Apple: o design que a tornou a primeira empresa de US$ 1 trilhão do mundo

Tainá Freitas

Por Tainá Freitas

11 de setembro de 2018 às 08:30 - Atualizado há 2 anos

Logo ReStartSe

Inscreva-se para o maior e mais audacioso evento de inovação, tecnologia e transformação digital já feito na América Latina. 30 dias que vão mudar sua visão de mundo, dos seus negócios e da sua carreira.

Online e totalmente gratuito - 01 a 30 de outubro/2020

Designed by Apple in California”. Essa é a frase que está estampada em praticamente todos os produtos da Apple – desde os iPhones aos fones de ouvido e carregadores. A frase é tão icônica que se tornou também o nome do livro que retrata os 20 anos de design da empresa, criado pela própria. É que, desde o início, a startup adotou este como um de seus diferenciais – e esta pode ter sido uma das iniciativas que a salvou da falência.

Mas a empresa levou uma longa trajetória para chegar ao design clean e minimalista que conhecemos hoje. O primeiro logo da Apple trazia a cena que parece ter sido a inspiração de seu nome: o físico Isaac Newton sentado e encostado em uma árvore, lendo um livro com uma maçã pendendo sobre sua cabeça. Essa é a cena que, segundo rumores, teria estimulado o Newton a descobrir a teoria da gravidade.

O logo, criado em 1970 pelo co-fundador da empresa Ronald Wayne (que semanas depois vendeu sua participação por uma mixaria), ainda trazia os dizeres “Newton… uma mente sempre viajando entre os desconhecidos oceanos do pensamento… sozinho” – frase de um poema de William Wordsworth.

No entanto, esse logo durou apenas um ano, pois Jobs não estava totalmente convencido de que seria efetivo. Então, o fundador da Apple contratou um novo designer, Rob Janoff, que criou o logo da maçã mordida – símbolo icônico que representa a marca até hoje.

Existem vários rumores que tentam justificar porque o logo é uma maçã mordida – como uma homenagem à Alan Turing, cientista da computação que morreu envenenado por cianeto. Do lado de seu corpo, foi encontrada apenas uma maçã mordida, o que poderia indicar que o cientista se suicidou ao comer a maçã envenenada.

No entanto, o verdadeiro motivo para o logo da Apple ser uma maçã mordida é bem mais simples: para diferenciá-la de qualquer outra fruta, como um tomate. “Para fazer parecer mais como uma maçã ao invés de qualquer outra fruta aleatória, eu fiz o que fazemos com uma maçã – eu tirei uma mordida dela”, disse o designer Rob Janoff em entrevista ao LogoDesignLove.

O designer também justificou as cores usadas no desenho: para dar um visual mais amigável aos computadores. “Eu queria criar um sentimento positivo e caloroso sobre o computador da Apple”, disse Janoff. Na época, em 1977, os computadores eram ferramentas usadas apenas por engenheiros, cientistas e empresas, e a Apple possuía a missão de construir os equipamentos para uso pessoal.

Foto: Logo Design Love

O logo colorido da Apple a acompanhou durante uma longa trajetória – inclusive durante a saída e o retorno de Jobs à empresa. Quando Jobs voltou para a Apple, encontrou uma empresa quase falida e resolveu mudá-la completamente, na esperança de ter melhores resultados – e funcionou. Uma dessas mudanças foi o logo, que assumiu uma roupagem monocromática e translúcida.

Em 1998, a Apple lançou o iMac Bondi Beach, que possuía diferentes cores. O logo monocromático passou a assumir as mesmas cores de cada computador, possuindo um leve efeito em 3D que o trazia ainda mais destaque. Veja como era a propaganda do produto em uma revista:

Foto: AppleWorld Today

O iMac trazia, ainda, uma outra mudança de visual: o logo passou a ficar posicionado na parte de trás do produto, passando a ser facilmente reconhecível para qualquer terceiro que olhasse. A iniciativa parece simples, mas ajudou na construção da marca da Apple, pois todos começaram a reconhecer a maçã e seus produtos.

A empresa possui essa iniciativa até hoje – seus notebooks, tablets e celulares continuam carregando a logo em destaque na parte de trás. No caso do Macbook, o logo até acende em uma cor branca quando o notebook está ligado, o que traz ainda mais atenção à marca. Para completar, quem compra um produto da Apple ganha dois adesivos da icônica maçã na cor branca, permitindo que o cliente passe também a ser um promotor da marca ao utilizá-los.

Vinte anos depois, o logo da Apple continua sendo monocromático, mas agora possui um visual mais “flat”, sem utilizar efeitos 3D. As cores mais utilizadas são o branco (como no MacBook), preto (como no iPhone 5C) e cinza. A empresa assumiu essa identidade visual principalmente com o lançamento do iOS 7, que trouxe uma nova roupagem para seu software.

A cultura de design na Apple

O lançamento do iOS 7 foi muito esperado (e polêmico) para os fãs da marca. A empresa lançou, em 2013, um sistema com a interface do usuário totalmente redesenhada. Os ícones e o logo da empresa perderam a capacidade 3D e de skeumorfismo, linha de pensamento no design que utiliza elementos visuais do mundo real no digital.

Um exemplo: uma televisão vista sob o ponto de vista skeumórfico terá todos os botões e o reflexo natural da tela, enquanto uma televisão no “design flat” irá possuir apenas uma tela preta, sem reflexo. Ambos os desenhos estão corretos e identificam o mesmo produto, mas sob perspectivas diferentes.

Além disso, o novo sistema veio com uma abordagem muito mais minimalista e colorida, algo que não fazia parte do iOS até então, mas que lideraria a nova identidade da marca. “Nós vemos o iOS 7 como definidor de uma nova direção, e, de certo modo, um novo começo”, disse Jonathan Ive no lançamento do iOS.

Fonte: IB Times

Com o novo sistema operacional, a Apple trouxe o conceito minimalista do hardware de seus produtos para dentro das telas, agora com aplicativos no visual flat e mais coloridos. O resultado foi uma tela mais clean, trazendo um maior controle das atividades multitarefas e uma central de controle que reuniria todas as principais ferramentas em apenas uma tela, acessível por uma deslizada de dedo.

Para a Apple, design e marketing sempre foram duas áreas muito próximas e, no redesign trazido pelo iOS 7, Ive trouxe alguns membros do marketing para ajudar na concepção do design. As mudanças foram desenvolvidas pelos designers e engenheiros da Apple, mas contou também com o auxílio dos marqueteiros. Naturalmente, o design se tornou ainda mais um produto na divulgação da marca – e concorrendo para se tornar o mais forte deles.

Uma curiosidade da empresa é que, além de permitir contribuições de outras áreas, ela não contratava designers especializados – pelo menos é o que afirmou Mark Kawano, designer sênior da Apple por sete anos, em entrevista à Fast Company. O ex-colaborador da Apple afirmou que a cultura de pensar no design e usabilidade dos produtos estava imersa em toda a empresa, não apenas nos designers que estão trabalhando nos produtos. Dessa forma, todos colaboravam para ter o melhor resultado.

“Não é que você ganha asas especiais ou superpoderes quando entra em Cupertino (cidade-sede da Apple). É que agora você está em uma organização na qual pode gastar seu tempo desenhando produtos, ao invés de brigar por seu lugar na cadeira”, disse Kawano na entrevista.

O desenvolvimento e o design dos produtos da Apple são levados tão a sério que os usuários podem alterá-los apenas minimamente, mudando o fundo, ordem de aplicativos, entre outros. Uma das maiores críticas para a empresa é justamente essa – que a Apple não dá tanta liberdade para seus usuários modificarem o sistema como seus concorrentes, no caso, os aparelhos com sistema operacional Android.

Mas ter o sistema mais fechado é uma forma de garantir que a experiência do usuário e usabilidade será boa e a mesma para todos. Por causa disso, foi criada uma áurea entorno dos produtos da marca de “Ame-o ou deixe-o”, pois os clientes têm que realmente se identificar com os produtos, já que são dificilmente alterados. Ao mesmo tempo, quem possui mais de um produto da Apple tem benefícios como uma grande interação e conexão entre eles, permitindo a sincronização de dados rapidamente entre um iPhone e um iPad, por exemplo, o que promove a fidelização pela marca.

E a iniciativa está dando certo – a pesquisa CNBC All-America Economic informou que, em 2012, metade das casas dos Estados Unidos tinham ao menos um produto da Apple – ou seja, mais de 55 milhões de casas tinham ao menos um iPhone, iPod ou um Macbook. Além disso, quem possui um produto da Apple geralmente não possui só um: segundo a pesquisa, as casas que possuíam um aparelho da Apple têm, em média, 3 produtos.

“Pessoas falam sobre tecnologia, mas a Apple era uma empresa de marketing”, disse John Sculley ao jornal The Guardian em 1997. Sculley protagonizava discussões com Jobs e assumiu a liderança da empresa após sua saída.

Apple Store: um novo conceito de loja

A primeira Apple Store foi aberta no dia 19 de maio de 2001, em um shopping na cidade de McLean, Virgínia, nos Estados Unidos. Quando Steve Jobs apresentou a loja em um vídeo, afirmou: “Estamos esperando que isso seja algo totalmente novo” – e foi.

A Apple Store se diferenciava da maioria das lojas por ser, desde o início, um local de contato com a marca e seus colaboradores. Os clientes eram convidados a conhecerem a loja para experimentar o produto, tirar todas as suas dúvidas e testar novidades. Veja o vídeo de Jobs apresentando a loja:

No vídeo, o fundador da Apple convida os telespectadores a visitarem a loja para experimentar o “AirPort”, a conexão sem fio da Apple. Em 2001, o wi-fi ainda era algo novo e que estava sendo apresentado ao público.

A primeira Apple Store era separada entre produtos para uso pessoal e profissional e ainda contava com áreas específicas como “música”, “fotos” e “crianças”. Esses setores eram específicos para o usuário conhecer quais poderiam ser suas principais funcionalidades ao utilizar um computador, além de uma oportunidade para conhecer novos softwares para os produtos Apple. A área de crianças em específico reunia softwares específicos para educação, além de um computador para que elas testassem as novidades em um ambiente mais colorido e infantil.

Além disso, como os computadores eram produtos novos, a Apple Store já possuía a “The Genius Bar”, uma área específica para clientes tirarem dúvidas de produtos Apple. A área existe até hoje em todas as lojas. No vídeo, Jobs demonstrou a preocupação para que as dúvidas fossem respondidas, indicando um telefone vermelho de “hotline” para que os colaboradores ligassem direto para a sede da Apple em Cupertino para encontrar a resposta. A área recebe esse nome porque os atendedores da Apple são chamados dessa forma – motivo no qual Steve Jobs comenta que “não é um gênio”.

A primeira Apple Store já trazia indícios do visual que as lojas possuem hoje – a loja já era minimalista e com cores claras. Hoje, as lojas da companhia continuam minimalistas e compostas de cores claras, mas possuem interferência de materiais como alumínio, vidro e madeira.

Dezessete anos depois do lançamento da primeira loja física, a Apple já multiplicou a quantidade para cerca de 500 Apple Stores em todo o mundo. A companhia recebeu, inclusive, prêmios devido aos designs das lojas.

Esse é o caso da Apple Store no Zorlu Center, em Istambul, na Turquia. A loja é descrita como uma “lanterna de vidro” e ganhou os prêmios “Supreme Award for Structural Engineering Excellence” e “Commercial or Retail Structure” em 2014.

Outra loja reconhecida da Apple é a da Fifth Avenue, a 5ª avenida de Nova York, que se tornou quase um cartão postal da cidade de acordo com uma pesquisa da Cornell University de 35 milhões de fotos no Flickr. Em 2014, a companhia inclusive fez um pedido de patente para o design da loja. (Veja a foto em destaque)

Atendimento “padrão Fifa”… ops, “padrão Apple”

Para padronizar o atendimento em suas 500 lojas, a Apple se inspirou no guia de atendimento do hotel Ritz-Carlton para criar o próprio, segundo a Forbes. São cinco iniciativas que, em inglês, formam o acrônimo “A-P-P-L-E”.

A – Receber os clientes com um bem-vindo caloroso e personalizado – o “posso te ajudar” não é o suficiente da empresa, a companhia recomenda que o primeiro contato com os clientes traga uma resposta além de “não, estou só olhando”.

P – Entender as necessidades dos clientes de forma apropriada. A filosofia de venda da Apple não é de vender, mas de ajudar consumidores a resolver problemas.

P – Apresentar uma solução que o cliente possa levar para casa no mesmo dia – a solução pode ser desde um novo produto à uma foto tirada em um passeio guiado.

L – Ouça e resolva qualquer problema ou reclamação – Se por um acaso a experiência não for boa, a Apple criou um “guia emergencial” baseado em sentimentos e empatia para ouvir e responder às reclamações dos clientes.

E – Termine com um adeus e um convite para voltar – A empresa acredita que a saída é tão importante quanto a entrada do cliente da loja e que, se ele sair com bons sentimentos, se sentirá mais tentado a voltar à loja.

A preocupação com o cliente e a conveniência de poder estar em uma Apple Store e aproveitar o espaço – a Apple possui todos os produtos conectados à internet e os clientes podem usar/testar o quanto for necessário -, faz com que as Apple Stores se destaquem no varejo físico convencional e no online.

E para quem gosta de exclusividade ou se tornou um fã da marca, a Apple possui uma loja em sua cidade natal – Cupertino – que vende produtos exclusivos de merchandising, como camisetas, canetas, entre outros. A loja fica localizada no One Infinite Loop, no Apple Campus, onde costumava ser a sede da empresa.

Apple Park: o novo campus da Apple

A Apple traz os mesmos conceitos de design e arquitetura utilizados nas lojas para a sua sede: a Apple Park. O edifício foi idealizado por Steve Jobs e projetado pelo arquiteto Norman Foster. A construção começou em 2013 e os colaboradores mudaram para a nova sede em abril de 2018.

A construção é suntuosa, semelhante à uma nave espacial, unindo o futurismo com o design minimalista característico da marca. O prédio possui paredes de vidro que se encaixam tão bem no local que os funcionários estavam, inclusive, batendo nas paredes – e colando post its para não as perder de vista. O investimento foi de US$ 5 bilhões e hoje o prédio possui a capacidade para abrigar mais de 10 mil colaboradores.

Não é possível visitar o prédio, pois segundo Tim Cook, há muitas informações confidenciais. Para continuar em contato com os clientes, a Apple construiu um centro de visitantes – um misto de café e Apple Store – com produtos e atividades exclusivas, como um tour em realidade aumentada pelo Apple Park. O centro possui uma varanda com uma vista para o edifício da Apple, que utiliza apenas energia solar. Veja o Apple Park aqui:

Hoje, além de ser a primeira empresa de tecnologia a alcançar o valuation de US$ 1 trilhão de dólares, a Apple é reconhecida como a marca mais valiosa do mundo. Segundo a Forbes, o valor da marca Apple é de US$ 182,8 bilhões, tendo sido eleita a marca mais valiosa do mundo pela oitava vez.