Cisco, que já foi a maior empresa do mundo, agora aposta nas pequenas

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Por Paula Zogbi

4 de março de 2016 às 17:03 - Atualizado há 5 anos

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Em 2000, a Cisco Systems era a maior empresa do mundo. Hoje, aposta em outras empresas, com programas de apoio a empreendedores.

Nina Lualdi, diretora sênior de Iniciativas Transformacionais e Inovação da Cisco na América Latina, falou ao Podcast Rio Bravo nesta semana sobre a estratégia de enfatizar a colaboração, além de promover novos negócios e de fortalecer o empreendedorismo.

O laboratório promove iniciativas com universidades e startups, que mostram que o mercado de tecnologia pode estar caminhando para um enxugamento de companhias e uma possível “startupização” e possível extinção das empresas “dinossauros”.

Nina explica que a companhia vem trabalhando com cidades inteligentes, urbanização, educação, saúde, energia, entre outras: a estratégia da empresa passou de um único tipo de produto para toda uma gama de pesquisas.

Veja a entrevista completa:

Como funciona o Centro de Inovação da Cisco e de que maneira o fato de estar integrado a uma rede global promove e acelera essa estratégia da inovação?

O Centro de Inovação da Cisco existe a partir de uma necessidade que ficou muito clara para nós faz uns anos. O Centro é parte de um pacote de investimentos que a Cisco fez no Brasil. Então quando olhamos o propósito dele, temos que ligá-lo com os outros investimentos que nós fizemos no Brasil. O propósito é ajudar os nossos clientes tanto no setor público como no setor privado a transformar, a digitalizar. Todos os nossos grandes clientes naquela época, grande parte dos nossos clientes na área de médias e pequenas empresas, todos têm necessidade de transformar. Transformar tanto os produtos e serviços que eles propõem ao mercado, mas também transformar as operações deles, aumentar a produtividade dos seus negócios. Especialmente em momentos de crise, isso se torna necessidade primordial.

Foi óbvio para nós que essa necessidade precisa de a Cisco ter um relacionamento com seus clientes muito diferente do relacionamento de um vendedor de tecnologia. A solução para que a transformação que o cliente tem que fazer, aquela digitalização, precisa normalmente do que eu chamo de quebra-cabeça de soluções. É como você armar um quebra-cabeça com peças de tecnologia, com peças de modelos de business. As peças de tecnologia não necessariamente são todas Cisco. As peças de tecnologia, o cliente quer que alguma seja de verdade completamente disruptiva. Aí começa a entrar um ecossistema de soluções, um ecossistema de peças de tecnologia, peças de modelos de business. Quando você consegue colocar todas as peças juntas e armar aquele quebra-cabeça, essa é a solução que ajuda os nossos clientes a transformar. Mais e mais nós vemos essa necessidade. Então por que criar o Centro de Inovação? Para criar a capacidade de trabalhar esse tipo de soluções, trabalhar na integração das nossas soluções com soluções de parceiros locais, com soluções aplicativas de startups para poder dar aos nossos clientes a solução aos problemas deles, que cada vez são mais complexos, e simplificar aquela complexidade.

Por isso a necessidade de investir também em fundos de venture capital que foi parte do pacote universal. Então você começa a costurar uma estratégia, onde o Centro de Inovação é só uma. Todo o trabalho que nós fazemos de ajudar empresas, tanto empresas estabelecidas como startups, a desenvolver aplicativos e soluções sobre a plataforma Cisco é todo um trabalho para criar um ecossistema sustentável. Essa inovação, essas tecnologias têm uma via para acelerar a chegada ao mercado, para acelerar a oportunidade que elas têm. Esse é o conceito do Centro de Inovação. A estratégia do Centro de Inovação é tão crítica para a Cisco hoje, que nós temos evoluído nosso processo de inovação como empresa. Nós somos conhecidos por sermos uma das empresas mais inovadoras da indústria. Mas de onde vem essa inovação? Não é só uma inovação interna. Nós temos, sim, um processo complexo de inovação interna, mas nós somos também conhecidos na indústria como os que mais adquirimos empresas, por exemplo. É um balanço entre a inovação que acontece internamente, a inovação que acontece externamente que nós temos mecanismo para conectá-las, eventualmente se faz sentido adquiri-las, mas não sempre. A maior parte do engajamento que temos com o mundo de empreendedorismo a nível mundial é muito maior que a proporção de empresas que nós adquirimos. Essa máquina de conectar com o mundo do empreendedorismo é uma coisa que a Cisco faz bem.

Os centros de inovação são outra nova peça que se adiciona a isso. Os centros de inovação estão em regiões onde nós não temos desenvolvimento da Cisco, mas estão estrategicamente em regiões que sabemos que têm polos de inovação e empreendedorismo e polos de clientes que precisam dessa conexão, precisam que a Cisco ajude-os a conectar as peças. Armar esse quebra-cabeças. Benefício para os dois lados.

Como a cidade do Rio de Janeiro se insere nesse contexto que você acabou de mencionar, do ponto de vista do centro de inovação?

Para nós, foi importante estabelecer o Centro no Rio de Janeiro por vários motivos. Muitos dos nossos grandes clientes estão no Rio de Janeiro. Nós já tínhamos um escritório importante na Barra da Tijuca, no Rio. É óbvio que a importância dos eventos que estão acontecendo no Rio atraem investimentos, empresas e foco. Isso também ajuda. Também acreditamos, de verdade, na visão que tem o Rio de Janeiro. O Rio de Janeiro tem uma visão a longo prazo muito importante. Só olhar o que a cidade está fazendo com uma área como o Porto Maravilha. Olhar o que a cidade está fazendo com o conceito nas áreas de conhecimento. É um polo comunitário com viés de conectar, de digitalizar as comunidades. Isso e mais, que parte da visão do Rio de Janeiro como cidade e do governo do Rio de Janeiro, foi outro elemento muito importante, pois se encaixa bem na nossa filosofia e na nossa visão de ecossistema, é de inovação, é de cidade progressiva e inteligente.

Quantas das iniciativas que têm sido desenvolvidas no Rio de Janeiro podem ser adotadas por outras cidades? Há algum tipo de pré-requisito?

Nós não desenvolvemos soluções para o Rio de Janeiro. Todas as soluções que desenvolvemos aqui são soluções que vêm de uma necessidade de clientes em qualquer setor da economia. Não fazemos soluções para uma região específica. Todas as soluções são orientadas a segmentos da economia específicos e para necessidades que são comuns às empresas nesse setor.

Em relação à colaboração com as universidades e as comunidades abertas, de que modo a participação do Centro de Inovação com esses grupos tem trazido resultados importantes e inovadores para a empresa?

São dois tipos de relacionamento e dentro de cada um tem várias partes. Temos dois tipos de relacionamento. Obviamente universidades são uma base importante de clientes para a Cisco. O mercado da educação é o mercado de maior crescimento para nós em termos de negócios. Isso é importante, porque há esse nível de relacionamento, o engajamento com as universidades vai além do engajamento de cliente e vendedor. Quase todas as universidades que são clientes da Cisco, nós temos um relacionamento que vai além de proporcionar tecnologia. Nós as ajudamos a entender como transformar não só o ensino para aumentar a qualidade, a produtividade, a satisfação, mas também trabalhamos com elas em como tornar essas comunidades – porque universidades são comunidades – mais inteligentes, para que não só aumente outra vez a produtividade e a satisfação dos estudantes e professores e outras pessoas que têm que operar dentro dessa comunidade, mas também que comece a criar fontes alternativas de lucro através da tecnologia. A outra parte como nos relacionamos com universidades são programas em que você não tem necessariamente o relacionamento de cliente e vendedor. Temos, por exemplo, um relacionamento muito estratégico com os institutos federais no Brasil. Temos vários acordos com eles ajudando-os nas duas área, de como pensar em transformar o ensino mesmo e como repensar em transformar o conceito de preparação e ensino, desenvolvimento dos professores e muitos dos institutos federais têm um foco bem alto em tornar os parques tecnológicos deles parques que sejam inteligentes, que tenham um atrativo para os diferentes grupos que eles queiram que invistam recursos lá e também ajudá-los com uma plataforma sustentável de inovação. Muitos deles querem tornar-se centros de inovação sustentáveis, exitosos.

A dificuldade das universidades do Brasil em geral é que elas têm um talento maravilhoso, há muita pesquisa sendo desenvolvida. A dificuldade é que pouca dessa pesquisa é aplicável no mundo dos negócios. A conexão entre o centro de desenvolvimento dessa pesquisa e o mundo do negócio é muito pouca. Então nós ajudamos eles a entenderem como criar mais possibilidades de conectar mais. E depois temos também programas a nível mundial que oferece a oportunidade de estudantes serem estagiários na Cisco, nos Estados Unidos. O último tipo de relacionamento que temos com universidades é o desenvolvimento mesmo de tecnologia. Dependendo das necessidades, das soluções que estamos trabalhando, pode acontecer que precisemos desenvolver um módulo da solução. Por exemplo, nós temos desenvolvido com a Inatel um projeto importante há um ano e meio e trabalhamos com eles muito concretamente nesses projetos.

Com as startups, a Cisco tem dado atenção às soluções destinadas as áreas destinadas à educação, saúde e cidades inteligentes. Esses três setores fazem parte de uma predileção da agenda de investimentos da Cisco? Você poderia comentar um pouco de outras experiências nesse segmento?

Aqui no Centro nós temos foco em várias áreas. Sim, educação e cidades inteligentes são áreas importantes, mas nós temos um desenvolvimento importante na área de saúde. Área de energia é extremamente importante. É a área em que somos mais conhecidos dentro da Cisco em nível mundial. A Cisco não tinha presença na parte operacional das empresas de energia. Sim, somos os líderes na parte de TI, mas nunca tínhamos tido presença na parte operacional, na parte da rede elétrica mesmo. Só na parte administrativa de TI das empresas. Nos últimos anos temos feito um trabalho muito importante de foco. Como vocês podem ver aqui no Centro de Inovação, hoje nós temos uma solução completa end to end smart grid já integrada com cinco empresas locais de medidores, que desenvolveram módulos sobre a plataforma Cisco e startups que também têm soluções de IOT, Internet of Things, e também na área de iluminação pública. A nossa solução é integrada. Já estamos fazendo implementação em algumas empresas de energia. Então energia é muito importante para nós. Outra área importante que acabamos de inaugurar um novo polo de demonstração aqui no centro é a área da indústria. Nós temos plataformas para automatizar áreas industriais, seja uma manufatura ou uma área de produção mineira de petróleo e gás, seja offshore… Acabamos de inaugurar faz três semanas num evento com clientes importantes e a imprensa a finalização da integração das nossas soluções. Para você ter um end to end onde o mundo de TI que estava antes no closet, agora esse investimento ajuda você a gerenciar toda a parte operacional e automatizar a parte de produção. Então essa é uma área também muito importante para a Cisco. A última área que acho que vale a pena destacar, dentro das smart cities, é a segurança. Segurança Pública integrada. Tudo o que você pode imaginar de tecnologia que permite uma cidade, comunidade ou país controlar e gerenciar as operações dessa cidade. Se você vem aqui no Centro, vai ver como várias das nossas soluções integradas com as soluções de parceiros permitem você integrar várias agências que têm que intervir em um caso de emergência, em caso de eventos planejados ou não. Todos integrados com o mesmo sistema de comunicação, o que permite em tempo real gerenciar eventos, reagir a eventos e também antecipar-se a possíveis problemas.

Do ponto de vista da gestão, qual é o principal desafio para executar esses projetos?

A maior parte dos projetos é complexa do ponto de vista tecnológico. Tem a complexidade tecnológica, e por isso, por exemplo, no centro de inovação nós temos os engenheiros mais ‘experts’ que temos na Cisco, não só no Brasil mas na América Latina, porque as soluções são complexas, têm uma abrangência no portfólio de tecnologias muito grande. Esse pode ser um desafio, mas um desafio que nós sabemos gerenciar. Outro desafio é quando você integra. Integrar soluções com terceiras partes não é fácil. Somos duas empresas diferentes, então a integração não é só uma integração de tecnologia. É preciso chegar a um ponto em que você se entende com a outra parte também no mundo de como chegar ao mercado. Isso agrega complexidade. Se a solução precisa de desenvolvimento, há a complexidade de como e quem faz o desenvolvimento. Nós geralmente não fazemos desenvolvimento porque nós acreditamos mais em utilizar parceiros locais para promover aquela propriedade intelectual nacional e promover o ecossistema. Nós acreditamos que aí está o segredo, esse ingrediente que faz que você chegue a uma solução inovadora. Então entra outra complexidade: identificar quem no Brasil pode fazer com standards que nós precisamos e que consiga trabalhar com várias entidades. Normalmente quando estamos desenvolvendo alguma peça, essa peça tem que interagir com várias outras peças do quebra-cabeça e nem todas são Cisco. É outra complexidade. É fácil quando se faz isso dentro de casa. Aqui tem todo o trabalho de orquestrar aquele ecossistema, mas essa é a filosofia Cisco. Nosso DNA sempre foi acreditar nos parceiros. Nós acreditamos que se fazermos tudo internamente, o que é mais fácil de gerenciar, não conseguimos ser tão inovadores e o cliente não consegue ter a melhor solução. Sempre temos acreditado no modelo de sistema de ecossistema de parceiros.

Quais outros projetos vocês têm desenvolvido e estarão em operação em 2016?

No Rio, o projeto mais importante que estamos desenvolvendo é o projeto do Porto Maravilha. Nós estamos criando um ambiente de comunidade inteligente e humana. Estamos colocando toda nossa infraestrutura de cidade conectada, e sobre isso, já estamos colocando vários serviços inteligentes. A orientação aqui é cidades humanas. Agregar serviços inteligentes que conectam o cidadão à cidade, à comunidade e ao governo da cidade. Criar uma plataforma que chamamos de plataforma de colaboração do cidadão. Então você vai ver no Porto Maravilha nos próximos meses, já estamos em implementação, você vai ver a possibilidade de acesso a wi-fi, esse acesso já tendo analíticos que ajudam a cidade a monitorar o que está acontecendo no Porto e a planejar, vai ter alguns elementos de sensoriamento, alguns nós estamos colocando, outros você vai ver como resultado do desafio que fizemos no ano passado, onde tivemos cinco startups nacionais que ganharam o desafio, você vai ver um par delas que são orientadas ao sensoriamento já temos esses mecanismos de sensoriamento que ajudam a cidade a gerenciar melhor, o que ajuda ao cidadão gerenciar melhor a vida dele dentro da cidade.

Você vai ver aplicativos, que ajudam o cidadão se conectar com outros cidadãos e com a estrutura da cidade e outros programas, que vou deixar para a surpresa, que utilizam da tecnologia, mas com viés de conectar com o ser humano e ajudar esse ser humano a conectar com o concreto, com a estrutura da cidade. Porto Maravilha está ficando bem lindo, mas a estrutura não se conecta com o indivíduo de hoje. O indivíduo de hoje é o indivíduo digitalizado, o indivíduo que se conecta através da tecnologia, que colabora com outros cidadãos, que tudo que faz é através dessa colaboração no mundo virtual. O que estamos fazendo é conectando essa maravilhosa estrutura concreta que está lá com o cidadão.