O que aprendi ensinando jovens de Poço Redondo, no Sergipe, sobre o startup style

Durante uma semana, 32 estudantes de Poço Redondo, município com o menor IDH de Sergipe, aprenderam como transformar suas ideias em projetos para resolver problemas locais

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Por Claudia Backes

10 de dezembro de 2019 às 17:49 - Atualizado há 2 meses

Na semana passada, enquanto organizava minhas coisas para embarcar para o sertão do Sergipe, para executar o JA Startup, eu pensei: “que hora pra ir, estou cheia de trabalho no escritório, preocupações de final de ano. Há muitas mudanças relevantes acontecendo na empresa, e ficar uma semana fora ensinando empreendedorismo para esses jovens…”

O JA Startup é um programa de uma semana que ensina empreendedorismo para adolescentes, que surgiu a partir da parceria da Junior Achievement e StartSe.

Eu queria ir. Não podia deixar um projeto tão importante de lado. Arrumei a malinha de mão, com uma camiseta da StartSe para cada dia, e fui. Com a testa franzida, time na retaguarda — felizmente, eles pegam junto — parti, tentando recarregar as energias. Eu sabia que precisaria estar renovada.

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Cheguei em Aracaju, encontrei as pessoas maravilhosas que dividiriam a semana e o trabalho comigo, e seguimos para Poço Redondo, município com pouco mais de 30 mil habitantes e com o pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Estado.

Corta.

Diante de mim estão 32 jovens ansiosos (alguns nem tanto) para começar a semana. Inicialmente, eram 60 inscritos, mas vários deles faltaram porque a escola estava em greve. E, portanto, não podiam contar com o transporte escolar para chegar ao local onde o JA Startup aconteceria.

O local que deveria nos acomodar durante a semana de curso permanecia trancado. Uma confusão. Ninguém tinha a chave. Até que o nosso pessoal foi até a Prefeitura e resolveu tudo no tête-à-tête — é assim que a coisa funciona por lá.

Lição 1: Saiba articular e com quem falar. E, resolva.

Enquanto isso, os jovens estavam no sol. Um calor tremendo. Na carinha de cada um dava para ver que estavam cheios de perguntas. A gente precisava fazer algo com eles.

Começamos a divisão dos grupos de trabalho ali mesmo. Porque, afinal, um dos meus primeiros slides dizia: “Get things (shit) done.Sem mimimi, sem churumelas.” Precisávamos fazer acontecer.

Lição 2: Os exemplos reais contam infinitamente mais do que as referências que mostramos nas apresentações.

Finalmente, o menino Marcelo abriu a porta. Foi uma festa no Teatro Raízes Nordestinas. Local escolhido a dedo, inclusive, por ser um grande exemplo de atitude empreendedora na cidade. Entramos, ainda tímidos, fomos nos ambientando. 

Ligamos todo o equipamento que precisaríamos para o programa. Para fazer a abertura do programa, a Nathália Médici entrou por videoconferência lá do Vale do Silício, nos Estados Unidos, onde ela trabalha, junto com o time da StartSe.

Eles amaram, sentiram como se ela estivesse ali conosco, e ficaram imensamente felizes e valorizados, por ver que uma pessoa, a quilômetros de distância, acordou de madrugada “só para falar com eles.”

Nas palavras deles, “ela poderia apenas ter enviado um vídeo”.

Lição 3: As pessoas sentem quando nos importamos com elas. Deveríamos fazer isso sempre.

Apresentamos a agenda do JA Startup e explicamos o que aconteceria naquela semana. As carinhas ainda se mostravam confusas. Ao mesmo tempo, eles já estavam menos tímidos.

Fizemos o primeiro exercício de “ideação”, que é quando ouvimos que problemas eles gostariam que trabalhássemos. Depois de discutir um pouco, listamos alguns deles: desperdício de comida, descarte inadequado de lixo, desemprego, dívidas, falta de água e de energia, segurança pública. Problemas reais que eles vivem de perto.

Lição 4: O que é problema para você? Será que realmente são grandes problemas?

A caminhada

Era hora do primeiro almoço. Caminhamos do teatro até o local onde almoçamos. As meninas me deram carona na sombrinha. Afinal, eu sou muito “galega” e o sol queimaria minha pele.

Ainda Lição 3: Eu senti que se importavam comigo. Eles fazem isso sempre.

Chegamos lá. Outras pessoas esperavam pela refeição, enquanto uma equipe preparava o macarrão com salsicha na cozinha. Fizemos a fila e almoçamos juntos. Estava delicioso. Então, começaram as perguntas.

“Vocês comem a mesma comida que a gente? Tomam água na mesma canequinha que a gente?”

Lição 5: Sim. Somos todos iguais. 

Voltamos ao trabalho. Precisávamos descontrair para que o trabalho da tarde fluísse bem. Decidimos colocar uma música para levantar os ânimos. Pensamos: 

“Hum, são jovens, devem gostar dessa playlist: top hits Brasil 2019.” Que engano! 

O pessoal do teatro me advertiu. “Temos uma regra de não tocar esse tipo de música por aqui, podemos mudar?” 

Claro. Escolham vocês.

Eles não só escolheram, como deram um show no palco, reproduzindo como dançam nos “piseiros”, festas típicas dos sergipanos, que acontecem depois das cavalgadas. Procure o “Rei do Piseiro” no Youtube, vale a pena. 

Lição 6: Conhecer e preservar a nossa cultura é lindo demais.

Ah, lembram do menino Marcelo que abriu a porta do teatro para começarmos o JA Startup?

Ele não só abriu o teatro como ficou espiando a manhã toda, aprendendo. É claro que o convidamos para a turma e ele foi um arraso. 

Lição 7: Precisamos demonstrar nossos interesses, as pessoas percebem, valorizam e correspondem — e quando não, pelo menos tentamos.

Gelo quebrado, era hora de voltar a botar a mão na massa. Fomos até o final da tarde com muito trabalho duro.

Ao final, rolou um lanche. Durante a noite já começaram a vir os depoimentos. Eles estavam empolgados, felizes e ansiosos pelo próximo dia. Na manhã seguinte, começamos com um bom café da manhã. Descobrimos que os neurônios trabalham melhor alimentados.

A partir daí, intercalamos: trabalho duro, almoço; trabalho duro, lanche. Até que começaram os comentários. “Estamos comendo três vezes por dia.” E, então, os memes feitos por eles: magrinhos “antes do curso” e gordinhos “após o curso”

Lição 8: Não temos o mesmo desempenho quando estamos com fome. Isso é tão básico.

Lições para a vida

Assim como ensinamos no programa, nós testamos. E, quando dá certo, repetimos. E assim foi. Seguimos repetindo a fórmula toda, inclusive com as músicas e danças após o almoço. Elas nos aproximavam, nos divertiam e davam energia extra para focar nas soluções para os problemas escolhidos.

Eu aprendi que foi em Poço Redondo que Lampião e Maria Bonita morreram. Aprendi que ali as meninas casam muito jovens  —  muitas com menos de 15 anos. Os motivos são diversos. Em alguns casos, as famílias são grandes, com muitas crianças, e não têm a mínima estrutura. Então, é melhor encontrar um par e sair de casa. Em outros casos, elas sofrem algum tipo de abuso em casa e encontram no marido a salvação. Outras vezes saem porque simplesmente é assim que funciona. 

Aprendi que sua rica cultura e turismo são pouco —  ou nada  — valorizados; que, muitas vezes, os jovens preferem dormir no chão porque “é mais geladinho” e que “bichinho” pode ser um apelido carinhoso.

Nas mentorias, notei que a cada notificação que entrava no meu relógio (smartwatch), eles perdiam o foco. A partir do segundo dia, decidi deixar o relógio na mala. Afinal, tínhamos pouco tempo e precisávamos de foco total.

Lição 9: Concentre-se no que realmente importa.

Nenhum deles quis desistir em momento algum. Os que moravam mais longe, saiam às 5 horas de casa porque era o horário que conseguiriam carona. Isso sim que é prova de persistência.

Morar longe nunca foi desculpa

Fomos conhecendo um pouquinho mais deles — daqueles que se abriam — e descobrimos que muitos têm uma estrutura familiar muito fragilizada, com pais já em outro plano espiritual, deficientes, alcoólatras, analfabetos, desempregados. 

A maioria possui pais que torcem muito por eles. Apesar da pouca idade, há as que já são mães e os que são chefes de família. Descobri também que é possível compartilhar um mesmo celular com a amiga, todos os dias, e que os vaqueiros são bravos galãs.

Vi que eles são incrivelmente capazes. Nós demos as ferramentas. Eles acreditaram e fizeram. Deram um show. Fizeram “pitch” maravilhosos; apresentaram soluções factíveis e MVPs funcionais. Tudo isso em quatro dias.

Encerramos com um “demoday”, onde novamente botaram pra quebrar, mostrando que conjugar um e outro verbo errado é insignificante perto da vontade de construir um futuro diferente.

Cerimônia de encerramento 

Eu não aguentei. Desabei. Via os pitches e chorava. E eles, olhando meu choro, me me acompanhavam. Conhecimento é a única riqueza que ao compartilharmos, nos torna mais ricos. Isso pra mim nunca fez tanto sentido. A educação é a única forma de transformar o Brasil.

Foram tantas transformações, tantos aprendizados, mas encerro aqui com o maior deles:

Na semana passada, aprendi que Poço Redondo é a cidade com o menor IDH de Sergipe, mas com alguns dos seres humanos mais desenvolvidos que já conheci.

 Voltando para casa, já em São Paulo, além do coração apertado, pensei nos mesmos problemas que me assolavam no dia em que embarquei para Aracaju. Lembrei da lição número 4  —  meus problemas são tão pequenos. Vou acordar e resolver um por um —  e que venham os próximos.

 Obrigada garotada.

Obrigada Poço Redondo.

Obrigada Nathália Médici, Mauricio Benvenutti, João Pedro Neves, Pedro Menezes, Cristiano Kruel, Carlos Antunes, Nathália Fontes e Rosi. Obrigada Junior Achievement. Obrigada StartSe.