Yuval Harari é o pensador anti-Vale do Silício mais admirado pelos CEOs

O autor de Sapiens é um crítico ao pensamento e modo de vida dos empreendedores, mas é um palestrante requerido para jantares com líderes de negócios e eventos corporativos em empresas como Netflix, Google, entre outras

Tainá Freitas

Por Tainá Freitas

12 de novembro de 2018 às 16:55 - Atualizado há 1 ano

Inteligência artificial, internet das coisas, realidade virtual e aumentada e big data são algumas das tecnologias já presentes em nossa rotina que poderão mudar completamente o futuro da humanidade. Yuval Noah Harari, historiador e autor do best-seller “Sapiens: Uma breve história da humanidade” se tornou famoso após descrever e questionar, em 2011, a história da humanidade em poucas páginas. Ele repetiu a dose em 2015, ao lançar o “Homo Deus: A Brief History of Tomorrow”, com suas visões de como será a humanidade do futuro.

Com o sucesso – o autor vendeu mais de 8 milhões de cópias de seu primeiro livro no mundo e é líder em vendas de não-ficção no Brasil -, Harari se tornou um guru a ser ouvido inclusive no Vale do Silício, pelos CEOs das principais empresas. No lançamento de seu último livro, “21 lições para o século 21” (lançado em agosto no Brasil), o CEO da Netflix, Reed Hastings, organizou um jantar para Yuval Harari e outros influentes, com o objetivo de discutir o futuro e a tecnologia. O fato seria comum se não fosse uma curiosidade – o próprio Harari é um crítico do estilo de vida do Vale do Silício e de suas empresas mais influentes.

Segundo o New York Times, Harari se preocupa que o Vale do Silício esteja minando a democracia e introduzindo uma realidade em que votar é obsoleto. O historiador vê algumas das empresas como poderosas máquinas de criar influência, o que pode estar afetando seriamente o livre arbítrio dos seres humanos.

“Uma possibilidade é que a minha mensagem não é ameaçadora para eles, então eles a abraçam?”, disse ao NYT. “Para mim, isso é ainda mais preocupante. Será que eu não estou percebendo algo?”. Bill Gates descreveu sua última obra como “fascinante” e o classificou como um “autor estimulante”, no mesmo jornal.

Porém, aparentemente alguns funcionários dessas empresas possuem visões diferentes sobre os produtos e o trabalho realizado no local. Em uma visita pela Alphabet, Harari contou ao NYT que “alguns colaboradores mais jovens estavam preocupados se seus trabalhos estariam contribuindo para uma sociedade menos livre, enquanto os executivos geralmente pensaram que o impacto é positivo”.

Apesar de organizar um jantar para o escritor, o próprio CEO da Netflix tem ciência do conflito entre ideais – e a diferença entre eles. “Yuval é o tipo de pessoa ‘anti-Vale do Silício’ – ele não carrega um telefone e passa muito tempo contemplando enquanto está fora da rede. Nós vemos nele quem nós desejamos ser”, afirmou Reed Hastings. “Seus pensamentos sobre inteligência artificial e biotecnologia em seu novo livro levam nosso entendimento aos dramas que ainda vão se desenrolar”.

Confira quatro visões polêmicas do futuro, segundo o autor:

1 – Automação do trabalho

Se existem dúvidas de que a automação substituirá alguns trabalhos – um dos assuntos mais polêmicos do século 21 -, elas não são de Harari. Para o autor, a automação fará alguns empregos desaparecerem – e isso não é, necessariamente, algo ruim. “A questão é como será possível suportar a vida das pessoas, seus desenvolvimentos emocionais e espirituais sem um trabalho. Muitos empregos – talvez a maioria deles – que existem hoje não valem a pena ser defendidos. O que devemos fazer é proteger os humanos”.

O autor descreve a necessidade de ressignificar o sentido da vida, já que hoje é muito baseado no trabalho desempenhado pelas pessoas – e, ao mesmo tempo que a falta de um trabalho pode permiti-las se desenvolverem como deveriam. “Nesse sentido, você se torna muito mais humano”.

2 – A democracia pode estar ameaçada

“A democracia processa informações de uma maneira distribuída. A distribuição de informações dá o poder para fazer decisões sobre muitas instituições, organizações e individuais. (…) Inteligência artificial e machine learning podem mudar o pêndulo para o outro lugar”, disse Yuvak Harari ao Wall Street Journal. A exemplo, a concentração de informações em poucas empresas – mesmo que as gigantes do Vale do Silício – podem influenciar a informação pública e, consequentemente, decisões políticas e individuais, com base na opinião de alguns e não da maioria.

3 – Robôs serão simpáticos

Por não ter de lidar com os sentimentos, Harari afirma que os robôs poderão se tornar muito mais empáticos no futuro – principalmente em comparação aos humanos, que possuem grandes alterações de humor. “Eles focarão 100% em você, e irá reagir a você da melhor maneira possível, ou pelo menos do melhor jeito de acordo com as teorias científicas do momento”, disse ao WSJ.

4 – Livre arbítrio

Ao NYT, Yuvan Harari descreve os seres humanos como “hackeáveis”. “Livre arbítrio é uma ilusão e os direitos humanos são apenas histórias que contamos a nós mesmos. (…) O mundo liberal é baseado em ficções como “o cliente está sempre certo” e “siga seu coração”, e essas ideais não funcionam mais na era da inteligência artificial, quando corações podem ser manipulados em escala”.

Foto: Divulgação/site/Yuvan Harari