Facebook paga para espionar atividade de usuários

João Ortega

Por João Ortega

30 de janeiro de 2019 às 11:32 - Atualizado há 2 anos

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Desde 2016, o Facebook paga usuários para monitorar todas as suas atividades e levantar dados sobre a concorrência. Pessoas de 13 a 35 anos recebem US$ 20 mensais (em cartões de presentes) e, em troca, deixam o aplicativo Facebook Research instalado no smartphone com permissões abusivas à privacidade.

As informações foram publicadas na terça-feira (29) pelo portal TechCrunch e confirmadas pelo próprio Facebook. Além de monitorar as atividades – inclusive mensagens privadas –, a equipe de “pesquisa” ainda pediu para os participantes enviarem prints do histórico de compras da Amazon, por exemplo.

O programa Facebook Research é administrado e foi colocado na loja por empresas terceiras, como Applause, BetaBound e uTest. Este tipo de ação reafirma o caráter de espionagem do projeto, que recebeu o codinome Project Atlas para se afastar do nome da empresa de Mark Zuckerberg.

Repercussão

Após a publicação da TechCrunch, o Facebook confirmou as atividades e prontamente retirou do ar o aplicativo para dispositivos iOS. No Android, por enquanto, os usuários seguem sendo monitorados.

Mesmo com a repercussão negativa global, em um comunicado oficial, o Facebook afirma não haver nada de secreto no projeto. “Apesar das recentes reportagens, não há nada de secreto sobre isso; o programa foi literalmente chamado de Facebook Research App. Não é espionagem porque todas as pessoas que se inscreveram para participar passaram por um processo claro de entrada em que foi pedido a permissão e elas foram remuneradas. Finalmente, menos de 5% das pessoas que escolheram participar nessa pesquisa de mercado foram adolescentes, todos com autorização assinada pelos pais”.

Entretanto, um especialista em segurança virtual ouvido pela reportagem da TechCrunch afirmou que uma assinatura de consentimento não exime a empresa da responsabilidade pelos abusos contra a privacidade. Will Strafach, do Guardian Mobile Firewall, disse: “As permissões dão ao Facebook acesso contínuo aos mais sensíveis dados dos usuários, e, independente de qualquer acordo que eles assinem, não há nenhuma maneira de articular de forma clara qual é o poder que eles estão concedendo ao Facebook neste programa”.

Reincidência

Em 2014, o Facebook gastou US$ 120 milhões para comprar o aplicativo Onavo. Com a prerrogativa de diminuir o uso da rede no smartphone, o programa acessava dados de outros aplicativos.

Este tipo de monitoramento foi contra as diretrizes da Apple, que atualizou sua política para desenvolvedores e baniu o acesso a dados não relevantes ao uso do app em si. Em agosto do ano passado, o Onavo foi retirado da App Store.

No caso do Project Atlas (ou Facebook Research), a ação em dispositivos iOS foi rapidamente parada após a reportagem da TechCrunch. A Apple não confirmou se foi um pedido deles, mas tudo indica que o caso do Onavo mostrou que a empresa de Tim Cook não compactua com a busca por dados da concorrência a qualquer custo.

Momento conturbado

O segundo semestre de 2018 foi marcado por alguns escândalos no Facebook, e este ano não começou muito diferente. O vazamento de dados de milhões de usuários mexeu com a confiança do público e, claro, influenciou nas ações da empresa na bolsa de valores. Poucos meses depois, mais fotos foram vazadas.

Nesse panorama, a empresa deixou de ser a preferida do mundo da tecnologia. Com a influência da rede social nas eleições brasileiras, o Facebook ainda precisou se envolver com a política e anunciou medidas para proteger novos processos democráticos.

Ainda nesta semana, Zuckerberg anunciou que integrará serviços de mensagens do Messenger, Whatsapp e Instagram. O mercado recebeu essa notícia com desconfiança, visto que pode trazer ainda mais riscos à privacidade dos usuários.

Agora, o Project Atlas pode ser mais um tiro no pé de Zuckerberg, especialmente por lidar com adolescentes. A repercussão do caso, nos próximos dias, deve definir novos caminhos para a empresa que nem sempre joga limpo para vencer a concorrência.