"Temos o objetivo de criar um coração inteiro em laboratório até 2030", afirma pesquisador da USP

Gabriel Liguori, médico pela USP e pesquisador, conversou com a StartSe sobre medicina regenerativa e a construção de órgãos artificiais

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A medicina está mudando drasticamente: além de um novo olhar para os cuidados com a saúde, também há tecnologias super inovadoras tomando conta do setor. Elas vão desde edição de DNA até a impressão e criação de órgãos e tecidos em laboratório!

Para entender melhor sobre essas inovações, a StartSe entrevistou o Gabriel Liguori, médico pela USP e pesquisador, que estará presente no HealthTech Conference e desenvolve pesquisas na área de medicina regenerativa no InCor-HCFMUSP com o objetivo de construir órgãos artificiais.

Confira abaixo:

 

StartSe: Quais são os principais setores de HealthTech?

Gabriel Liguori: Essa é uma boa pergunta. Comumente, o termo HealthTech é empregado para o uso de tecnologias como big data, aplicativos, wearables e inteligência artificial para melhorar os processos de entrega, pagamento ou consumo de serviços em saúde. Do meu ponto de vista, entretanto, HealthTech é algo muito mais abrangente. Acontece que muitas vezes tecnologias de ponta com impacto em saúde, como edição gênica, bioimpressão, terapia celular, dentre muitas outras, acabam sendo tratadas como um setor em separado, denominado BioTech. Eu acredito que muito do que chamamos de BioTech hoje faz, na verdade, parte da HealthTech, uma vez que já está impactando diretamente na saúde de muitas pessoas, mesmo que ainda de maneira experimental.

 

S: Quais são as novidades mais disruptivas que estão saindo no setor?

G. L.: Puxando a sardinha pro meu lado, acredito que as novidades mais disruptivas são exatamente aquelas saindo do laboratório. Dentre elas podemos citar as que mencionei anteriormente - edição gênica, bioimpressão e terapia celular - bem como algumas outras dentre as quais epigenômica, labs-on-a-chip, organs-on-a-chip e nanorobôs.

 

S: Você trabalha diretamente com a construção de órgãos artificiais, certo? Como a construção funciona? Seria uma impressão? É uma tendência para os próximos anos?

G. L.: Eu trabalho com engenharia de tecidos, que procura construir órgãos e tecidos em laboratório. Naturalmente, o estágio atual da tecnologia nos permite apenas fazer órgãos e tecidos mais simples, como vasos sanguíneos, valvas cardíacas, órgãos cartilaginosos (como orelha e nariz), pele e ossos. A engenharia de tecidos procura organizar biomateriais, células (em geral células-tronco) e biomoléculas de maneira a criar estruturas capazes de mimetizar o funcionamento do tecido nativo. Um dos métodos de se fazer isso é utilizar modelos do órgão de interesse, digamos uma orelha, feitos de polímeros biodegradáveis, adicionar alguns fatores de crescimento (as biomoléculas) nesse modelo e cultivar células sobre ele.

Após certo tempo, as células ocuparão o lugar do polímero, se diferenciarão em uma linhagem específica e formarão um tecido capaz de mimetizar a orelha nativa. O problema dessa abordagem, que por muitos anos foi a mais utilizada no campo da engenharia de tecidos, é que ela apresenta sérias limitações quando se pretende construir tecidos mais complexos. Órgãos como coração, rins e fígado apresentam não apenas uma série de tipos celulares distintos, mas também uma grande microvascularização, que é responsável pelo transporte de nutrientes e oxigênio para as células. Com as metodologias tradicionais, é impossível recriar essa complexidade e, portanto, ficamos limitados aos tecidos mais simples. A impressão 3D, assim, surgiu como uma grande aliada da engenharia de tecidos, passando a constituir o que chamamos de bioimpressão. O processo de bioimpressão funciona de maneira simples: hidrogéis carregados com células e biomoléculas são impressos em 3D no formato do órgão que desejamos construir, possibilitando a alocação dos constituintes teciduais de maneira pré-definida e organizada. Dessa forma, podemos imprimir diversos tipos celulares, sob diferentes substratos, e até mesmo criar redes microvasculares nos tecidos impressos.

 

S: Qual os impactos que essa tecnologia promete trazer?

G. L.: No momento, a tecnologia ainda está em fase de experimentação. Estamos trabalhando com ela em laboratório para entender quais são os desafios em construir diferentes tecidos. Mas conforme as pesquisas forem avançando, a tecnologia permitirá a criação de órgãos e tecidos para uso clínico. Inicialmente, tecidos mais simples, como os já mencionados anteriormente - vasos sanguíneos, valvas cardíacas, órgãos cartilaginosos (como orelha e nariz), pele e ossos - e futuramente tecidos complexos, como órgãos inteiros, incluindo coração, rins e fígado.

 

S: Em quanto tempo você acha que essa tecnologia chegará ao mercado?

G. L.: Acredito que os tecidos mais simples chegarão ao mercado em menos de 10 anos, pois apesar de já estarem em desenvolvimento avançado em laboratório, ainda precisam passar por clinical trials para serem aprovados para a aplicação em humanos. Já os órgãos inteiros, por sua vez, ainda exigirão muita pesquisa antes de estarem até mesmo disponíveis em laboratório. Eu costumo dizer que temos o objetivo de criar um coração inteiro em laboratório até 2030. Entretanto, mesmo depois que chegarmos lá, outros 10 anos pelo menos serão precisos para a avaliação desses órgãos artificiais em humanos até que os mesmos estejam disponíveis para o mercado.

 

S: O quão acessíveis são essas novidades? Você acha que elas poderão ser comercializadas facilmente?

G. L.: Quando essa tecnologia chegar ao mercado, outros desafios devem acompanhá-las, como as questões de disponibilidade - quem poderá pagar por elas? - e também éticas - podemos nos manter vivos indefinidamente trocando órgãos como trocamos as lâmpadas de casa? Mas esses tipos de questionamentos são naturais e inerentes a qualquer tecnologia disruptiva em saúde e deverão ser progressivamente mais discutidos conforme estivermos mais perto do nosso objetivo final.

 

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