É o fim do corretor de seguros?

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Por Isabella Câmara

15 de outubro de 2018 às 15:37 - Atualizado há 2 anos

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A profissão de corretor de seguros foi formalizada pela Lei 4.594, de 1964. Este profissional é o intermediário legalmente autorizado a angariar e promover contratos de seguros entre as Sociedades Seguradoras, Empresas de Previdência Aberta, Capitalização e os consumidores, sejam eles pessoas físicas ou jurídicas.

Com o surgimento das insurtechs – startups que unem o mercado de seguros aos benefícios que a tecnologia oferece –, as relações de trabalho e a rentabilidade desse segmento se transformaram. Nesse contexto, tanto os corretor de seguros quanto as seguradoras estão modificando seu papel dentro do mercado. Atualmente, ambos os agentes estão buscando novas formas de comercializar seus diferenciais e manter sua rentabilidade.

A iniciativa parece promissora no país. De acordo com um mapeamento prévio da Câmara Brasileira de Comércio Eletrônico, o Brasil já possui cerca de 40 insurtechs. Muitas vezes, recebendo investimento das próprias seguradoras. “Quando iniciamos o mapa, havia 25 insurtechs no Brasil cadastradas. Hoje, menos de seis meses depois, o número subiu para 40”, diz Gustavo Zobaran, coordenador do comitê na época.

Nesse cenário, o corretor tradicional precisa se modernizar e enxergar o mundo digital não mais como uma ameaça.  No futuro, a tecnologia será uma aliada na vida profissional de seguro e também uma grande oportunidade para o setor.

O novo papel do corretor de seguros

Para Mauro Gamboa, Consultor do Comitê de Insurtechs da Câmara Brasileira de Comércio Eletrônico, todos têm o seu espaço na era da inovação. “Essa nova fase serve para todos no mercado, inclusive para o corretor”, diz.

Mas, para não ficar para trás, o corretor tradicional precisará revisar seu papel no mercado e utilizar tecnologia para automatizar processos burocráticos. “O seguro não é um produto que se vende sem explicar para o consumidor o que ele está contratando. A tecnologia é uma aliada, que dá ao corretor mais tempo livre para focar no atendimento ao cliente e em uma venda consultiva”, diz Manes Erlichman, sócio-diretor da Minuto Seguro. “Por enquanto, a tecnologia não vai substituir o atendimento humano no setor de seguro brasileiro”, defende.

Corretor de seguros

Antigamente, o corretor era visto apenas como um vendedor de seguros. “Mas eu comecei a perceber que o papel dos corretores estava em cheque. Isso porque as seguradoras viram que para se tornarem mais eficientes em termos de retorno de capital, elas precisam cortar gastos no meio do caminho. E o corretor, quando assume o papel de tirador de pedido, é um desses gastos”, diz Andre Gregori, CEO da Thinkseg.

Com o nascimento das primeiras corretoras online, o profissional passou a ser percebido como um consultor e influenciador. No futuro, de acordo com muitos especialistas, o corretor de seguros será um agente que irá ajudar o usuário a entender melhor as funcionalidades de cada modalidade de seguro, captar possíveis clientes e conectá-los a novas ferramentas da área.

As redes sociais serão grandes aliadas dos corretores de seguros

Atualmente, todas as ações de uma pessoa estão baseadas em referências. “Se pegamos um Uber, olhamos a reputação do motorista. Se vamos comprar um produto, olhamos o que as pessoas falaram dele na internet. Por quê que com o seguro precisa ser diferente? Não precisa ser, e quem pode dar essa referência para o usuário final é o corretor”, conta Andre.

Nesse contexto, as redes sociais são grandes aliadas do corretor de seguros. Em um futuro próximo, esse professional precisará a aprender a conversar com o usuário por meios digitais e estar conectados em todas as redes sociais para melhorar a experiência dos clientes.

Na ThinkSeg, uma insurtech que conecta seguradoras, corretores de seguros e clientes, o corretor não vende o seguro diretamente para o cliente. O papel dele, nesse caso, é descobrir a necessidade de cada pessoa e apresentar a plataforma. “A diferença é que nas outras empresas o corretor cota e dá ao usuário diversas opções de seguro. Mas, na Thinkseg, o corretor é apenas um influenciador da plataforma”, diz o CEO da empresa.

Mas há quem diga: o corretor de seguros não vai mais existir

De fato, não é obrigatória a existência de um corretor na hora de contratar determinado serviço. Segundo o Art. 18 da Lei 4.594, as sociedades de seguros podem receber propostas de contrato de seguros tanto por intermédio de um corretor de seguros devidamente habilitado quanto diretamente dos proponentes ou representantes legítimos.

Seguindo essa premissa, a Lemonade – uma operadora de seguros licenciada que oferece serviços alimentados por inteligência artificial – surgiu em Nova York. Apoiada nas leis da cidade, a startup que substituiu a burocracia e o corretor de seguros por chatbots e machine learning usa seu aplicativo para fechar seguros residenciais a US$ 5 ou US$ 35 por mês.

Ao implementar tecnologia e transparência em um setor que, segundo a empresa, carece de ambos, a Lemonade está criando uma experiência de seguro que é rápida, acessível e sem complicações.

Outro diferencial da empresa é que eles retiram uma taxa fixa dos pagamentos mensais dos clientes para arcar com o resseguro e outras despesas inevitáveis – o restante do dinheiro é usado para pagar as reivindicações dos sinistros. Ao contrário da Lemonade, segundo a própria empresa, as seguradoras tradicionais ganham dinheiro mantendo o dinheiro que não pagam em sinistros.

Mas e no Brasil?

No Brasil, foi a vez da Youse apresentar um novo modelo de negócio. A startup foi estabelecida como uma plataforma de vendas online da Caixa Seguradora que permite a contratação de seguros sem um intermédio de um corretor. Com a Youse, o cliente tem total autonomia e segurança para escolher o que deseja ter em seu seguro e paga somente o que precisa. Ou seja, o próprio cliente cota, personaliza e contrato seu seguro.

“Na Youse, os processos são totalmente desburocratizados, uma vez que nascemos 100% digitais. A cotação de seguros é feita em segundos, o fechamento do seguro em minutos e nosso atendimento por meio de um chat disponível no aplicativo, ou seja, toda nossa operação é sem papel e sem complicação”, diz Eldes Mattiuzzo, diretor da Youse.

Após gerar uma polêmica relacionada ao seu novo modo de fazer seguros, a Youse esclareceu que sua operação é intermediada por uma corretora de seguros. Mas, de acordo com a empresa, ela só entra em ação em casos que o consumidor precise tirar dúvidas na hora da contratação do serviço.

Inovação significa crescimento de mercado, mas há regras

Segundo o superintendente da SUSEP, órgão regulador do setor, novas ferramentas e inovações de forma geral são bem-vindas, principalmente quando buscam melhorar as relações entre todos os agentes do mercado. “Hoje, inclusive, já existem sistemas que auxiliam o corretor de seguros no seu trabalho. E se novas ferramentas chegam para ampliar a abrangência da indústria do seguro para outros consumidores, é um movimento muito bem-vindo. Isso significa crescimento de mercado”, diz.

Mas, segundo Joaquim Mendanha, a inovação precisa, obrigatoriamente, estar alinhadas às diretrizes do setor de seguros. “A disruptura irá acontecer, mas ela não pode atravessar um mercado no qual há regras. Sem dúvidas, inovar é fundamental para o desenvolvimento sustentável do setor e para o esclarecimento dos seus consumidores”.

De acordo com o superintendente, a própria SUSEP tem atuado e discutido sobre inovação, empreendedorismo e insutech com o mercado em geral. Em julho do ano passado, por exemplo, o órgão regulador criou a sua Comissão Especial de Inovação e Insurtech a fim de acelerar o processo de regulamentação do setor.