Amazon criou uma batalha entre as maiores cidades americanas para nova sede

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Por Marlon Corrente

6 de fevereiro de 2018 às 18:10 - Atualizado há 3 anos

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Você possivelmente conhece a Amazon, empresa norte-americana fundada em 1994 por Jeff Bezos, que ocupa hoje o lugar de homem mais rico no mundo, embora a maior parte de sua fortuna esteja na forma de ações da gigante do comércio.

A Amazon é a maior varejista do planeta em receita e também em capitalização e ocupa o segundo lugar em volume de vendas (atras do Alibaba), mas mais do que volume de vendas no varejo a Amazon segue um caminho que outras gigantes de tecnologia seguiram, por aqui temos chamado isso de Ambidextrous Strategy, se você não sabe o que significa isso ou se seu professor ainda não te contou, a ambitividade corporativa de uma maneira simplista e não total, significa que uma corporação tem capacidade de atuar de maneira efetiva em diferentes cadeias de demandas (de um segmento quase sempre pro-relacional) com resultados satisfatórios no presente e estrutura para o futuro.

Ok! Ficou mais dificil de entender? Vou tentar te explicar na prática. A Amazon há muito tempo não é apenas a gigante varejista do mundo digital, ela é hoje uma holding que abriga outra marcas e soluções, entre elas AmazonFresh, AmazonPrime, Amazon Web Services, Alexa, Amazon Drive, Amazon Echo, Amazon Kindle, Amazon Fire (tablets), Kindle Store, Whole Foods e mais algumas dezenas de vertentes.

Preparei um bônus que talvez você não tenha visto, mas vai te ajudar a entender com um pouco mais de detalhes os motivos que a Amazon tem (além de Buzz) pra escolha da sua nova sede. A empresa que hoje lidera o coração e a fatura do cartão de grande parte dos empreendedores norte-americanos e de outros grandes países nem sempre teve seu formato corporativo feito com a cabeça apenas no futuro. Abaixo você verá documentos recuperados de um processo baseado numa ação da Amazon conhecida como Goldcrest, mostrando o processo de reorganização fiscal da empresa usando um labirinto de organizações-entidades e offshore com acordos entre empresas. Tudo isso levou a um delicado e demorado processo com o IRS (Receita Federal Americana), que cobrou uma divida bilionária da Amazon, que acabou ganhando o processo.

Organização corporativa da Amazon antes do Goldcrest Project

 

 

Isso mostra que de lá pra cá, a Amazon se tornou uma empresa de multifaces não apenas por ideologia ou ambição, mas principalmente por dois motivos:

1 – Crescimento circular em setores variados que se intercalam.

2 – Otimização tributária. O entendimento básico de que todo dinheiro que não é realocado será desembolsado em tributos.

Pra você ter ideia, no terceiro trimestre de 2017 a Amazon (marketplace) teve cerca de US$ 43,7 bilhões em receita e US$ 347 milhões em lucro, o quarto trimestre foi um pouco melhor com US$ 60,5 bilhões em receita e US$1,9 bilhão em lucro. Te parece muito? São 0,8% e 3,14% sobre a receita. Muita gente diria que essa é uma empresa caminhando pra insolvência, mas não é assim que o mercado realmente acredita, e não é isso que está acontecendo com a Amazon.

A empresa tem um lucro líquido percentualmente baixo por alguns motivos, mas o principal passa pela necessidade de flexibilizar os negócios e realocar parte do lucro em outras cadeias, fazendo com que o volume de tributo diminua e o grupo continue crescendo.

Crescimento das ações da Amazon desde seu lançamento.

Ok, eu não escrevi esse artigo em um bom dia nas bolsa de valores mundiais, mas da pra ter uma noção da verticalização do crescimento da empresa.

Porque expliquei tudo isso? Pra você se envolver mais nos bastidores do processo e entender um pouco melhor como o mercado pensa e age. Todo esse crescimento e complexidade no modelo operacional fez com que Amazon precisasse ter uma nova sede, a Amazon HQ2, e a Amazon criou um divertido e necessário processo seletivo entre as maiores metrópoles americanas (e canadenses) para escolher e anunciar a região que vai receber a nova sede da empresa, com 50.000 empregos diretos e imediatos e cerca de US$ 5 bilhões de investimento em estrutura e organização. A intenção da Amazon a médio prazo é que o HQ2 esteja pronto para ter a mesma ou melhor estrutura que o HQ1 em Seattle. 

238 cidades (americanas e canadenses) fizeram propostas para se candidatarem para receber a nova estrutura da empresa e isso tem criado um movimento de integração nas cadeias de empreendedorismo muito importante nas regiões. Na maioria das metrópoles, empreendedores se uniram pra dizer a Amazon o motivo de ali ser o melhor local para se construir o futuro.

http://https://www.youtube.com/watch?v=BQ2qtQ4OS2k

Dallas-TX

http://https://www.youtube.com/watch?v=JFIgzpnLuQA

Denver-CO

Prefeito de Frisco-TX, cidade faz parte da regiãoo Metropolitana de Dallas/Forth-Worth e possui uma das maiores taxas de crescimento e qualidade de vida do país. Foto: The Washington Post

A Amazon avaliou uma série de fatores: composição tributária, estrutura de transporte público, estrutura acadêmica, consolidação corporativa, capacidade de crescimento, composição do setor imobiliário (regiões com setores imobiliários maduros e caros tendem a apresentar menos condições de crescimento a médio prazo), transporte público, geografia, capacidade de escoamento, estrutura portuária, aeroportuária e rodoviária, clima e claro, composição do mercado (quais outros negócios estão ali e os motivos). Foram anunciadas 20 finalistas em Janeiro.

São elas:
Atlanta, Austin, Boston, Chicago, Columbus, Dallas, Denver, Indianapolis, Los Angeles, Miami, Montgomery County, Maryland, Nashville, Newark (NJ), New York City, Northern Virginia, Philadelphia, Pittsburgh, Raleigh, Toronto, Washington DC.

A Amazon diz muito pouco sobre os bastidores do processo e qual lógica usará para escolha da casa pra sua nova sede, mas além do buzz corporativo o processo levanta um debate e mostra alguns parâmetros de como o mercado norte americano pensa e como ele pode andar nos próximos anos.

Sabe-se que a sede atual em Seattle coloca a Amazon em um extremo e acaba isolando a corporação de uma posição mais estratégica no país. Seattle é uma região naturalmente fria, e isso pode fazer com que a Amazon dê preferência (entre outros fatores) para regiões centrais, de fácil acesso e escoamento e que tenham capacidade de crescimento acelerado, facilitado e clima mais estável. Isso pode fazer com que o Texas seja um dos favoritos (você pode ler esse artigo de 2016 de como o Texas trabalha pra ser o estado mais rico dos USA na próxima década).

Durante o intervalo do último Super Bowl, a Alexa (assistente de voz do Amazon Echo) questiona (durante o comercial) qual a temperatura em Austin. Isso levantou um debate curioso se esse poderia ser uma antecipação da escolha da Amazon.

Eric Simonson, consultor da Everest Group Research, listou as cidades (que segundo dados econômicos) estão viáveis a receber o HQ2 da Amazon. São elas: Atlanta, Boston, Chicago, Dallas, New York City, Washington, D.C. e Toronto. A proposta é que a Amazon trabalhe diretamente em contato com as 20 cidades nos próximos meses até ter todas as variáveis corretas e decidir qual o melhor local para o seu HQ2.

Dallas é outro forte candidato, com progresso expressivo das universidades locais, crescimento rápido de infraestrutura e um trem bala que deve ligar a Houston, a cidade pode ser um ponto de referência pra junto com a Amazon, alcançar voos longos.

Se a Amazon vai escolher o Texas ou qualquer outra região, saberemos em algum tempo.

Nenhuma cidade do Vale do Silicio foi escolhida como finalista

Uma coisa é certa entre as grandes corporações americanas: O fôlego da região do Vale do Silicio não é eterno, e a região já extrapolou a algum tempo sua capacidade de expansão e manutenção. No estado da Califórnia, apenas Los Angeles está entre os finalistas, mas a carga tributária do estado deve ser um fator pesado na escolha final da Amazon, além de preços elevados de habitação, congestionamentos (problemas de capacidade na infraestrutura atual) e geografia (que não permitem mais rápidos crescimentos).

A Amazon disse por exemplo que entre outros fatores, as regiões deveriam possuir bons trânsitos de massa e serem favoráveis a negócios crescentes. Esses fatores provavelmente fizeram com que nenhuma cidade do Vale fosse escolhida. A região, que ainda vai viver muito tempo como sede das maiores empresas de tecnologia do mundo, parece ter chegado ao ponto de estagnação e isso tem levantado um importante debate regional. James Thomson, um ex-executivo da Amazon levantou por exemplo que um dos grandes problemas da região é encontrar mão de obra qualificada, principalmente engenheiros, parte disso é causado competição das demais empresas que já estão ali.

A primeira resposta a Amazon já deu, e é sobre o Vale do Silício, ninguém será capaz de dizer que a região não tem enormes vantagens pra qualquer empresa de tecnologia, mas é cada dia mais difícil encontrar uma disposta a pagar isso.