na China, onde controla mais de 1200 semáforos. “Os algoritmos de deep learning conseguem estimar qual é o tempo em que cada farol tem que ficar aberto ou fechado para aliviar o trânsito nas vidas”, afirmou.

O impacto da gigante chinesa na China é enorme: a empresa é capaz de reconfigurar as pistas de acordo com a demanda e necessidade dos cidadãos, diminuindo o trânsito das cidades.

Além disso, a gigante chinesa já atua em mais de dez tipos de modais diferentes na China e deverá trazer a inteligência e experiência adquirida para o Brasil. “A 99 veio para ficar – o nosso sonho é trazer as coisas que já acontecem na China para o mercado brasileiro – não consigo falar o quê nem quando porque ainda estamos estudando”, afirmou Davi Miyaki. As soluções deverão ser adaptadas para o público e estrutura brasileira, considerando a nossa cultura local.

Foto: Eduardo Viana