StartSe na Islândia: topa implodir e começar do zero? Eles fizeram isso

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Por Eduardo Glitz

28 de outubro de 2016 às 18:44 - Atualizado há 4 anos

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A Islândia é um pais atípico. Situado no extremo norte do continente europeu este pequeno país conta com somente 300 mil habitantes, e é o com menor densidade populacional que visitei nesta volta ao mundo. A temperatura máxima registrada no ano é de 14 graus celsius, ou seja é inverno o ano todo por aqui. É também o local mais caro que visitei durante minha viagem, uma simples água não sai por menos de R$15,00, o litro da gasolina fica na faixa dos R$7,00 e um simples copo de suco custa R$30,00.

A mão de obra é cara e o governo tem feito de tudo para convencer as pessoas a imigrarem para um dos países mais frios do mundo. O nome da Islandia em inglês é Iceland, ou “Terra do Gelo”, isso já consegue descrever bem como são as coisas por aqui. Mas esta pequena ilha também tem muito a nos ensinar sobre economia e finanças.

Aqueles entendidos de economia sabem que em caso de crise econômica, o sistema bancário de um país precisa ser preservado a todo custo. Mas na crise de 2008 o governo da Islândia ousou tomar uma decisão diferente. Foi contra a corrente e deixou seus bancos quebrarem. O mais impressionante é que ninguém poderia ter previsto a reviravolta que a economia poderia dar nos anos seguintes.

Durante a maior crise mundial as notícias do colapso da Islândia espalharam-se  em todo o mundo, muitos já estavam à espera de bolha estourar. Pois houve uma rápida transição de uma economia orientada à exportação para um centro financeiro internacional, o país tornou-se um destino popular para os investimentos estrangeiros motivados pelos baixos impostos e alta taxa de juros. Isso cresceu muito rápido chegando em um ponto, onde os ativos do sistema bancário estavam valendo 10 vezes mais do que o PIB da Islândia.

A estratégia era simples, tomava dinheiro emprestado em dólar levava para a Islândia, convertia em Krunas, moeda local, e investia no país. Isso fez a moeda valorizar-se 900% de 1994 a 2008. Com o fluxo sem precedentes de capital para o setor financeiro da Islândia, os bancos começaram a ser cada vez mais imprudentes, muitos gastos e muitas dividas. Por exemplo a Harpa Concert Hall, um gigantesco projeto financiado pelo Landsbanki, que foi alardeado como o maior edifício de vidro da Europa, agora aparece como um lembrete da Islândia do excesso e do comportamento imprudente.

Mas um sistema financeiro inexperiente e mal gerido era simplesmente insustentável, e logo começou o burburinho sobre que fim isso teria. Quando a crise de 2008 atingiu seu ápice com o declínio fiscal ecoando em todo o mundo, a economia da Islândia não tinha mais esperança de salvar-se.

Como os bancos haviam se tornado grande demais para serem salvos as autoridades decidiram deixá-los quebrar, nem tinham uma opção diferente disto. Em poucos dias a moeda entrou em colapso. Quase todas as empresas na ilha foram à falência. O mercado de ações caiu 95% e pagamentos de juros sobre empréstimos subiu para mais de 300%. Mais de 60% dos ativos bancários viraram pó e as taxas de juros foram para 18%, para tentar controlar a inflação.

Naquele momento as autoridades responderam com o impensável: eles deixaram os três maiores bancos quebrarem. Foi a terceira maior falência da história mundial. Então veio a implementação de controles de capital rigorosas, medidas de austeridade e uma série de reformas. O ceticismo era grande, mas contrariamente às dúvidas dos críticos, o modelo parece estar funcionando. O desemprego é baixo,  e os níveis de produção pré-crise estão sendo superados.

Nos anos que se seguiram, o governo islandês veio também gradualmente reduzindo as taxas de juros, caindo progressivamente para 4,25% em 2011 e, em seguida, impressionantemente caindo ainda mais para cumprir a meta de inflação do governo.

A Islândia recebeu um empréstimo de US$ 2,1 bilhões do FMI, bem como US$ 2,5 bilhões a partir de países vizinhos. Com isso, o governo foi capaz de proteger os depósitos nacionais e também segurar a moeda para não desvalorizar ainda mais. Como prova de seu impressionante crescimento econômico dentro de um curto período de tempo, a Islândia começou reembolsos ao FMI antes do previsto, começando em 2012 com 20% do empréstimo. Ainda este ano eles pretendem estar com toda divida paga.

Nos últimos anos a Islândia tornou-se um dos países da Europa com maior crescimento e muito pode ser aprendido com esta reviravolta impressionante e inesperada. Eles foram contra todos os padrões e recomendações e isto lhes permitiu começar do zero uma nova economia, com os alicerces corretos. Implodir e começar tudo novamente, dá liberdade de escolhas diferentes. Isto muda tudo e vale tanto para a economia de um país quanto para qualquer negócio. Mas sem dúvida, a decisão nunca é fácil.

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