Apple sem Jobs: como a empresa de US$ 1 trilhão quase faliu nos anos 90

Tainá Freitas

Por Tainá Freitas

20 de agosto de 2018 às 11:01 - Atualizado há 2 anos

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Se você acompanha a Apple, provavelmente conhece a história de que Steve Jobs foi convidado a se retirar da própria empresa que fundou. Steve Jobs e a Apple protagonizaram uma história singular e o resultado seguiu a mesma linha, originando a primeira empresa de US$ 1 trilhão. Mas um longo caminho foi percorrido até a empresa chegar a este nível – e quase ter falido foi uma realidade para a Apple sem Jobs nos anos 90.

É claro que ser convidado a se retirar da empresa que fundou não aconteceu da noite para o dia para Jobs: uma série de conflitos – inclusive sobre o Macintosh, que ainda não havia sido lançado – indicavam que algo não estava bem na Apple.

Jobs e John Sculley, CEO da Apple na época, começaram a discordar sobre o preço do primeiro Macintosh a ser vendido. Esse era um assunto particularmente delicado porque a empresa passava por algumas dificuldades na década de 1980 – os últimos lançamentos, como o Apple III e o Lisa, não haviam tido o retorno esperado. Ao mesmo tempo em que a empresa precisava de lucro, Jobs tinha com o Macintosh o objetivo de tornar computadores mais acessíveis e de uso pessoal – e isso impactava não apenas na tecnologia, mas também no preço.

Enquanto Jobs seguia o planejamento de que o Macintosh deveria custar US$ 1.995, Sculley acreditava que o produto deveria ter um aumento de US$ 500 dólares. “Não podíamos bancar o corte no preço do Macintosh com os lucros do Apple II porque precisávamos desse lucro para mostrar nossos ganhos, não apenas para cobrir os problemas dos Macs”, disse Sculley à BBC em 2012.

“Foi isso o que nos fez discordar e iniciar o confronto entre Steve e eu. Eventualmente, o Conselho investigou e decidiu que queria apoiar a minha decisão”, disse Sculley. Então o Macintosh estreou nas prateleiras com o preço de US$ 2.495.

Lançado no dia 24 de janeiro de 1984, o computador atingiu 70 mil unidades vendidas no dia 3 de maio do mesmo ano. Apesar de uma campanha bem-sucedida no Superbowl e o lançamento da LaserWriter, impressora à laser lançada um ano depois, as vendas do Macintosh também não atingiram as expectativas.

Esse foi o estopim para a relação entre Steve Jobs e John Sculley começar a ruir. Até então, o próprio Jobs é quem havia provocado a entrada de Sculley na empresa. O executivo havia construído sua carreira na Pepsi e continuava na empresa até ser questionado por fundador da Apple: “você quer vender água com açúcar para o resto da sua vida ou quer ter a chance de mudar o mundo?”.

John Sculley passou a integrar a equipe da Apple em 1983 para trabalhar com o empreendedor. “Eu fui tomado por esse gênio jovem e impetuoso e pensei que seria divertido conhecê-lo melhor”, disse Sculley segundo Walter Isaacson, biógrafo de Jobs.

Com as vendas do Macintosh não tendo o resultado esperado, Sculley realizou uma reestruturação que tirou Jobs da liderança da divisão do produto. Em resposta, o fundador da companhia foi se queixar ao conselho, que ficou mais uma vez ao lado de Sculley.

Em 2013, John Sculley disse em um evento da Forbes que culpava o conselho por minguar a amizade que havia construído com Jobs. “Eu acho que o conselho entendia a Apple antes de eu vir, eles entendiam o Steve. Eles conheciam qual era e qual não era a minha experiência. Eu realmente acredito que poderia ter havido uma solução para manter eu e Steve trabalhando juntos, porque nós éramos realmente bons amigos nessa época”, afirmou.

A reestruturação dos cargos aconteceu em 1985, quando Jobs foi designado a ser o presidente do conselho da Apple. Ele rejeitou o cargo e assim saiu da companhia que ajudou a fundar. Seu próximo passo foi criar outra empresa de computadores – a NeXT. A criação da startup já seria polêmica por si só, mas Jobs ainda trouxe alguns membros da Apple para integrar a nova startup.

Dois anos depois, em 1987, outro fundador da Apple saiu da empresa – Steve Wozniak. O empreendedor deixou seu posto na companhia, ainda que permanecesse empregado. Na época, Wozniak também criou uma startup – a CL9, de controles remotos.

Uma Apple sem Jobs

Após a saída de Jobs, Jean-Louis Gassée assumiu seu lugar na liderança do time de Macintosh – antes, Gassée era o Diretor de Operações da Apple na Europa. Sob seu comando, a divisão de Macintosh adotou o mantra “55 ou morre”, que correspondia ao desejo de atingir 55% de lucro no produto.

“Nós não queremos castrar os nossos computadores para torná-los baratos”, disse Gassée segundo o livro The Apple Revolution: Steve Jobs, the Counterculture and How The Crazy Ones. Ele também afirmou que a Apple poderia lançar produtos mais acessíveis apenas no futuro.

Em 1986, a divisão do Macintosh lançou seu terceiro produto: o Macintosh Plus. O modelo já seria capaz de rodar o novo sistema operacional da Apple, System 7, lançado posteriormente, em 1991.

Ainda em 1986, a Apple lançava outra versão do seu computador, um pouco mais barata, o Macintosh 512 KE. O computador pessoal era muito semelhante ao Macintosh Plus, mas com a memória e o preço menores – o Macintosh 512 KE foi vendido por US$ 2 mil, enquanto o Plus possuía o preço de US$ 2.599.

Já o próximo grande lançamento da Apple foi o Macintosh SE. O computador pessoal recebeu a sigla “SE” (System Expansion / Expansão de sistema) porque possibilitava a adição de um disco rígido (de 20 MB ou 40 MB) em um computador compacto.

O Macintosh SE foi um dos primeiros modelos da Apple a serem vendidos sem teclado – os clientes poderiam escolher entre dois modelos da própria empresa. Para os funcionários, a Apple ainda lançou entre 10 e 20 unidades de computadores com cases transparentes que hoje compõem coleções raras.

Computador com cores

Foi em 1987 que a Apple lançou seu primeiro computador com suporte a cores. O Macintosh II possuía um display colorido que trouxe cores para a tela pelo preço a partir de US$ 5.498. 18 meses após o lançamento do computador, o modelo foi atualizado com uma CPU ainda mais poderosa e vendido pelo nome de “Macintosh IIx”.

O modelo foi o primeiro computador modular feito pela Apple – antes, a CPU e monitor eram acoplados (como voltaria a ser posteriormente com os iMacs). Por esse motivo, os computadores eram mais facilmente customizáveis – era possível abrir a CPU e adicionar mais memória, drivers, etc.

Ainda em 1982, a Apple também lançou um monitor de alta resolução com cores RGB. O produto foi descontinuado alguns anos depois, em 1992.

Uma nova Apple?

Após a saída dos dois cofundadores, a Apple começou a apostar ainda mais em produtos – desde novos modelos de computadores à laptops e palmtops (também conhecidos como PDA e assistentes digitais pessoais). Como uma startup, a empresa parece ter decidido testar quais produtos teriam um bom retorno no mercado, mas se perdeu no meio do caminho.

A empresa começou a se reinventar porque experimentou uma queda nas vendas em 1989. Ao lidar com tantos produtos diferentes, a Apple começou a ter dificuldade em entregá-los. “A Apple possui tradicionalmente muita força como uma empresa criativa; agora precisa executar tão bem quanto cria”, disse Bruce Lupatkin, um analista da Hambrecht & Quist na época, ao NYT.

Ao mesmo tempo, Jean-Louis Gassée, sucessor do Jobs na liderança da equipe do Macintosh, saiu da empresa para fundar o próprio negócio – a desenvolvedora de sistemas operacionais Be Incorporated.

A empresa começou a experimentar uma queda nas vendas enquanto via as de seus concorrentes subindo – principalmente a IBM e Microsoft. Enquanto a IBM se fortalecia ao criar computadores para escritórios, a Microsoft criava novas versões do Windows – e a Apple perdia cada vez mais força no mercado.

Para se reinventar, a companhia lançou novas linhas de computadores: a Quadra e Performa. Os primeiros modelos Quadra foram lançados em outubro de 1991 como uma sucessão para o Macintosh II – o primeiro computador com display colorido da Apple.

Os Quadras eram computadores modulares com possibilidade de expansão de memória. Já os Performas eram computadores de outras linhas (como a Macintosh) que eram vendidos por um preço menor como forma de diminuir os estoques. A Apple vendia computadores dessa linha até 1997, quando Jobs retornou à empresa.

Enquanto Macintoshs eram transformados em Performa, uma grande gama de produtos e marketing chegava aos clientes. Mas a empresa chegou ao nível de oferecer tantas opções que produziu um vídeo de informações com duração de 30 minutos explicando para uma família como escolher e comprar um Performa.

PowerBooks: o seu laptop pessoal!

Outra grande aposta da Apple na época foram os PowerBooks – uma linha de laptops para uso pessoal. A empresa lançou três modelos de uma só vez em 1991 – o PowerBook 170, PowerBook 100 e PowerBook 140. Cada modelo de notebook possuía uma configuração e preço específico, visando atingir um público mais variado no mercado. Enquanto o PowerBook 170 foi lançado sob o preço de US$ 4.599, o PowerBook 140 foi vendido inicialmente por US$ 3.199.

Já o PowerBook 100 trazia um preço mais acessível para os padrões da Apple – US$ 2.300. Enquanto os outros modelos foram criados e produzidos pela empresa, o PowerBook 100 havia sido desenhado e fabricado pela Sony a pedidos da Apple.

Na época, a linha Powerbook foi uma grande aposta do então CEO John Sculley – o que parece ter dado resultado por algum tempo. A revista americana Mobile PC escolheu o PowerBook 100 como o “melhor gadget” entre 100 opções. Em terceiro lugar ficou um Walkman da Sony, segundo a BBC.

Mas nem tudo foram flores: em 1992, a Apple realizou o recall de 60 mil unidades do Powerbook 100. A empresa temia que alguns modelos tivessem um problema de segurança – uma falha elétrica que poderia fazer buracos na tampa de plástico do eletrônico. Das 60 mil unidades que poderiam causar o problema, isto aconteceu em apenas três, sem nenhum dano a qualquer pessoa, segundo o New York Times.

Aliança AIM

Em 1991, a Apple percebeu que estava perdendo sua força no mercado para a Microsoft e Intel e formou uma aliança com duas concorrentes: IBM e Motorola. Chamada de “AIM”, as empresas trabalhavam em um novo hardware e software chamado de PReP – the PowerPC Reference Platform.

Enquanto a Apple trabalharia no software, a IBM e Motorola produziriam o hardware. Como parte do acordo, a Apple criou duas empresas: Taligent e Kaleida Labs. A Taligent era formada por engenheiros da Apple, que trabalhavam no projeto do sistema operacional chamado “Pink”. Mas o projeto que parecia promissor no início não foi para a frente – tanto para a Apple, quanto IBM e Motorola.

Newton: o assistente pessoal

A Apple continuou lançando uma longa linha de produtos na década de 90. Em 1993, a empresa ousou e lançou um “PDA” – um assistente pessoal digital. O dispositivo era um palmtop que possuía o reconhecimento inteligente de escrita e memória. O Newton Messapad da Apple era capaz de mandar fax e foi criado com o objetivo de ser uma alternativa aos desktops.

A ideia que parecia promissora para colocar a empresa de volta nos trilhos não teve o desenrolar esperado. O reconhecimento de escrita à mão não funcionava como deveria, a bateria durava pouco e não havia muitos aplicativos que pudessem ser incorporados ao Newton. O produto – que já era touch screen – foi descontinuado em 1998 e trouxe grandes aprendizados à Apple quando falamos sobre dispositivos mobile.

No mesmo ano em que o Newton era lançado, John Sculley saía do cargo de CEO da Apple para virar o presidente da companhia. Sculley realizou o caminho inverso de Michael Spindler, que saiu do cargo de presidente e ocupou o cargo de Sculley em 1993.

Mas a mudança não durou muito tempo: mais tarde, ainda em 1993, Sculley deixou o cargo de presidente da Apple e foi substituído por Mike Markkula.

A volta de Jobs

Ainda na década de 90, a Apple estava em busca de novo sistema operacional para seu negócio, pois os desenvolvidos na empresa não tinham o desempenho esperado. Em 1996, a empresa possuía dois possíveis fornecedores: a NeXT e BeOS. A NeXT foi fundada por Steve Jobs quando ele saiu da Apple, enquanto a BeOS foi fundada por Jean-Louis Gassée na mesma situação.

A companhia acabou optando por comprar a solução de Jobs – que já estava há 12 anos fora da empresa que ajudou a fundar – adquirindo também a startup. A NeXT foi comprada pela Apple por US$ 429 milhões e 1,5 milhões de ações da Apple – o que trouxe Steve Jobs de volta para a empresa como um conselheiro.

Quando voltou, Jobs convenceu o conselho da empresa que Gil Amelio, CEO da Apple no momento, não estava fazendo o trabalho esperado. O conselho concordou e nomeou Jobs como CEO interino.

E assim Steve Jobs voltou definitivamente para a Apple, encontrando a empresa em crise. O movimento que havia se iniciado na década de 80 continuou e empresas como IBM e Microsoft haviam a superado no mercado.

Em 1997, a situação estava tão crítica que o fundador da Dell, Michael Dell, disse que se fosse Jobs, iria “acabar com tudo e devolver o dinheiro para os investidores”, conforme relatou o Business Insider.

Contrariando as expectativas, Jobs fez, na verdade, o oposto: conseguiu o investimento de US$ 150 milhões de uma de suas principais concorrentes, a Microsoft. O investimento trouxe o alívio necessário para a Apple, que estava a beira da falência, segundo a CNBC.

“Bill, obrigada. O mundo é um lugar melhor”, disse Jobs para o concorrente Bill Gates após o investimento. A frase icônica estampou a capa da revista Time e o investimento ficou conhecido como o movimento de Jobs (e Gates) que salvou a Apple.

“A Apple estava com problemas muito sérios. E o que estava muito claro é que se o jogo fosse uma disputa onde para a Apple ganhar, a Microsoft tinha que perder, então a Apple iria perder”, afirmou Jobs segundo a CNBC.

“Havia muitas pessoas na Apple e no ecossistema da Apple jogando esse jogo – e estava claro que não deveriam jogar esse jogo, porque a Apple não iria bater a Microsoft. A Apple não tinha que bater a Microsoft, a Apple tinha que lembrar quem era a Apple porque eles haviam esquecido”, explicou Jobs.