Criador da tecnologia para edição de genes pede proibição de testes com bebês

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Por Isabela Borrelli

26 de novembro de 2018 às 19:07 - Atualizado há 2 anos

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Feng Zhang, um dos inventores da técnica CRISPR de edição genética, pediu por uma proibição temporária do uso da tecnologia para criar bebês com genes editados.

O pedido de Zhang, membro do Instituto de Tecnologia de Massachusetts e da universidade Harvard, vem logo depois da divulgação de que o pesquisador chinês He Jiankui criou gêmeos modificados geneticamente para torná-los resistentes ao vírus HIV.

“Dado o atual estado da tecnologia, eu sou a favor da implantação de uma moratória para embriões editados”, afirmou Zhang em um comunicado ao MIT Technology Review.

Os pesquisadores chineses editaram os embriões para remover o gene CCR5, o que, segundo eles, torna os bebês resistentes ao vírus HIV. Zhang disse que os riscos do experimento são maiores do que os benefícios.

Antes, órgãos acadêmicos incluindo a Academia Nacional de Ciência dos EUA disseram que a modificação genética de crianças deveria ser realizada somente sob condições restritas de segurança e supervisão.

Em 2013, Feng Zhang foi o primeiro a mostrar como a ferramenta CRISPR pode ser usada para editar o DNA em células humanas, um passo que permite o eventual uso para modificar embriões humanos.

Aqui está o comunicado completo:

Embora eu aprecie a ameaça global imposta ao HIV, neste estágio, os riscos de editar embriões para eliminar o CCR5 parecem superar os benefícios potenciais, sem mencionar que a eliminação do CCR5 provavelmente tornará a pessoa muito mais suscetível ao vírus do Nilo Ocidental. Tão importante quanto isso, já existem métodos comuns e altamente eficazes para prevenir a transmissão do HIV de um dos pais para um feto.

Dado o estado atual da tecnologia, sou a favor de uma moratória sobre a implantação de embriões editados, o que parece ser a intenção do ensaio do CCR5, até que tenhamos um conjunto de requisitos de segurança ponderados em primeiro lugar.

Não só vejo isso como arriscado, mas também estou profundamente preocupado com a falta de transparência em torno deste julgamento. Todos os avanços médicos, edição de genes ou outros, e particularmente aqueles que afetam populações vulneráveis, devem ser feitos com cautela e cuidadosamente testados, discutidos abertamente com pacientes, médicos, cientistas e outros membros da comunidade, e implementados de forma equitativa.

Em 2015, a comunidade internacional de pesquisa disse que seria irresponsável prosseguir com qualquer edição germinal sem “amplo consenso social sobre a adequação do aplicativo proposto”. (Essa foi a declaração de consenso da Cúpula Internacional de 2015 sobre a edição do gene humano).

É minha esperança que a próxima cúpula sirva como um fórum para conversas mais profundas sobre as implicações desta notícia e forneça orientação sobre como nós, como sociedade global, podemos nos beneficiar melhor da edição de genes.

O que He Jankui, pesquisador que realizou a edição genética, defende

Em um vídeo publicado no canal do Laboratório He, He Jankui, pesquisador líder do teste de edição genética em embriões, explica quais são os cinco princípios fundamentais para a edição de genomas em embriões humanos.

O primeiro deles é poupar famílias com necessidade. Segundo o pesquisador, um gene ruim, infertilidade ou uma doença preventiva não deveria extinguir a vida e uma cirurgia dessas pode ser o único jeito de curar uma doença hereditária.

O segundo é que esses procedimentos só seriam realizados para doenças graves e nunca por vaidade. “Performar uma cirurgia expõe a criança a riscos que podem ser permanentes. A cirurgia de genes só deve ser permitida quando os riscos do procedimento forem menores que uma necessidade médica séria”, diz a descrição do vídeo.

O terceiro é respeitar a autonomia das crianças, não exigindo nenhuma obrigação delas ou de seus pais com nenhuma organização, incluindo pagar pelo procedimento.

O quarto é que genética não define você, ou seja, o DNA não predetermina o potencial de ninguém, assim como o que é possível atingir.

O quinto é que poder aquisitivo não eve determinar saúde e que as organizações que estão desenvolvendo curas genéticas devem atender famílias de todas as origens.

Confira abaixo o vídeo:

https://www.youtube.com/watch?v=MyNHpMoPkIg%20