2019: O universo LGBT no ecossistema de startups brasileiro

A StartSe traz alguns dados e entrevistas para entender o que acontece nos bastidores do ecossistema de startups, e se de fato temos um espaço tão inclusivo

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Você sabia que pesquisas apontam o Brasil como um dos países mais homofóbicos do mundo? Que no ano passado foram registradas 420 mortes por homicídio ou suicídio decorrente da discriminação? Este dado foi publicado em fevereiro deste ano no relatório Mortes Violentas da População LGBT no Brasil ,  realizado pelo Grupo Gay da Bahia (GGB). Neste Dia Internacional do Orgulho LGBT, 28 de junho, a StartSe traz alguns dados e entrevistas para entender o que acontece nos bastidores do ecossistema e se de fato temos um espaço tão inclusivo como imaginamos.

O ambiente de startups e de espaços de trabalho compartilhados ficaram bastante conhecidos nos últimos anos como abertos e inovadores - “o lugar ideal para projetos disruptivos e novos insights ”. Escutamos várias pessoas para compreender melhor este cenário.

Um dos primeiros entrevistados foi Quitério Melo. Ele já passou maus bocados em entrevistas de emprego no mercado tradicional. “Costumava receber muitos conselhos antes das entrevistas, como por exemplo que fosse mais discreto e diminuísse o topete - pois não contratariam se percebessem que era homossexual”, lembra.

Era evidente a sua frustração na época e era preciso buscar um novo lugar em que se sentisse mais valorizado. Foi na Plug, um espaço de coworking em SP, que ele encontrou a oportunidade de ser quem ele era - e foi exatamente essa noção de pertencimento que o impulsionou como profissional, se tornando Head of Sales e sócio da empresa. “O importante aqui é a execução do seu trabalho e o que você pode proporcionar de positivo às pessoas a sua volta. Isso só o contato genuinamente humano proporciona”, disse.

Agora está liderando as conexões entre os alunos da Gama Academy e empresas, com o objetivo de repassar um pouco das oportunidades que teve acesso nos últimos anos. “Além do lugar que sinto paixão de trabalhar por propósito, fui acolhido em integridade, pois aqui respira-se diversidade. Algo que agora posso repassar para cada aluno que busca recolocação nesse mercado. Sinto que a minha imagem e história é referência para muitos deles. Chegou o momento do give back”.

Para Álvaro Brigagão, Alliance Account Manager na Take, as grandes empresas, com seus modelos tradicionais, deveriam se preocupar em gerar resultados incentivando as qualidades surpreendentes dos seus colaboradores LGBTQ+ ao invés de impor padrões de comportamento, vestimenta ou qualquer outro detalhe. Ele explica que no Cubo é tudo tão natural que não se sente minoria. “Me sinto em casa”, avaliou.

O que ninguém vê 

1) As dificuldades e o preconceito

Conversamos com Luiz De França, co-founder da GoFriendly. Depois de frequentar muitos eventos para startups, ele percebeu que no Brasil, ao contrário dos EUA (na época da explosão das startups), não bastava ter uma boa ideia para atrair um investidor -  era preciso executar e colocar dinheiro do seu próprio bolso primeiro. Foi quando Luiz fundou sozinho, em 2016, a Ahoy Trip, um site de reservas online de hotéis gay-friendly. Depois de pesquisar muito, descobriu que até então não havia nenhuma empresa que tinha nascido única e exclusivamente com esse propósito no Brasil nem na América Latina.

A primeira startup não deu certo, mas ele não desistiu. Seguiu indo a eventos relacionados ao ecossistema de startups. E continuava se sentindo um peixe fora d’água. Seu grande questionamento pessoal era a falta de representatividade de pessoas LGBT nesses ambientes. Simplesmente não havia. “Eu nunca me senti à vontade nos eventos para startups, com raras exceções. Eu percebia que havia certo preconceito e total desconhecimento do “mercado” LGBT dentro desses ambientes, com visões distorcidas da realidade, principalmente quando eu falava de mim e do meu projeto (até então o de reservas de hotéis gay-friendly)”, diz.

Ele já estava quase desistindo do empreendedorismo, quando resolveu dar uma última chance. Em agosto de 2017, entrou no programa de aceleração do Founder Institute. Lá ele criou um novo projeto - a GoFriendly, que é uma plataforma colaborativa de avaliação de lugares LGBT-friendly e trocas de experiências, com um propósito muito simples, ajudar as pessoas LGBT a encontrar lugares que são mais inclusivos e respeitam mais a diversidade que outros lugares. Ele encontrou no Founder Institute um ambiente bem receptivo e inclusivo. O projeto ainda está em fase inicial, mas tem tudo para dar certo!

Para Gustavo Pessoa, co-founder da Talent Matching, o ambiente de startups é certamente mais disposto a abraçar temas diferentes e novas formas de trabalhar. Mas a verdade é que ninguém sabe exatamente como e, na pressa e na urgência, antigas práticas às vezes falam mais alto. “De toda forma, existe muito menos tradicionalismo do que nas grandes empresas. Abrir e ser transparente é muito difícil, é processual e demorado, mas vejo um esforço real. Podemos caminhar devagar, mas não estamos parados. Dentro desse contexto de desalento que vivemos no Brasil, é muito importante não perder a perspectiva de que sim, estamos nos movendo em direções produtivas”, explica.

2) Os desafios para os transgêneros

Falamos com a Gabriella Bazolli, que é trans não-binário e Gestora de Sucesso do Cliente na Geofusion. Ela trabalhou em empresas tradicionais por muitos anos e a primeira vez que teve que lidar com um ambiente menos hostil foi com uma startup. “Mas naquela época o trabalho com os clientes era apenas por telefone, então a forma que me vestia ou cortava o cabelo não influenciava tanto na gestão e como me tratavam”, afirma.

Em 2017, começou a trabalhar em uma startup. Lá, diferente de tudo que já havia vivido, foi muito bem tratada. Saiu da empresa para um desafio aparentemente melhor e também para uma empresa de ambiente mais "clean" - pelo menos achava que fosse, mas não foi bem assim. Ela sofreu situações tóxicas numa startup que vendia inclusão, mas tinha vergonha de colocá-la em contato com clientes porque ela tinha uma aparência fora do padrão. “O ambiente era menos 'clean' do que imaginava. Sabe varrer a sujeira pra debaixo do tapete? Exatamente isso! Nem sempre o ambiente é inclusivo, é bonito nas redes sociais. Sou uma pessoa boa para uma foto, aquela bem diversidade 100%, mas para visitar o cliente da empresa, não. Mas, não faço mais parte dessa empresa”, disse.

Ela tem uma dica para todas as pessoas que se veem nessa situação. “Sejam sempre quem vocês são! Usem suas roupas, cortem seus cabelos, não escondam suas tatuagens ou piercings, o(a) profissional que você é não justifica pela roupa que você veste. Vista o seu melhor e caráter mais bonito, se esforce como nunca e demonstre que você é capaz de ir muito mais além do que acham que você pode. Eu já tive muito medo do mercado empregatício, hoje sou eu quem escolho onde vou trabalhar. Sei quem eu sou e do que sou capaz”, destaca.

Patrícia (nome fictício para preservar o anonimato) também quis falar para esta reportagem pois foi testemunha de várias situações homofóbicas no ecossistema. Ela já presenciou várias formas de preconceito em eventos públicos em que participou como mentora: “O problema é que faltam times diversos mesmo. Já ouvi que trans não era gente, que tinha que morrer na rua, coisas bem pesadas assim. É bizarro o ódio que algumas pessoas sentem pelo diferente, sempre me choca e deprime presenciar essas coisas. Costumo recomendar um bom psiquiatra quando ouço algo assim”, conta.

Para Audryn Campelo, Coach de Carreira e Produtividade focada em público LGBT, o que mais pesa para as pessoas no ambiente profissional é o medo de assumir sua sexualidade ou identidade de gênero frente aos gestores, não só nas entrevistas, mas em todo o decorrer de sua carreira. Muitos escondem sua orientação ou identidade de gênero por muito tempo, sempre usam palavras neutras para falar do cônjuge, como “a pessoa com quem eu moro’’ ou coisas assim. “Já presenciei situações em que uma coachee, fazendo entrevista no mercado formal de trabalho, foi abordada de uma forma completamente truculenta e invasiva por um diretor de uma empresa, que questionou coisas como: como você explica para a sua filha o fato de você morar com uma mulher? Por que você acredita que você escolheu ser assim? E mais coisas extremamente absurdas e abusivas”, destaca.

Muitas vezes o LGBTI+ (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, intersexuais e outras identidades de gênero e sexualidade não contempladas na atual sigla adotada, representadas pelo “+”) sente que tem que ser mais profissional, mais produtivo, mais paciente e mais resiliente que todos os demais colegas, apenas pelo fato de ter uma sexualidade ou identidade de gênero diferente. Para Audryn, se uma empresa não está pronta para acolher alguém como ele/ela é, talvez esse nem seja o lugar para a pessoa. Ainda que haja a necessidade financeira para muitos, nada vale mais do que a sua paz de espírito e saúde mental. “Pondere sempre, lembre-se de que uma contratação é uma via de mão dupla e um negócio que envolve duas partes e não apenas a da empresa. Busque verificar se a empresa está alinhada com os seus valores e compreenda se lá é ou não um ambiente hostil para diversidade e inclusão. Lembre-se, o que importa é o profissional que você é, por isso estude, aprimore-se, conheça-se, buscando sempre excelência em tudo o que fizer!”, enfatiza.

Iniciativas Espetaculares:

1) SONDER

Alan Gattiboni é cofundador da Sonder, um app de viagens feito para o público gay.  Ele não é homossexual, mas tem total conexão e empatia pela causa.“Dois de meus sócios são gays. Sou hétero de orientação, mas minha identidade é completamente não-binária, o que me faz passar por algumas situações bem desconfortáveis, onde pude pelo menos entender um pouquinho a dificuldade da população LGBT quando passa por isso. Não me comparo, obviamente, mas esse pouquinho de entendimento me trouxe empatia real e profunda, o que me mudou irreversivelmente. As situações são de todo tipo, mas me lembro em uma empresa grande, numa reunião para apresentar o Sonder, onde ouvi: "mas tua empresa é gay..." quando perguntei sobre a possibilidade de gerar negócios.

2) TODXS

Léo de Oliveira é CEO da TODXS - uma startup social que desenvolve projetos de engajamento, pesquisa, educação e proteção voltados para pessoas LGBTI+. Ele explica que o Brasil tem grandes desafios no combate à violência LGBTfóbica. “Nossas pesquisas têm registrado um aumento no volume de vítimas nos últimos anos e, por isso, seguimos trabalhando duro para construir soluções que impactem positivamente vidas LGBTI+”, destaca. A organização quer empoderar a comunidade LGBTI+, educando a sociedade e transformando o Brasil em um país verdadeiramente inclusivo e livre da discriminação. Com um modelo inovador de startup social, a TODXS acredita no poder da coleta de dados, seu processamento e tradução em iniciativas direcionadas para cada uma das linhas de atuação. A organização engaja três setores importantes na luta contra LGBTfobia no Brasil: Sociedade, Governo e Empresas.

3)CAMALEÃO

Maira Reis é jornalista LGBT+, palestrante e criadora do projeto Camaleao.co, uma startup que conecta talentos LGBTs com empresas éticas e inclusivas. O Projeto nasceu depois que Maira teve experiências horríveis em processos seletivos. Em 2016 ela entrou no LinkedIn e viu que as empresas estavam buscando talentos LGBT+, mas sem saber como usar os termos certos deste público específico. “Ao mesmo tempo, comecei a atrair pessoas LGBTs que me enviam os seus currículos e eu não sabia o que fazer com eles”, diz. Foi então que ela fez a ponte entre uma jornalista trans e uma marca de hotel que a contratou como assessora de imprensa. E ela amou realizar todo o processo.

“Resolvi desenvolver um projeto que faz essa ponte entre talentos LGBTs e empresas para que essas últimas tenham em suas posições pessoas LGBTs.  Só que o problema é mais embaixo, pois não é só encontrar talento, mas sim treinar as empresas para desenvolverem processos seletivos inclusivos. Logo, surgiu a ideia de criar um curso chamado 'Mais MiMiMi | Mais Minorias LGBT+' ( LINK ) em que a empresa que irá trabalhar conosco o compra, faz o treinamento e depois disso receberá uma amostra grátis, ou seja, poderá nos encaminhar uma vaga para procurarmos no nosso banco em um processo que é todo feito às cegas”, conta.

Maira gostaria que as empresas tivessem mais consciência sobre os seus papéis e buscassem informações sobre o universo LGBT+ antes de publicar uma vaga porque, segundo ela, só vê erros absurdos. Por exemplo, não adianta pedir inglês fluente em uma vaga para pessoas trans, sendo que a maioria dessa comunidade está em situação de prostituição justamente por essas vagas excludentes.  “Logo se para você é tão importante ter o inglês, que tal aceitar o currículo de uma pessoa trans que tem algum conhecimento de inglês e a incentivar a estudar para ter um inglês fluente? Isso sim é ser uma empresa que trabalha em prol da diversidade e inclusão LGBT+. Ah, e esse trabalho começa da porta de dentro para fora, ou seja, a comunidade LGBT+ está dentro das empresas, logo não tem nexo só fazer publicidade LGBT+ sem ter políticas LGBTs internamente, né?”, indaga.

4) Comitê de Diversidade para Promover Inclusão no Ecossistema das Startups

Promover a diversidade é um desafio que as startups enfrentam. Hoje, 74% das startups têm a maioria masculina e ainda não existem dados apontando para diversidade de etnia e orientação sexual. Para ajudar a reverter esse cenário, a Associação Brasileira de Startups (ABStartups), instituição sem fins lucrativos que representa as startups brasileiras, lançou em 2018 o Comitê de Diversidade e Inclusão, que tem por missão compreender e fomentar discussões sobre inclusão no ecossistema de startups no Brasil, permitindo um ambiente cada vez mais diverso e livre de preconceitos.

Segundo a presidente do comitê, Tania Gomes Luz, o objetivo é fomentar discussões sobre diversos temas e promover a multiplicidade de opiniões. “A ABStartups tem um papel importante no ecossistema brasileiro de startups e por isso resolvemos unir forças para fomentar iniciativas que visam um ambiente equilibrado e acessível”, explica Tânia.

O que dizem os especialistas

A Declaração Universal dos Direitos Humanos afirma que todos os seres humanos - não alguns, não a maioria, mas sim TODOS - nascem livres e iguais em dignidade e direitos. Quando celebramos os Direitos Humanos, precisamos lutar pela implementação da promessa da Declaração Universal. Conversamos com um especialista jurídico para entendermos melhor a legislação no contexto brasileiro. Renan Quinalha, professor de direito na Unifesp, escreveu ano passado um artigo para o Le Monde Diplomatiqué Brasil trazendo um panorama histórico e legislativo sobre o tema.

Ele falou com a StartSe e explicou que nosso ordenamento jurídico não era expresso em questão da orientação sexual até o ano passado.  "Este mês o  Supremo Tribunal Federal (STF) determinou que a discriminação por orientação sexual e identidade de gênero passará a ser considerada crime. Os ministros determinaram que a conduta será punida pela Lei de Racismo, que hoje prevê crimes de discriminação ou preconceito (por "raça, cor, etnia, religião e procedência nacional) até que se sobrevenha uma lei específica pelo poder legislativo".

O caminho é longo, há ainda muito o que fazer, mas a cada dia é possível conquistar novos espaços na sociedade, que muda para se tornar mais inclusiva. A Nova Economia promete não enxergar cor, religião, orientação sexual ou qualquer forma de preconceito. Que nesta nova era que se desenha, todos sejam livres para ter uma vida digna sem nenhum tipo de discriminação. Esse é o desejo da StartSe.

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