Open Innovation: como a colaboração pode ser uma ferramenta de ganha-ganha

Isabella Carvalho

Por Isabella Carvalho

30 de julho de 2018 às 10:33 - Atualizado há 2 anos

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Imagine trabalhar em uma grande empresa, ter uma boa ideia e dois caminhos para seguir: o primeiro, desenvolvê-la internamente com a ajuda de alguns integrantes do seu time, correndo o risco de passar por inúmeras burocracias antes de colocar ou não o projeto em prática; e o segundo, compartilhar a ideia com uma empresa nova, que possui algumas incertezas de mercado, mas com muita vontade de inovar e tirar logo o projeto do papel – as famosas startups.

A segunda opção tem crescido muito nos últimos anos, e é chamada de Open Innovation ou inovação aberta. O conceito é antigo e foi apresentado em 2003, pelo pesquisador Henry Chesbrough, professor e diretor executivo do Centro de Inovação Aberta da Universidade de Berkeley em seu livro Open Innovation: The New Imperative for Creating And Profiting from Technology. 

Por muito tempo, porém, acreditava-se que uma boa empresa deveria desenvolver suas novas ideias exclusivamente na sua área chamada de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento). Neste modelo, poucas pessoas tinham o poder de ditar as tendências e as necessidades das empresas no mercado. Com o passar dos anos, as grandes e tradicionais companhias precisaram mudar e acompanhar um novo ecossistema de compartilhamento de ideias e desenvolvimento delas através de parcerias. “Open innovation significa abrir os projetos da empresa e trabalhar com inovação em conjunto com parceiros externos, que quase sempre são as startups, mas podem ser colaboradores ou outros profissionais”, explica Pedro Waengertner, cofundador da ACE e autor do livro “A estratégia da Inovação Radical”

Na parceria, as grandes organizações unem o capital, o reconhecimento no mercado e uma infraestrutura sólida com os procedimentos enxutos, cultura informal e rapidez de uma startup. “Podemos falar de empresas que precisam de um parceiro para atingir mais rápido um objetivo, co-criar uma solução, ou que esteja em busca de novos insights para a companhia”, explica Waengertner. Em alguns casos, a inovação aberta pode acontecer dentro da empresa, com a contribuição de colaboradores que, tradicionalmente, não participavam dos processos da companhia. O conceito é trazer resultados combinando atores de diferentes ecossistemas.

Com o Open Innovation, as empresas conseguem aumentar a rentabilidade, reduzir os custos, ter acesso a novos mercados e criar novos fluxos de receita para a organização. Além disso, se tornam mais preparadas para mudanças em um mercado mais dinâmico e disruptivo. “Com a ajuda de startups que tem como um dos pilares a otimização de processos, a empresa consegue criar produtos e serviços com custos menores. Além disso, podem gerar mais insights”, explica o executivo. Mas, afinal, como esta cooperação tem sido feita no Brasil e no mundo?

Corporate venture

Investimento de grandes organizações em startups e programas de inovação. Funciona como uma troca mútua: as companhias já estabelecidas conseguem inovar, se atualizar e ter uma nova mentalidade de trabalho, enquanto as startups, recém-chegadas no mercado, recebem investimento, mentoria e ampliam o networking para crescer ainda mais. Se conectando às startups, as companhias conseguem gerar insights importantes para o desenvolvimento de novos produtos, serviços ou negócios por meio da tecnologia.

Os programas de conexão ou aceleração são exemplos de corporate venture. A companhia lança um desafio para um determinado problema e busca soluções por meio da co-criação com startups. Assim, conseguem manter esse novo negócio livre de burocracias tradicionais da empresa. Além disso, existem os casos de fusões e programas de intra-empreendedorismo.  

Estrutura física

Outra forma de colocar em prática o conceito de Open Innovation é criando estruturas de inovação dentro da empresa, como espaços de coworking. Neste caso, a companhia oferece a estrutura para que startups possam trocar ideias e ter acesso a networking. Geralmente, são espaços com salas colaborativas, ambientes de integração e decoração pensada para que os colaboradores fiquem mais à vontade. O investimento de capital não é obrigatório, mas pode acontecer.

Eventos

Em alguns casos, a organização promove eventos voltados à inovação. Os hackathons, por exemplo, estimulam o planejamento e execução de novos projetos. A empresa identifica problemas do cotidiano, propõe uma maratona e os participantes – que podem ser colaboradores, empreendedores, startups, desenvolvedores ou outros profissionais que se identifiquem com o propósito da companhia -, são divididos em times e passam horas ou até mesmo dias trabalhando naquela ideia. Toda a produção é compartilhada e aplicada na companhia, e as soluções escolhidas podem valer prêmios.

Iniciativas brasileiras

O Open Innovation já faz parte do ecossistema brasileiro, e o investimento em startups que podem ou não atuar no mercado da investidora para o compartilhamento de conhecimento e desenvolvimento de projetos, tem se tornado cada vez mais comum. Um mapeamento realizado pela assessoria de negócios Altivia Ventures no final do ano passado identificou 87 grandes empresas no Brasil com programas de inovação aberta, seja em parcerias com startups ou por meio de iniciativas internas.

Entre as empresas com esse tipo de ação, a maior parte (56%) é de capital estrangeiro. Companhias dos mais variados setores fazem parte da estatística: Bradesco, Santander, Natura, Braskem, Votorantim, Pão de açúcar e Magazine Luiza. O mapeamento identifica três linhas de ação: o corporate venture capital (CVC), no qual as empresas investem nas startups por meio de fundos; as fusões e aquisições, em que as grandes corporações incorporam novas tecnologias ou garantem seu acesso a outros mercados; e o intraempreendedorismo, quando as companhias estimulam os próprios funcionários a criar novos negócios.

“Essas iniciativas estão abrindo as fronteiras das empresas. Teoricamente, são áreas e unidades de negócios que não trabalham juntas. Com a inovação aberta, a companhia passa a trabalhar em colaboração entre si e com outras startups”, ressalta Waengertner. Segundo o executivo, apesar do conceito antigo de Open Innovation, as empresas brasileiras ainda estão começando a enxergar os benefícios da iniciativa, que exige uma preparação de cultura e processos. Acompanhe como três grandes empresas brasileiras estão, na prática, adotando a inovação aberta:

Itaú

Entre as mais conhecidas iniciativas, está o centro de empreendedorismo e inovação do Itaú e da Redpoint e.ventures, o Cubo. A parceria, criada em 2015, sem fins lucrativos e inspirada no Vale do Silício, tem como objetivo incentivar a co-criação de empresas com startups. O espaço, no bairro da Vila Olímpia em São Paulo, conta com seis andares, cinco mil metros quadrados e um anfiteatro. Três andares são dedicados ao coworking, um andar para workshops e o restante com espaço para café, terraço e lounge para interação e eventos. O ambiente é descontraído e composto por sofás, desenhos na parede e muitas cores.

Na prática, o Cubo tem alguns públicos. Os empreendedores, que podem usufruir do espaço para aproveitar o networking, divulgar sua marca ou participar de cursos e eventos; os investidores, que têm a oportunidade de encontrar e conhecer startups para investir; e os mentores, que podem conhecer mais sobre as tendências do mercado e contribuir com conhecimento. O espaço também é aberto para universidades, grandes empresas e estudantes.

Com um ano do Cubo, já eram 58 startups instaladas e que juntas receberam R$42 milhões em investimentos. Mais de 700 startups foram avaliadas e 650 postos de trabalho gerados. Hoje, o Cubo abriga 55 startups em convivência com 11 grandes empresas. Em agosto de 2017, o Itaú resolveu quadruplicar a estrutura do espaço com pretensão de torná-lo o maior centro de empreendedorismo de inovação da América Latina. Ao todo, serão 20 mil metros quadrados em prédio que ainda está em construção, localizado no mesmo bairro. O novo endereço, que deve ter sua estreia em agosto, poderá abrigar 210 startups e conseguirá receber mais de 2 mil pessoas por dia.

Natura

Já a natura resolveu colocar em prática o Open Innovation com o Cocriando Natura, um programa aberto ao público. Lançada em 2013, a iniciativa tem como objetivo reunir o ecossistema em jornadas. Sempre que a empresa identifica uma oportunidade para inovar, lança um desafio e convida empreendedores, clientes ou qualquer outra pessoa para colaborar na cocriação de ideias, modelos e conceitos.

Com experiências de colaboração em ambientes virtuais e presenciais, o tema escolhido é discutido e as ideias geradas podem servir de inspiração às áreas internas da empresa. Ao longo das jornadas, os participantes acumulam pontos que liberam novas funcionalidades na rede. Alguns insights já viraram produtos da companhia. Logo no início, a marca trouxe ao mercado duas opções de presentes para o dia das mães criadas a partir dos resultados do desafio.

Além disso, a companhia lançou em 2016 a Natura Startups,  plataforma para fomentar a cultura inovadora na empresa e incentivar o empreendedorismo e o ecossistema de startups relacionado à companhia. Segundo a empresa, o objetivo é viabilizar, colaborar e acelerar oportunidades por meio de parcerias e geração de negócios, com foco em crescimento, diferenciação e desenvolvimento sustentável. As startups podem entrar em contato, apresentar ideias e colaborar com os produtos da companhia.

Totvs

A gigante brasileira de softwares investiu mais de R$ 1 bilhão em pesquisa e desenvolvimento nos últimos cinco anos para incorporar novas tecnologias como Big Data, Internet das Coisas e Inteligência Artificial em seus processos. Uma das iniciativas da companhia é o iDexo, espaço lançado no final do ano passado onde desenvolvedores, startups e empresas se conectam para transformar desafios em soluções exponenciais.

A empresa disponibilizou infraestrutura e tecnologia para estimular a possibilidade de investimento junto a empresas associadas, como Cisco, Intel e Banco ABC Brasil. Ao todo, são 1.300 metros quadrados totalmente dedicados à inovação, com laboratórios de User Experience (UX) e espaço maker para mais de 30 startups a cada batch de startups. O iDexo é localizado na sede da companhia, com artes nas paredes, mesa de sinuca, fliperama e outros espaços de integração.

O objetivo é criar um grande ecossistema baseado no conceito de co-inovação, incentivando a conexão entre empresas já consolidadas no mercado com as startups. As seleções acontecem três vezes ao ano para novos empreendedores, sejam startups ou desenvolvedores autônomos, que desejam se juntar à companhia e colaborar nos projetos.

Os selecionados passam por uma aceleração com duração de três meses para receber apoio técnico, infraestrutura e mentoria para o desenvolvimento de produtos. As soluções maduras que mais se destacam podem receber investimentos das organizações parceiras, para continuarem seus negócios de forma independente. Segundo os executivos da Totvs, não se trata apenas de um espaço de aceleração, mas de experimentação e aprendizado. Cada programa busca encontrar empresas com soluções reais para o varejo, educação, saúde, alimentação, finanças e outros setores.

Desafios

Apesar do crescimento das iniciativas no Brasil, o país ainda tem um longo caminho para percorrer. De acordo com o Índice Global de Inovação 2017, o Brasil ocupava a 69º posição, entre 127 países que representam 92,5% da população mundial. Neste ano, avançou um pouco, ocupando a 64ª, o que não coloca o país na liderança da inovação na América Latina, que segue com o Chile na primeira posição regional.

A classificação, que foi divulgada em julho, é publicada anualmente pela Universidade Cornell, pelo INSEAD e pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI). A Confederação Nacional da Indústria (CNI) e o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) são parceiros do IGI. No ranking, a Suíça aparece em primeiro lugar, seguida de Países Baixos, Suécia e Reino Unido.

Para colocar em prática a inovação aberta e sair de um modelo tradicional de áreas exclusivas internas, para a colaboração com empresas e outros profissionais, as empresas enfrentam alguns desafios. O primeiro deles, é transformar a cultura da companhia. “A inovação tem que virar parte da empresa, uma competência, e não apenas uma área ou projeto isolado”, ressalta Waengertner. 

Desvincular essa nova cultura das burocracias de uma grande empresa também não é uma tarefa fácil. A colaboração com startups, por exemplo, envolve um modelo de negócios mais ágil, com um grande volume de ideias e tomadas de decisões mais rápidas. Na prática, isso pode levar empresas a abandonar os esforços e projetos de inovação.

A segurança das informações também pode comprometer o processo. “A inovação aberta ainda passa uma certa insegurança para vários grandes players do mercado, já que muitas pessoas se envolvem e passam a circular na companhia”, explica. Empresas centradas em patentes, altas tecnologias ou dados sigilosos acabam encontrando dificuldades para unir a inovação aberta e o controle dos riscos.

Apesar disso, Waengertner ressalta que é fundamental que as empresas continuem aprendendo, testando e colocando em prática projetos de inovação. “Quanto mais aberto for o relacionamento, mais insights e resultados a empresa consegue. As companhias precisam estar dispostas a aprender com seus erros. Só assim poderão desenvolver soluções inovadoras e transformar, de fato, o mercado”, termina.

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