Tenha medo da Inteligência Artificial (mas não pela razão que você pensa)

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Por Luís Guedes

7 de abril de 2017 às 10:52 - Atualizado há 3 anos

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Pessoas de todas as latitudes sociais têm estado crescentemente apreensivas sobre a possibilidade de robôs ou algoritmos tomarem seu lugar ao Sol. Já não é uma promessa, mas uma realidade para médicos, engenheiros de tráfego, gerentes industriais, advogados e daqui a pouco para motoristas e trabalhadores da construção civil.

As habilidades dos artesãos do século 18 foram substituídas, não sem algum ranger de dentes, pela capacidade maciça da indústria do século 19. A produção homogênea em larga escala encontrou a gestão eficiente da qualidade e a automação eletrônica no século 20 e mais uma vez muitas profissões simplesmente deixaram de existir (cronometristas, telefonistas, digitadores), sem nada que os profissionais pudessem fazer. Esse movimento que nos assusta a todos agora, como se vê, é uma onda que já passou pela nossa praia – não resta dúvida que a revolução da inteligência artificial irá varrer com som e fúria muitas profissões. O fenômeno será parecido com um terremoto ou um ciclone – torcer para ele não acontecer ou fazer um protesto contra os efeitos que potencialmente podem causar não costumam ter repercussão no mundo das coisas.

Há no entanto uma coisa que homens e mulheres de boa cabeça podem fazer: antecipar os efeitos dessa onda e começar hoje a se preparar para os seus efeitos. Preparar-se pode se referir a estar pronto para assimilar o golpe, mas também pode assumir uma visão positiva de como nos antecipamos ao golpe e, muito melhor, lucramos com isso!

A inteligência artificial pode ir muito além da automação de trabalho repetitivo e pode alcançar atividades que demandam criatividade e mesmo genialidade humana… Se um arquiteto quer mover uma parede numa construção que está elaborando, primeiro o faz em sua imaginação e, para testar o conceito, implementa a mudança no programa de CAD que utiliza. O arquiteto consegue elaborar mentalmente somente algumas dentre todas as possibilidades de movimentação da parede ou de concepção do ambiente. Seleciona, ainda na sua mente, uma ou duas possíveis e as implementa no programa no ambiente virtual qual está desenhando a planta. Porém a IA já tem algo dizer sobre isso: Por que você não me diz o que precisa, quais os parâmetros, e vai me buscar um chá enquanto eu faço isso? O nome dessa linha de pesquisa, que já dá inúmeros frutos: design generativo.

Design como você nunca viu antes (nem veria)

O design como disciplina de concepção de formas é uma atividade que demanda conhecimento não somente técnico sobre funcionalidade, mas também estético – tem a ver com a beleza e harmonia. Por essas razões, fundamentalmente, foi sempre uma atividade humana e de alto nível. Até que…

O design generativo usa algoritmos baseados em IA para explorar soluções possíveis, dadas certas condições de contorno impostas pelo operador (estrutura, forma, material,  objetivo de uso). Em poucos minutos (daqui a pouco em poucos décimos de segundo) softwares especialistas poderão conceber centenas de formas possíveis para o problema que se quer resolver, seja uma bicicleta ou a pá de uma turbina. Essas possibilidades podem rapidamente caminhar para o infinito e não necessariamente seriam concebidas por um designer humano, mas certamente poderão ser aperfeiçoadas por ele. Um vídeo interessante do TED ilustra o conceito.

A discussão sobre o fim dos empregos como decorrência da IA pode ser relevante e deve haver preocupação de governos e empresários em conceber contramedidas eficientes em prol especialmente da parte da população com menor defesa contra esse fenômeno. Há, porém, uma parte considerável da discussão que está sendo perdida no meio da fumaça: o novo papel do humano nesse mundo apoiado pela inteligência não-humana.

O design generativo, por si só incrível e com potencial transformador, é localizado e tem aplicações específicas na concepção de formas e utilização de materiais. Está em curso um outro desenvolvimento mais ambicioso: a Inteligência Artificial Geral (AGI). A aspiração, que começa a tomar forma em várias aplicações-piloto, é desenvolver um sistema baseado em machine-learning e redes neurais que possa interagir com humanos, simulando inclusive emoções e sentimentos. A AGI não busca ser excepcionalmente boa em uma tarefa somente – o desenvolvimento está sendo feito para que se possam ser conjugadas capacidades em diversas áreas do conhecimento, somadas à capacidade de aprendizagem, de modo que se possa ter um campo maior de utilização. Essa “inteligência geral” em breve será responsável por atender as chamadas de call center (sem que você se irrite com isso), elaborar relatórios de auditoria, relatar livros fiscais (o teste definitivo será fazer isso no Brasil) e ensinar novos idiomas, entre dezenas, centenas de outras aplicações.

A dúvida que persiste não é se as máquinas e os algoritmos que as orientam serão mais e mais inteligentes e capazes, mas sim como vamos reagir a esse fenômeno, como pessoas e como sociedade. Dois exemplos opostos: recentemente a França proibiu uma das modalidades de serviço da Uber no país, em reação ao movimento dos taxistas, fenômeno que assistimos em vários outros lugares do mundo. Por outro lado, na Alemanha mais de 1,5 milhão de jovens se matriculam por ano em cursos técnicos, saindo deles capacitados para construir o futuro. Resistir à mudança ou se capacitar para operacionalizá-la? Seja qual for o seu lado, esteja preparado!

O medo cumpre uma função biológica fundamental na evolução das espécies em geral e na humana em particular. Se não sentimos medo, atravessamos a rua sem olhar para os lados e nosso futuro não será muito promissor. O medo que não imobiliza, energiza. Usemos essa energia para nos reinventar e seguir firmes na direção da geração sustentável de valor com todas as máquinas, softwares e instrumentos que tivermos.

Luís Fernando Guedes é professor da Fundação Instituto de Administração (FIA), consultor em inovação e transformação digital e executivo com passagens por empresas como Vivo e Google

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