Startup Pier cria modelo comunitário de seguros para smartphones

Insurtech quer acabar com “conflito de interesses” entre clientes e seguradora por meio de produtos com valor variável em uma plataforma 100% digital

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Há indícios de que, mais de 2000 anos antes de Cristo, comerciantes da Babilônia, China e Império Romano já se associavam para levantar fundos em comum com o intuito de, no futuro, cobrir possíveis prejuízos individuais. Esta noção de seguro comunitário, no entanto, se perdeu quando, com o advento das seguradoras, nasceu um conflito de interesses com o cliente: quanto mais prejuízos elas cobrem, menos lucro elas têm. A startup brasileira Pier surgiu com o objetivo de retomar a ideia de uma seguradora comunitária e diminuir o atrito entre os clientes e as empresas deste mercado.

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A insurtech foi fundada pelos empreendedores Lucas Prado, Igor Mascarenhas e Rafael Oliveira. No início de 2018, a Pier começou a validar seu produto: um seguro contra furto e roubo para smartphones em uma plataforma totalmente digital. No fim do ano, a empresa estabeleceu uma parceria com a seguradora Too para poder operar neste mercado e, desde o começo de 2019, vem escalando seu negócio.

Até agora, a startup trabalha apenas com seguros para iPhone. Esta foi uma escolha pensada para restringir o público alvo nos primeiros meses de operação. Entretanto, a Pier lança no dia 18 de julho a cobertura para alguns celulares da linha Samsung Galaxy. Hoje, a penetração do Android no mercado brasileiro é 20 vezes maior que do iPhone. O plano é, no futuro, escalar para outros produtos da indústria, como automóveis e casas.

Diferenciais

Lucas Prado, que é o líder da área de marketing, concedeu entrevista exclusiva à StartSe e listou os principais diferenciais da Pier no mercado de seguros para smartphones. “A contratação do produto é totalmente digital, através do aplicativo. Não tem carência, não tem franquia e não precisa de nota fiscal do aparelho para ser contratado”, explica.

Diferente da concorrência – que inclui grandes seguradoras como Zurich e Assurant, além de startups como a Pitzi – o seguro da Pier cobre o furto simples, que corresponde a 90% dos furtos no Brasil. Para pedir o reembolso, basta ter o IMEI (código de identificação do aparelho) bloqueado na operadora e o boletim de ocorrência.

Além disso, o seguro é mensal e pode ser cancelado a qualquer momento. Isto diminui a barreira de entrada para o cliente, que pode inclusive contratar o produto apenas durante suas férias, por exemplo.

Os recursos de tecnologia da Pier não estão restritos ao fato de ser uma plataforma digital. Com algoritmos de análise de dados e inteligência artificial, a empresa reduz fraudes. “Analisamos dados de compra, de crédito, informações públicas, coletamos dados através do app, para construir um ‘perfil digital’ do potencial cliente”, explica Lucas Prado. “Na hora de pedir um reembolso, cruzamos uma série de informações. Já tivemos negativas de reembolso em casos evidentes de fraude”.

Na visão do empreendedor, porém, o maior diferencial da Pier é a “proposta de valor como empresa”.  “Queremos mudar a relação que as pessoas têm com a indústria de seguros”, diz.

Comunidade Pier

Para se tornar um cliente da Pier, é preciso receber um convite de um membro ou solicitar a entrada através do site. Atualmente, há 5500 membros e mais de 30 mil pendências. Só são aceitas pessoas cujo ‘Perfil Digital’ está alinhado com a comunidade.

Isto porque todo o modelo de negócio da insurtech foi estruturado como um seguro comunitário, diferente das seguradoras tradicionais. “Existe um conflito de interesses no modelo de negócio da indústria de seguros. O lucro da seguradora vem da diferença entre o que se arrecada e o que se paga, e pode ser maior quando ela nega reembolsos”, explica Lucas Prado.

No caso da Pier, a mensalidade do cliente é dividida da seguinte forma: 20% vai para a Too, parceira responsável pela parte regulatória do negócio; 20% é a remuneração da Pier; os 60% restantes vão para um fundo do qual são pagos os reembolsos. Desta forma, não interessa à startup negar reembolsos legítimos, já que esta prática não geraria lucro.

Portanto, os valores das mensalidades podem ser ajustados mensalmente, de acordo com a quantidade de dinheiro que há no fundo de reembolsos. Quanto mais pessoas há na comunidade e menor é a incidência de furtos, roubos e fraudes, menor será também o valor pago por cada uma delas. “Já tivemos em algumas oportunidades a diminuição da mensalidade”, revela o CMO da Pier.

Hoje, a precificação é feita apenas com base no modelo de celular da pessoa, com base na tabela Pipe de seminovos. A cada seis meses, há uma reavaliação dos preços dos smartphones e, portanto, queda do valor da mensalidade – e do potencial reembolso.

Mercado de seguros

A Pier vem crescendo entre 20% a 25% por mês. Em um mercado em que apenas 3% dos celulares são segurados, o potencial de escala é enorme. A expectativa é acelerar ainda mais com a cobertura de dispositivos Android.

Prado revelou que, antes de fechar a parceria com a Too, cerca de 70 seguradoras foram contatadas. “Elas costumam ver as startups como provedores de serviços dentro da cadeia de valor. Ou seja, startups que ajudam na precificação ou na avaliação de risco, por exemplo”, explica.

“Nossa visão, como empreendedor, não era se inserir no modelo de uma seguradora, mas mudar toda essa relação da cadeia de seguros. Não foi fácil achar um parceiro alinhado com a nossa visão, que entendesse que não somos uma corretora, que temos uma ideia diferenciada da indústria”, completa o empreendedor.

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