Gravação de ex-CEO da Cambridge Analytica sugere manipulação em eleições

Episódio reacende discussão sobre o papel da agência nas eleições presidenciais dos Estados Unidos e no Brexit

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Os escândalos do uso ilegal de dados de mais de 50 milhões de pessoas do Facebook para fins políticos protagonizado pela Cambridge Analytica iniciaram no primeiro semestre do ano passado, mas ainda estão longe de acabar. O veículo Open Democracy teve acesso a gravações de Alexander Nix, ex-diretor de operações da empresa, em que ele discute como impactou nas eleições de Trindade e Tobago em 2007.

Ele foi gravado por Britanny Kaiser, ex-funcionária da Cambridge Analytica. O Open Democracy teve acesso às gravações. Nos áudios, o ex-diretor de operações da empresa descreve como manipulou jovens para ter o resultado desejado por seu cliente nas eleições.

A agência notou que o país era dividido em dois povos específicos – afro-caribenhos e indianos. Por tradição, os indianos são mais ligados à família, e dificilmente agiriam de forma contrária aos pais. Por outro lado, jovens afro-caribenhos foram analisados como mais propensos a agir conforme seu grupo e faixa etária, independente do que os pais fariam.

O cliente desejava que os indianos ganhassem as eleições. Então, a Cambridge Analytica teria criado um movimento indicando que os últimos processos eleitorais eram “roubados”. Assim, incentivariam a apatia dos jovens afro-caribenhos. Por outro lado, os jovens indianos continuariam votando, por crer nas instituições políticas defendidas pela geração de seus pais.

Dessa forma, os jovens participavam de um movimento caraterístico para sua faixa etária – com muito grafite e stencils para espalhar a mensagem – que estimulavam que não votassem. Como resultado, 40% das pessoas de 18-35 anos não votaram e a eleição foi vencida pelos candidatos que representavam os indianos.

No entanto, apesar das gravações, Alexander Nix nega que a empresa teria feito algo ilegal e que o objetivo da campanha era “destacar e protestar contra a corrupção”. Ele também afirmou que a empresa nunca fez a “supressão de eleitores e que não há evidências do contrário”.

Vender Coca-Cola

O ex-diretor de operações da Cambridge Analytica  ainda comparou sua estratégia com uma campanha da Coca-Cola. Segundo o Open Democracy, ao invés de realizar uma campanha publicitária convencional em um cinema, ele aumentaria a temperatura do ambiente para criar a necessidade de consumir a bebida.

Alexander Nix deixou de ser o diretor de operações da Cambridge Analytica em abril do ano passado. Desde então, ele segue como um consultor independente de publicidade.

O poder da Cambridge Analytica

A discussão reacende algo que continua em julgamento – como a Cambridge Analytica usou os dados do Facebook para influenciar as eleições presidenciais dos Estados Unidos de 2016 e a questão do Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia, que continua em discussão).

As gravações não falaram sobre o Facebook em específico, mas este caso continua sendo apurado pelas autoridades dos Estados Unidos. Já no caso do Brexit, Nix recusou-se a comentar, mas inclui a questão como uma das campanhas em que a empresa esteve envolvida.

Hoje, o Facebook lida com uma crise de imagem e de negócio. A rede social passou a ser questionada quanto o sigilo e privacidade de dados depois do acontecido e de outros escândalos. Além do caso da Cambridge Analytica, o Facebook foi hackeado e, em outro caso, 6 milhões de usuários tiveram suas fotos vazadas.

Enquanto isso, a empresa de Mark Zuckerberg continua a lançar iniciativas para combater fake news em eleições, além de estar investindo para fortalecer o jornalismo e ter criado uma "sala de guerra" específica para lidar com o impacto da rede social na política mundial.

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