Tecnologia e advocacia: para autoridade no assunto, é um "pré-sal sociológico"

Basicamente, a lawtech de Bruno Feigelson ajuda empresas a economizarem milhões de reais com contencioso

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“A tecnologia e o Direito não possuem uma relação genuinamente nova. A diferença que temos hoje em dia é que a tecnologia deixa de ser uma coisa tangencial, secundária, e passa a ser core business da advocacia. Esse é o movimento das lawtechs”, discursa Bruno Feigelson, CEO da Sem Processo e Presidente da AB2L.

Bruno talvez seja o rosto desse movimento – o empreendedor que suja as mãos para replicar e escalar sua startup e a cabeça por detrás da associação que está conectando e organizando todos os players desse ecossistema. Nós aqui da StartSe comungamos com essa visão, com esse tipo de profissional, e é por isso que estamos promovendo o LawTech Conference, maior conferência da América Latina para discutir a empregabilidade de tecnologia no setor jurídico.

Devidamente introduzido, ele continua: “você já tinha sistemas que depositavam informação, ferramentas que te ajudavam a achar recortes na justiça. Mas a diferença é que você tem hoje startups com a mentalidade de inovação, focando em problemas reais e latentes de mercado. Os Estados Unidos, para efeito comparativo, arrecadou nos últimos 5 anos mais de US$ 750 milhões em investimentos em lawtechs. Só em 2016, foram 67 deals e mais de US$ 150 milhões. É um mercado gigantesco, o Brasil tem um potencial enorme. É o país com mais advogados no mundo, possui mais de 1.200 faculdades de direito. Um ambiente muito propício para que exista essa mudança antropológica. A gente brinca: o Facebook e o Google não vão surgir no Brasil, porque não tem a cultura do Vale do Silício, o capital disponível. Por outro lado, no quesito de mudanças em ambiente jurídico, tudo vai acontecer aqui. Mais de 100 milhões de processos eletrônicos, é um pré-sal sociológico. Uma oportunidade gigantesca de trabalhar data mining e informação. Estamos na primeira geração de lawtechs”, continua.

É de olho nesse “pré-sal sociológico” que o empreendedor entendeu o que deveria fazer. Tudo começou no final do ano passado. Depois de um encontro com Matheus Bombig, CFO da Invenis – que também conversou conosco sobre sua solução e sobre o mercado em geral -, ele criou um grupo no WhatsApp com o objetivo de discutir questões regulatórias e aproximação do mercado com mais pessoas do ramo. Foi a partir dessas conversas que surgiu a ideia de fundar a AB2L, para ser uma entidade que reunisse essas iniciativas e pudesse ajudá-las.

De fato, há demanda para tal, uma vez que nesse curto período de tempo a AB2L passou de quatro startups – que deram origem à associação – a mais de 30. Delas, há iniciativas que vão desde big data, inteligência artificial, jurimetria, automatização de contratos, até marketplaces jurídicos, robôs e plataformas de gestão para escritórios.

“Acredito estarmos no pré-hype das lawtechs. Ainda há uma certa reticência. É um mercado muito tradicional, muitas vezes masculinizado, sexista, racista. Mas são coisas que estão definitivamente sendo enfrentadas pelos escritórios agora. As lawtechs são um movimento de tecnologia, mas principalmente de oxigenação do mercado, uma nova geração de gestores. A postura do advogado que contribui. A ideia é mudar a cultura com a tecnologia. É um momento desafiador para a humanidade. Como podemos superar esses desafios? Esse é o conceito por detrás da AB2L”, enfatiza.

Bruno conta que, no momento, os esforços da Associação estão voltados para a participação de eventos, divulgação do movimento e se organizar como grupo. São promovidas reuniões com os associados, para que o discurso esteja sempre afinado, sejam compartilhadas boas práticas, lideranças locais. A AB2L agora dá o próximo passo com a contratação do Daniel Marques, seu novo Country Manager.

Seu case é interessante: ele entrou em contato com esse mundo em um evento da OAB, no Rio de Janeiro. Ele se aproximou do movimento e quis levar a iniciativa para âmbito acadêmico, na UFRJ. Sua liderança logo foi notada e hoje é a primeira pessoa completamente focada na manutenção da Associação, que também já firma parcerias com grandes nomes como Microsoft e IBM. Uma coisa que o presidente frisa: em nas rodas de debate, do doutor ao estagiário, todo mundo tem voz. Isso porque há um alinhamento de ideais e postura, características da nova roupagem do advogado. Ele comenta:

“Antigamente as maiores empresas do mundo eram de petróleo, serviços financeiros. Hoje é a Amazon, o Google. Esses advogados querem advogar para essas empresas. Para isso acontecer, você tem que ter alinhamento cultural. Não basta você dizer que você é moderno. Tem que ter uma mudança de mindset. Não dá para você advogar para o Google e não ter uma política de igualdade racial, de gênero. É uma revolução. Pensa na Suzano: papel e celulose e agora está fazendo impressora 3D. Como que o jurídico de uma empresa tão tradicional como essa responde? Ele precisa ter uma cabeça oxigenada. Isso vai impregnando, contagiando”.

Outro assunto abordado por Bruno é a questão de Corporate Venture. Para ele, o termo talvez não seja o mais apropriado para esse modelo de mercado, porque indica parceria, incorporação de solução, M&A. A palavra que pode chegar mais próxima do que está acontecendo talvez seja conexão. Consumo.

“Eu, enquanto solução tecnológica, quero prestar serviço para todos os escritórios. O receio do empreendedor hoje é firmar uma parceria que tire sua liberdade característica de empreendedor. São 100 mil escritórios de advocacia no Brasil. Eu vejo muito mais os escritórios sendo consumidores de tecnologia das lawtechs, do que eles se tornando parceiros societários. As lawtechs não querem cair na concorrência que existe naturalmente em escritórios. Elas querem a liberdade de poder trabalhar com todo mundo no mercado. Esse conceito de estar na frente do outro não existe mais. Nova Economia: compartilhamento, conexão, consumo”, diz.

Bruno quer explorar esse mar de oportunidades. Para isso, exerce muito bem sua função enquanto CEO da Sem Processo. Basicamente, sua lawtech ajuda empresas a economizarem milhões de reais com contencioso. A ideia inicial era fazer uma plataforma exclusiva para advogados. Se esses caras entram com tantas ações – e boa parte delas são simples -, por que que eles não tentam um acordo antes de irem para a justiça?

“Imagina você com um problema com uma empresa de telefonia. Aí vai lá e procura um advogado. Ele vê teu caso, prepara e joga na justiça. Às vezes ele nem tentou falar com o departamento jurídico da empresa de telefonia. Será que se houvesse esse contato, eles não poderiam chegar em um acordo? Foi aí que começamos nosso MVP. Todo dia chegam casos novos, a gente vai lá e busca o departamento jurídico da empresa, explica a importância dessa relação e vai criando uma rede. Então nos vemos hoje como uma rede entre advogados e empresas que querem negociar casos com mais agilidade e efetividade. Damos a oportunidade de conversa antes da justiça, por isso somos Sem Processo”.

Em um segundo momento, a startup notou que tinha uma grande capacidade de limpar a quantidade de processos nas empresas. Em sua base, são mais de 800 mil advogados cadastrados. A grande sacada aqui é que a plataforma consegue chegar muito rápido na maior parte deles. Para empresas, isso é extremamente interessante. A Sem Processo hoje ajuda essas empresas a redesenharem suas políticas de acordo e atingirem melhores resultados.

“Temos economizado milhares e milhares de reais em provisões das empresas através de acordos. Voltemos ao exemplo da empresa de telefonia. Ela tem milhares de ações novas por mês. Cada dessas ações são provisionadas e ela sabe que vai perder tantos mil. Esse dinheiro é bloqueado da conta da empresa. Então qual a nossa ideia? Nós vamos a campo, conectamos essa empresa com o advogado, fazemos um acordo abaixo do valor da provisão, economizamos dinheiro para empresa e reduzimos o número de processos. É um mercado bilionário. Sabemos que é possível nos tornarmos uma unicórnio”, ousa.

Para finalizar o papo, discutimos um pouco dos mitos e interpretações errôneas que ainda persistem em aparecer na mídia. Mitos esses que, Bruno com toda sua voz de autoridade, esclarece:

“Sou advogado. Antes de AB2L, Sem Processo, sou advogado. E vejo que esse profissional será sempre indispensável para a sociedade. É um ser humano que cuida de interesses alheios de maneira fria. Então seja você, corporação ou pessoa física, e tem um problema, um momento de angústia, você vai procurar um advogado que vai entender seu caso com meandros de interesse para a sociedade. Na medida que vamos andando para uma sociedade mais complexa, com mais interesses contrapostos, o papel do advogado passa a ser mais relevante ainda. Ele existe e vai continuar existindo. O que muda é a forma do exercício da profissão. Grande parte dos advogados gastam um tempo surreal com funções que facilmente poderiam ser executadas com tecnologia. São 5 anos de faculdade, mestrado, doutorado. Ninguém estuda 10 anos para ficar copiando e colando no Word. A verdade é que o receio existe. Quando surgiu o e-mail, falaram que a ferramenta ia acabar com a relação pessoal do advogado. Mas fato é que ninguém concebe mais a ideia de praticar advocacia sem um e-mail. Mesma coisa vai acontecer com o que está chegando. É um processo natural que vai otimizar a vida do advogado. O grande inimigo que temos hoje é a ignorância”, finaliza.

Reforçando o convite, se você gostou desse conteúdo, quer saber mais sobre as transformações pelas quais o jurídico está passando, não perca a oportunidade de participar do LawTech Conference.

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