Startups desafiam o robusto setor bancário brasileiro

A tecnologia das pequenas empresas já bate de frente até mesmo com o setor

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Mesmo em meio à crise no Brasil, os maiores bancos não param de crescer. Somados, os ganhos dos quatro maiores bancos do país cresceram mais de 40% no primeiro semestre, na comparação com oo mesmo período de 2014. Entretanto, essa “imunidade” aos abalos econômicos pode não se repetir no quesito da inovação e tecnologia.

Pelo menos é o que acreditam os participantes do Innovators Summit, ciclo de palestras que reuniu, nos dias 16 e 17 de novembro, empreendedores, gestores e investidores para falar sobre tecnologia, inovação e tendências de mercado no Teatro Vivo, em São Paulo. Em um painel sobre fintech e como startups mudam o jogo das gigantes do universo financeiro, empreendedores que cujas empresas já nasceram no ambiente digital falaram sobre suas experiências e o que trazem de novo para este setor até então tão rígido.

“Os bancos possuem um acesso muito difícil”, afirma Tahiana D’Egmont, CEO da plataforma de financiamento coletivo Kickante. “Nossa missão é resolver um problema muito grande que víamos de acesso a recursos”. E está dando certo: “em dezembro do ano passado fizemos 200 campanhas. Neste mês, já estamos em 17 mil, para ter uma ideia do tanto que estamos crescendo. A crise veio como uma bênção”.

A Kickante trabalha com o chamado crowdfunding em sua roupagem tradicional, onde quem colabora com o financiamento recebe uma recompensa, muitas vezes o próprio produto que está sendo desenvolvido. Funcionando de uma maneira um pouco diferente disso, trabalhando com ações, há o portal Broota.

“Nossa contrapartida para quem contribui é uma participação acionária na companhia financiada”, afirma Ricardo Politi, fundador do portal. “Isso permite o acesso a uma classe de ativos que poucas pessoas podiam alcançar: para ser um investidor anjo antes, os meios de entrada eram pouco acessíves e os valores eram sempre muito altos”, relembra. “Por isso, decidimos replicar a estrutura vista em processos de abertura de capital por meio do financiamento coletivo para essas pequenas empresas”.

A outra estrutura de transações financeiras contemplada no painel foi a de pagamentos propriamente ditos. O MoIP é um serviço que permite que os usuários realizem transações de pequenos valores sem precisarem usar bancos. “Antes, o usuário precisava de 14 contratos para conseguir realizar um simples pagamento online no Brasil, nós mudamos isso”, diz o fundador Igor Senra, cuja empresa atualmente foca mais em atender as demandas do vendedor do que as do comprador: “funcionamos um pouco diferente do PayPal neste sentido, mas percebemos que fazia mais sentido trabalhar com um foco definido”, explica.

Empoderamento

A grande inovação que vem com esses empreendimentos na área financeira é a possibilidade de dar cada vez mais poder aos próprios donos do dinheiro. “Somos facilitadores, apenas isso”, afirma Tahiana. “A transação ocorre entre um usuário e outro, e é por isso que se torna muito mais simples. Existe essa tendência de tirar intermediários e falar direto com o público: é a mesma dinâmica do Uber, do Airbnb”. Ela acredita que há muita possibilidade de crescer com a chamada Fintech, ou tecnologia financeira, no Brasil, e cita como exemplo empresas como a Lending Club, que conecta pessoas dispostas a emprestar dinheiro com outras que precisam desse dinheiro. “Hoje eu não posso emprestar dinheiro para ninguém no Brasil se eu não for um banco, isso poderia melhorar”.

Assim como o poder do cliente, cresce também o foco neste cliente. Os três empreendedores afirmam que tentam manter uma relação o mais próxima possível com seus usuários. “Nada no MoIP é terceirizado. Se a pessoa liga para reclamar, precisamos saber qual é o problema”, diz Igor. Ricardo complementa: “tudo o que é feito peer-to-peer faz muito mais sentido para o consumidor final”.

Nesse sentido, as perspectivas não são boas quando se leva em consideração a rigidez das instituições bancárias. “Não tem muita volta”, afirma Ricardo, que acredita que os bancos foram criados de uma maneira muito fechada e a tendência é essa interatividade crescer cada vez mais rapidamente. Tahiana lembra o exemplo do Nubank: “a usabilidade para esse consumidor é importantíssima. A interface [do aplicativo do Nubank] é linda e simples”.

Brasil, regulação e particularidades

Para Tahiana, “o governo tende a olhar para as coisas quando elas crescem o suficiente para incomodar”. Mas a verdade é que a legislação brasileira ainda não está completamente preparada para essas inovações. “Não temos regulamentação específica, mas usamos das lacunas existentes na lei para podermos nos apoiar”, afirma a empreendedora, que aconselha que sempre se tenha contato com algum advogado para ajudar neste processo.

Também não é o caso de olhar para o governo como um vilão: “a CVM [Comissão de Valores Mobiliários] é uma autarquia que precisa regular o mercado, mas ao mesmo tempo busca fomentar esse mercado”, diz Ricardo, do Broota. “Nós, por exemplo, focamos nossas atividades em uma isenção que existe desde 2010 para um determinado valor de investimento. É preciso se adequar, nem sempre é bom ou necessário ser disruptivo: o ideal é trabalhar lado a lado com os reguladores”.

No caso do MoIP, o órgão regulador já passa a ser o Banco Central. “A regulamentação aqui é boa para o empreendedor”, garante Igor, que diz que o BC também não impede que as pequenas empresas compitam diretamente com as grandes instituições financeiras, fomentando o mercado.

O importante, para Tahiana, é entender desde o princípio as necessidades do seu cliente. “O brasileiro tem algumas particularidades, como a busca por facilidade de crédito, a necessidade de parcelamento e a busca por um acesso mais direto a esse dinheiro, uma democratização”, comenta. Uma vez entendido este cenário, competir com as grandes instituições pode ser questão de tempo.

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