Startups falam: Como evitar novos desastres como os de Brumadinho e Mariana

Entrevistamos os fundadores da Upsensor, i9 Mining, Laminatus e Nanomagnetix para conhecer suas tecnologias de monitoramento preditivo e diminuição na geração de rejeitos

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Dois incidentes com barragens de resíduos de mineração em pouco mais de três anos no Brasil geraram imensuráveis impactos negativos para a natureza e as comunidades em torno das regiões atingidas. Os desastres em Mariana, em 2015, e Brumadinho, no início deste ano, levantaram o debate sobre a falta de recursos e tecnologias aplicados à construção, manutenção e previsão de erros na gestão de rejeitos minerais.

Neste panorama, 15 startups da área da mineração foram selecionadas para compor o MiningHub. O programa é vinculado a mineradoras e busca aproximar inovação tecnológica das grandes empresas do setor. Ele acontece no WeWork de Belo Horizonte.

Dentre todas as startups selecionadas, quatro tem projetos focados em gestão de resíduos. Em entrevista à StartSe, os fundadores explicaram quais são suas ideias, como fariam para evitar desastres como os de Mariana e Brumadinho, e como dar maior segurança às comunidades que englobam áreas de mineração.

Veja também: Startups se unem em força-tarefa para redução de danos em Brumadinho

Ivan Boesing, da Upsensor Tech

Qual é o projeto da Upsensor Tech?

Criamos uma rede de monitoramento de sensores diversos cujos dados são filtrados e analisados por algoritmos de inteligência artificial, baseados em curvas de alerta customizadas para cada região monitorada. Com as informações coletadas pelos sensores, aliada à mineração de dados públicos (como previsão do tempo, níveis de água em reservatórios, etc), o sistema pode prever incidentes, avisar autoridades e emitir alertas para smartphones de pessoas na região de risco.

Na sua visão, como incidentes como os de Mariana e Brumadinho poderiam ser evitados?

Em uma análise a distância, sem um conhecimento completo do sistema que estava operando, podemos supor que um acesso de informação de sensores existentes e novos sensores de baixo custo, em tempo real, poderiam dar uma chance maior de predição de cenários de risco, bem como criar uma nova ferramenta de comunicação com as comunidades atingidas. Talvez alguma redução no número de vítimas teria sido possível. Para qualquer vida poupada valeria a pena o investimento financeiro.

Alexandre Passos, da i9 Mining

Qual é o projeto da i9 Mining?

Desenvolvemos um conceito de monitoramento preditivo da umidade em estruturas geotécnicas. Automatizamos leituras de nível de água e pressão na estrutura de barragens e desenvolvemos um sistema que verifica de forma detalhada, várias vezes ao dia, a resistência do corpo da barragem. Todos os dados obtidos vão para um sistema supervisor que os analisa, identifica anomalias e emite alertas.

A melhoria do monitoramento das barragens de rejeito, além de contribuir para a segurança das regiões potencialmente afetadas por uma eventual ruptura, poderá contribuir também para a melhoria na relação da mineração de ferro do Estado de Minas Gerais com a sociedade local.

Na sua visão, como incidentes como o de Mariana e Brumadinho poderiam ser evitados?

O primeiro desafio é melhorar o monitoramento de risco das estruturas associadas. Desastres como estes são inadmissíveis e não podem ser tolerados. Além disso, a mineração tem que ser mais sustentável, necessita promover o desenvolvimento social da região onde está inserida, preservar o meio ambiente e não comprometer a sua competitividade. Para isso, é fundamental alinhar forças de forma inovadora. Os resíduos podem ser aproveitados, transformando os passivos ambientais em ativos para a sociedade, não dá para continuar privatizando o lucro e socializando os passivos.

Claudia Kattah, da Laminatus

Qual é o projeto da Laminatus?

O projeto consiste em criar painéis laminares a partir de rejeitos de mineração. Ao reutilizar os resíduos, pretendemos mitigar os impactos decorrentes da extração e reduzir a extração de matéria prima virgem da natureza. Pretendemos viabilizar a utilização em escala industrial do rejeito na fabricação de laminados mais eficientes que permitirão uma transformação na economia, por meio da possibilidade de construções mais baratas e com prazo de entrega menor. Produzida por uma combinação de lâminas, esta nova estrutura poderá, através de infindáveis combinações, substituir quaisquer modelos estruturais, e produzir novos sistemas construtivos, mesmo ainda não imaginados.

Na sua visão, como incidentes como o de Mariana e Brumadinho poderiam ser evitados?

A entrada em vigor da Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/10) tem motivado os diversos setores da economia a buscarem soluções mais seguras e sustentáveis para a gestão dos seus resíduos. Entre estes setores, destaca-se o da mineração que encontra enorme dificuldade em se adequar plenamente às novas diretrizes para a gestão dos resíduos gerados em grande quantidade e armazenados em barragens de rejeitos com capacidade limitada.

Os desafios tecnológicos são grandes, mas, com o incentivo do MiningHub, iremos gerar uma nova atividade econômica, cujo estudo de viabilidade será cuidadosamente  avaliado, eliminando os riscos e impactando de forma positiva as mineradoras.

Daniel Ribeiro, da Nanomagnetix

Qual é o projeto da Nanomagnetix?

Um composto químico magnético, sintetizado com tecnologia 100% brasileira, é dosado nos rejeitos da mineração para torná-los mais suscetíveis à força de campo geradas por um equipamento que separa materiais a partir da força magnética. Como resultado, torna-se mais simples concentrar um elemento de interesse.

O aperfeiçoamento de processos de concentração de minérios visando a diminuição na geração de rejeitos sem a necessidade de grandes investimentos em infraestrutura elevará a produtividade da operação em mina. Materiais que antes eram despejados nas barragens de rejeitos por dificuldade de separá-los podem ser reaproveitados com uso de nanotecnologia e magnetismo. A possibilidade de redução no despejo de rejeitos diariamente pode diminuir a pressão exercida nos taludes ao entorno das barragens, diminuindo riscos de incidentes.

Na sua visão, como incidentes como o de Mariana e Brumadinho poderiam ser evitados?

Pouco demandou-se de pesquisa e desenvolvimento em subutilização rejeitos nos últimos anos. Esses desastres deveriam servir como gatilho para ações em pesquisa e desenvolvimento, afinal o desastre de Brumadinho atesta a incapacidade em lidar com tamanho volume de rejeitos gerados em processos de mineração. Na minha opinião, segmentos que, por estarem mais próximos ao meio ambiente, e com alto potencial de ceifar vidas, deveriam complementar a grade dos futuros profissionais com o tema de gestão de rejeitos antes mesmo de entrarem no assunto de beneficiamento e concentração de minérios.

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