Carro do futuro: como o automóvel vai mudar radicalmente nas próximas décadas

Toda a cadeia do automóvel deverá ser transformada do começo ao fim, em uma mudança que só será similar ao que o próprio desenvolvimento do automóvel foi capaz de fazer lá atrás

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Por Da Redação

16 de agosto de 2018 às 19:01 - Atualizado há 2 anos

Já imaginou a possibilidade de nunca mais ter carro? Isso será cada vez mais comum nas cidades grandes, deverá ser uma coisa cada vez mais forte para o futuro. A tendência é que as próximas décadas o carro seja uma coisa cada vez mais exclusiva, e que as grandes montadoras se tornem empresas de mobilidade, dispostas a gerir frotas de carros autônomos.

Aliás, a Ford e a GM – duas das empresas mais tradicionais do mercado automobilístico – já declararam claramente esse objetivo de deixarem de ser montadores e virarem empresas de mobilidade (no sentido de transportarem as pessoas, mas não venderem os carros). As duas empresas não querem ser esmagadas pela Uber e pela Tesla. Que inclusive, correm o risco de ser esmagadas por diversas outras empresas que estão mudando como a mobilidade é conhecida hoje – pense no trabalho da Waymo, a subsidiária da Alphabet (a dona do Google) para o desenvolvimento de mobilidade autônoma e como isso pode ser relevante.

Poucos setores vão mudar tanto quanto o mercado de automóveis, se é que algum passar por uma transformação tão grande quanto ele. Toda a cadeia do automóvel deverá ser transformada do começo ao fim, em uma mudança que só será similar ao que o próprio desenvolvimento do automóvel foi capaz de fazer lá atrás (pela primeira vez, as pessoas passaram a viajar para regiões mais distantes do que 15 km de suas casas, transformação que vai se repetir em breve).

Para dizer a verdade, o setor já está em mudança profunda há vários anos. Alguns dos carros mais desejados do mundo hoje são elétricos e muitas pessoas substituíram o carro pelo Uber. Para entender para onde ele deve ir e como isso deverá moldar os carros do futuro, deveremos entender algumas das tendências que ele está passando agora, e como isso pode ser mais relevante ainda” nos próximos anos e décadas.

Como a mobilidade vai ser no futuro

Olhando para as tendências, entendemos que a principal mudança está no campo da mobilidade, que, por sua vez, farão mudanças profundas em como os carros deverão ser para se adaptar a esse novo momento.

Primeiro, voltamos a premissa de que quase ninguém vai ter um carro. Isso vai ser coisa só de gente muito, muito rica – afinal, será muito mais barato apenas alugar o carro pelo período em que você vai usar, através de aplicativos de uso por demanda. A mobilidade vai ser um serviço, não algo derivado de um bem comprado por você e utilizado no dia-a-dia, mas algo que você aluga e usa. Será mais inclusiva e eficiente, eliminando problemas comuns, como congestionamentos nas grandes cidades.

Os carros deverão ser completamente alinhados com essa transformação que a mobilidade passará. As empresas sabem disso e começam a se preparar para essa nova era, enfrentando grandes mudanças em seus parques industriais para se adaptar. A GM, por exemplo, tem diversos projetos de carros elétricos e já mostrou um grande foco nisso. A Volvo, por sua vez, é a companhia que tem o desafio mais e deixou claro que em 10 anos todos seus carros deverão ser, ao menos, híbridos.

Olhe para Uber

O Uber é só a ponta do iceberg nesta mudança, mas é a empresa que visivelmente mais fez para mudar até agora, popularizando a ideia de mobilidade como um serviço. Não é a única: 99, Lyft, Didi, Grab, Cabify, Yandex e tantas outras também estão envolvidas na mudança e brigam pela liderança do segmento. Só que nenhuma delas é tão famosa ou influente no Brasil como o próprio Uber.

Conhecida até de quem não usa o serviço pela polêmica com o poder público, o Uber é um gigante com valuation de US$ 68 bilhões – o que supera empresas como Ford, GM, Petrobras e até a própria Tesla. A companhia teve um salto gigantesco de valor nos últimos anos, conforme foi ficando cada vez mais forte mundo afora, se tornando uma das empresas mais comuns no dia-a-dia das pessoas – dando condições para que milhões de pessoas trabalhem com seus carros, levando e trazendo usuários, facilitando o transporte. E a escala permitiu que o serviço ficasse barato o suficiente para que muitas pessoas parassem de usar o carro e passassem a usar apenas o Uber.

Só que o objetivo do Uber é trocar o trabalho humano por carros autônomos. Nas palavras de Travis Kalanick, ex-CEO do Uber, “o preço só é caro pois você está pagando pela outra pessoa no carro”. Ou seja, a expectativa é que o preço seja ainda menor quando os carros forem autônomos, o que colabora para que as pessoas usem ainda menos o carro próprio e deixe o sonho de ter um automóvel de lado. Em suma, o prospecto do Uber é eliminar a propriedade do carro.

Olhe para a Waymo

Por incrível que pareça, a empresa que está liderando essa transformação não é o Uber. É o Google. Ou melhor, a Waymo, a subsidiária de carros autônomos e elétricos da Alphabet (dona do Google). A ideia da empresa é exatamente igual a do Uber, mas a empresa tem muitas milhas já testadas e é líder no desenvolvimento de tecnologias de direção autônoma – a ponto de ser avaliada em quase US$ 200 bilhões (entre US$ 135 bilhões e US$ 185 bilhões, para ser mais exato).

Apoiada pelos enormes cofres do Google, a Waymo não tem pressa para botar suas soluções na rua (ao contrário do Uber, que usa o trabalho dos motoristas para financiar suas pesquisas no campo autônomo). Ou seja, até agora todo o seu contato com os possíveis consumidores foi para efeitos de teste.

Não se sabe se a Waymo vai operar apenas um serviço de mobilidade autônoma ou se vai licenciar suas tecnologias para as mais diversas montadoras. Atualmente, a empresa tem uma parceria com a Fiat Chrysler, mas também tem um modelo próprio, pequenininho, usado principalmente em testes – mas que mostra uma das tendências para o futuro.

Como o carro vai ser

Pela transformação da mobilidade nos próximos anos, podemos concluir que um carro vai: A) rodar muito mais do que os atuais. B) não ter dono e ser alugado constantemente. C) Ser cada vez mais especializado nas necessidades individuais de cada corrida. Esses três fatores devem ser as principais causas transformadoras das montadoras quando se fala do produto delas.

Esses objetivos deverão fazer com que construir um carro seja ser muito mais caro do que é hoje. Uma coisa é montar um carro para as demandas (a maioria das pessoas dirige por poucas horas por dia e chega a passar dias sem dirigir, sobretudo nas férias ou finais de semana) de hoje, outra é construir carros que deverão funcionar por 24 horas por dia, sete dias por semana. É necessário um processo industrial que foque em durabilidade ao invés de quantidade.

Os carros também deverão ser cada vez mais espaçosos e confortáveis para os usuários, já que as pessoas não deverão dirigir, o que permite um maior conforto. Eles deverão ter sistemas de entretenimento avançados: não apenas rádio, mas também a possibilidade de se ter televisão e jogos dentro do carro (lembrando, o usuário não mais precisa prestar atenção na pista). Serviços de streaming e o uso de wi-fi serão abundantes durante as viagens.

Isso não necessariamente indica que os carros deverão ser maiores – pelo contrário, muitos carros menores (que cabem apenas uma ou duas pessoas) deverão ser fabricados. Hoje, você compra um carro que supra não só a necessidade do dia-a-dia (ir para o trabalho), mas que consiga suprir necessidades esporádicas (viajar com o cônjuge e filhos, por exemplo) que você venha a ter.

Há crescente necessidade também de que eles sejam fáceis de limpar. Como um usuário vem logo após o outro, há a expectativa que muitos carros fiquem sujos com os dejetos do passageiro anterior. Sim, esse será um problema dos carros do futuro.

E por fim, veremos o fim do modelo interior visto atualmente. A começar que o carro do futuro não terá nem volante e nem pedal – sua tecnologia será 100% autônoma. Os bancos serão mais adaptáveis que atualmente, mas provavelmente sua configuração mais comum será virado um para o outro, como uma limusine atualmente. O cinto de segurança vai continuar existindo até os números de acidentes serem baixos demais para justificar sua abolição.

Olhe para a Tesla

Um dos exemplos de como pode ser o carro do futuro vem do presente: os carros da Tesla, já radicalmente diferentes dos outros carros. Primeiro, são elétricos, o que lhes garante diferenças em seu funcionamento (o motor não está lá, o que permite mais espaço para “porta-trecos”) e performance (o torque é muito superior ao acelerar).

Os carros possuem um enfoque muito maior em espaço, com conceitos minimalistas. O centro do painel é dominado por uma grande tela, com formato de tablet, que realiza tudo que o usuário queira fazer no carro. Tudo é altamente adaptável dentro do carro.

Suas capacidades de direção autônoma são as mais avançadas que existem no mundo até agora. O carro não apenas estaciona sozinho (algo que já está virando relativamente comum), mas também é capaz de mudar de faixa sozinho e dirigir grandes distâncias sozinho em estradas – é comum ver no YouTube o caso de pessoas que se filmaram comendo, dormindo ou até mesmo fora do banco do motorista enquanto o carro se dirige.

É verdade que já teve acidentes fatais envolvendo Teslas que estavam no modo de direção autônoma, enquanto outros foram evitados por causa dele. A verdade é que, embora esteja avançado, ainda é necessário que os motoristas estejam atentos ao que ocorre em suas viagens para evitar qualquer tipo de acidente.

Além de carros, a Tesla também quer se aventurar no mundo de entregas autônomas, com o desenvolvimento de um caminhão também autônomo, que pode facilitar as entregas ao aumentar a produtividade dos caminhoneiros. Um caminhão autônomo pode trabalhar muito mais do que um humano, realizando um transporte muito maior de mercadorias – ele, contudo, também precisa ser muito mais durável que o que existe atualmente.

Olhe para a Waymo (novamente)

Só que um grande exemplo pode ser a Waymo, novamente. O modelo mais conhecido que a empresa usa em seus testes é pequeno, o que mostra uma clara tendência para o carro do futuro. Você poderá pedir um carro só para si, caso somente você vá ser transportado, ou uma mini-van, caso você esteja transportando sua família inteira. Os preços vão variar de acordo com o modelo escolhido.

Além disso, ao contrário da Tesla, a Waymo não acredita em um “período intermediário”, em que os carros possuem modos autônomos, mas ainda precisam ser dirigidos quase que completamente por pessoas. O que a Waymo quer é lançar um carro que não tenha nem como ser controlado por humanos se assim eles desejarem – e só vai fazê-lo quando tiver essa capacidade para tal.

Em cidades menores, é capaz que os carros sejam menos nichados, com modelos capazes de fazer mais coisas. É similar com a divisão que o Uber já faz por tamanho de mercado: o X está disponível em todos – é a versão básica do Uber -, mas a diferenciação de Select e o Bag só aparecem nos maiores, onde há uma demanda clara para tais.

Qual o papel das concessionárias e empresas de alugueis?

Um ponto fundamental nessa transformação é que o capital vai substituir o trabalho nas relações de transporte. Será necessário muito dinheiro para colocar esse novo modelo em operação – e aí que entram os “parceiros locais”, como os atuais concessionários e empresas de aluguéis que já existem e já trabalham em conjunto com as montadoras.

Há espaço para o surgimento de um modelo parecido com o da Coca-Cola, em que uma empresa produz e cuida do marketing, enquanto outra (parceira) leva esse produto para o mercado e cuida da distribuição do produto. Isso não significa que a empresa “subordinada” é necessariamente pequena. Muito pelo contrário.

A mexicana Femsa, principal engarrafadora da Coca na América Latina, vale cerca de US$ 32 bilhões – o suficiente para ser uma das 400 maiores empresas de capital aberto do mundo. A própria Coca vale US$ 192 bilhões, mas em nenhuma perspectiva do mundo isso significa algo ruim para a Femsa.

Uma montadora, como a Ford, vai passar a vender carros de tempos em tempos para esses parceiros e gerir a rede de parcerias. Ou seja, as montadoras podem deixar de ser voltadas para os consumidores finais e ser focada em parcerias com empresas que dão capilaridade para o seu produto. Essa é uma das possibilidades a serem abertas para o futuro próximo.

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