Bebês que tiveram os genes “editados” podem ter funções cognitivas alteradas

João Ortega

Por João Ortega

25 de fevereiro de 2019 às 14:46 - Atualizado há 2 anos

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Um experimento realizado por um pesquisador chinês, divulgado em 2018, chocou a comunidade científica e o caso continua repercutindo. He Jiankui “editou” o código genético de um embrião para evitar o contágio pelo vírus HIV. Como resultado do experimento, um casal de gêmeas modificadas nasceu em novembro. O objetivo, segundo ele, era buscar um antídoto genético para a AIDS. Uma pesquisa realizada na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), no entanto, sugere que este gene também pode estar relacionado a capacidades intelectuais.

O cientista norte-americano Alcino Silva, que conduziu o estudo em 2016, fez o mesmo processo que o chinês, só que em ratos de laboratório. A tecnologia CRISPR, inovação que permite a edição da cadeia do DNA, foi aplicada em ambos os casos. A remoção do gene CCR5 nos roedores fez com que eles se tornassem, de maneira geral, mais inteligentes.

Os ratos modificados tiveram melhor desempenho na hora de memorizar caminhos de um labirinto e também para se adaptar mais rapidamente quando os caminhos eram alterados. A mutação genética sugere, também, que o cérebro tenha capacidade de se recuperar de forma mais eficaz de um derrame.

Possíveis consequências

Uma coleta de dados mais recente, apresentada também pela UCLA, constatou que pessoas que tem partes do gene CCR5 em falta tendem a ter melhor desempenho escolar. Entretanto, Alcino Silva alerta que os resultados ainda não podem ser aplicados na prática. “Nós simplesmente não sabemos quais são as consequências de ficar ‘bagunçando’ o DNA das pessoas. Ainda não estamos prontos para isso”.

“A interpretação mais simples é que a mutação provavelmente terá impacto nas capacidades cognitivas das gêmeas”, afirma Alcino Silva ao portal Technology Review. Segundo ele, os efeitos exatos nos cérebros de Lulu e Nana, como foram chamadas as meninas, são imprevisíveis. “E é por isso que isto não deveria ter sido feito”.

A reação de Silva à pesquisa de He Jiankui é a mesma da maioria da comunidade científica internacional: “repulsa visceral e tristeza”. Vale ressaltar que em novembro do ano passado o cientista chinês afirmou conhecer o estudo realizado com ratos na UCLA, e disse que este necessitava de uma verificação independente.

Repercussões

Oficialmente, He Jiankui é tido como desaparecido na China. O pesquisador é procurado pelas autoridades e pode ser punido criminalmente por sua pesquisa.

Além de Lulu e Nana, que seguem monitoradas por cientistas, outro bebê geneticamente modificado está em gestação.

Por conta do estudo, a tecnologia CRISPR foi banida na China.