Sua atenção vale muito: essa startup arrecadou US$ 35 milhões por ela

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Por Mariana Rodrigues

16 de junho de 2017 às 11:22 - Atualizado há 3 anos

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Você já pode ter conhecido aqui sobre a nova empresa de navegador de internet Brave Software, fundada pelo ex-CEO da Mozilla, Brendan Eich. Ele arrecadou US$ 35 milhões em 30 segundos para custear o seu projeto. Como assim?

Foi o seguinte. Brendan criou uma moeda, chamou-a de BAT e a lançou no mercado. Em vez de os investidores aportarem dinheiro na empresa dele e ganharem uma participação, como é usual, eles compram essas moedas emitidas pelo Brendan, que podem ser usadas no produto dele (um navegador de internet) quando ficar pronto.

A emissão de moedas é chamada de ICO – Initial Coin Offering.

É mais ou menos como acontece nas festas juninas. Antes de você consumir, você precisa ir ao caixa e comprar fichas, que depois poderão ser usadas para comprar o vinho quente, o churrasco, entre outros, nas barracas.

O que Brendan fez foi lançar no mercado fichas, que mais tarde poderão ser usadas para comprar anúncios no navegador. Só que nesse caso o dinheiro arrecadado será usado para levantar as barracas, ou seja, para desenvolvimento da plataforma Brave, que ainda não está pronta.

Esse é um modelo cada vez mais comum para financiamento de startups. Como a oferta de moedas das startups é limitada, o comprador pode investir apostando que as suas fichas valerão mais no futuro por causa da escassez. Nesse caso, ele pode comprar como investimento para revender depois, e não para usar na própria startup.

Para a Brave, a atenção dos usuários é o valor que será vendido, em troca de BATs dos anunciantes. Os usuários que quiserem também poderão comprar moedas e pagar para não serem incomodados.

A analista de pesquisa de mercado da Let’s Talk Payments, Elena Mesropyan, estudou a fundo a proposta da Brave e uma possível abertura para fraude no sistema. Veja os principais pontos levantados por Elena.__

ECONOMIA BASEADA EM ATENÇÃO EM BLOCKCHAIN: UM EXAME MAIS DETALHADO DE UMA STARTUP QUE ARRECADOU US$ 35 MILHÕES EM 30 SEGUNDOS

“. . . Em um mundo rico em informações, a riqueza de informações significa uma falta de outra coisa: uma escassez de tudo o que essa informação consome. O que a informação consome é bastante óbvio: consome a atenção de seus destinatários. Assim, uma riqueza de informações cria uma pobreza de atenção e uma necessidade de alocar essa atenção de forma eficiente entre o excesso de fontes de informação que podem consumi-lo.”

– Herbert Simon, 1971

Para sua ICO, a Brave Software criou sua própria criptomoeda – chamada The Basic Attention Token (BAT) – e vendeu um bilhão delas. Para comparar, essa coleção de BAT equivale a 156.250 unidades da criptomoeda Ethereum (ETH), que é pouco mais de US$ 35 milhões (aproximadamente R$ 116,2 milhões).

De acordo com a Coinbase, apenas aproximadamente 130 pessoas conseguiram comprar BAT, a moeda emitida pela Brave, sendo que cinco compradores ficaram com cerca de metade do estoque.

Os 20 principais endereços que estiveram na venda do token controlam mais de dois terços de todas as BAT, de acordo com Joseph Lee, fundador da corretora de bitcoin Magnr, que realizou uma análise pós-venda. Além disso, mais 500 milhões de BAT são armazenados para crescimento de usuários e desenvolvimento da criptomoeda.

O BAT, um token baseado na tecnologia Ethereum, pode ser usado para obter uma variedade de serviços de publicidade e serviços com base na atenção na plataforma Brave – um sistema de publicidade digital fundamentado em blockchain.

A proposta do Brave é que a atenção do usuário seja monitorada de forma privada no navegador e os anunciantes são recompensados com BATs. Os usuários também adquirem uma cota de BATs para participar.

Como a empresa explicou em um relatório, o sistema BAT fornece:

  • Aos usuários: forte privacidade e segurança ao visualizar anúncios, melhor relevância e desempenho, e uma participação de tokens.
  • Para publicadores: receitas melhoradas, melhores relatórios e menos fraude
  • Para anunciantes: com a atenção do cliente menos dispendiosa, menos fraude e melhor atribuição.

Com isso em mente, vamos dar uma olhada em três coisas interessantes sobre Brave – o modelo de monetização, o modelo de negócios e possíveis aberturas para um mau uso.

Um modelo de monetização redefinido e distribuído por criptografia

O Brave tem um serviço de pagamentos embutido – o Brave Payments (atualmente em versão beta) – um sistema de micropagamentos com base em bitcoin que pode pagar de forma automática e privada os sites favoritos dos usuários. Os usuários da Brave podem recompensar os sites cujo conteúdo eles valorizam e desejam suportar enquanto não são rastreados por ninguém, incluindo o Brave.

A Brave firmou parceria com a BitGo e a Coinbase para fornecer carteiras e ferramentas de compra para o registro Brave. Os usuários poderão adicionar seus fundos a uma carteira bitcoin gratuita (do BitGo) na qual poderão depositar dinheiro de qualquer outra carteira bitcoin. Para aqueles que não têm uma carteira de bitcoin, a parceria da Brave com a Coinbase permite adicionar dinheiro diretamente do cartão de crédito ou débito a partir de cinco dólares por mês. Uma carteira é criada automaticamente quando os usuários habilitam o Brave Payments no painel “Payments Preference” no navegador.

A propriedade da BAT não prevê nenhum direito além do direito de usar BAT como meio de obter serviços na plataforma Brave e permitir o uso e a interação com a plataforma Brave.

Passando da “poluição eletrônica” para a economia baseada na atenção com blockchain

Existe um valor máximo que as empresas digitais procuram – a atenção do consumidor. No mercado de anúncios, a atenção e o tempo do leitor são o que faz com que valha a pena o esforço. Em troca de informações valiosas que um anunciante fornece, o leitor poupa seu próprio recurso – atenção. Embora pareça uma simples troca de “bens”, a realidade é muito mais complexa, pois os publicadores operam um negócio e precisam ganhar a atenção para a receita. Então, como Brave redefine esse modelo?

O problema com o modelo de negócios existente no mercado de anúncios

Os anúncios na web são submetidos às externalidades negativas que acompanham o atual ecossistema publicitário, como a “poluição eletrônica” que consiste em ameaças à segurança, ameaças à privacidade, custos em tempos de download ineficientes, custos financeiros em taxas de dados móveis e, no caso de muitos anúncios, custos excessivos à sua atenção. Como resultado da poluição eletrônica, o recurso procurado – atenção – está ficando rapidamente exausto, com os leitores aprendendo a ignorar os anúncios ou simplesmente, usar bloqueadores de anúncios.

Uma pesquisa da Brave sugere que a publicidade móvel resulta em até US$ 23 por mês em cobranças de dados no plano de dados do usuário médio, cargas lentas da página e até 21% menos de vida útil da bateria. Em resposta, mais de 600 milhões de dispositivos móveis e desktops (globalmente) empregam software de bloqueio de anúncios – e esse número está crescendo.

O novo modelo (Basic Attention Metric, ou BAM)

O Brave oferece uma solução para, como ele chama, uma publicidade digital quebrada – uma troca de anúncios digitais descentralizada e transparente, baseada em blockchain.

O navegador Brave é o primeiro componente – é um navegador aberto, com foco na privacidade que bloqueia anúncios e rastreadores de terceiros, e constrói em um sistema de razão que mede a atenção do usuário para recompensar os publicadores de acordo.

Com o seu equivalente em moeda – BAT (Basic Attention Token), um token para uma troca de anúncios descentralizada – o Brave compensa o usuário do navegador para atenção enquanto protege a privacidade. A BAT conecta anunciantes, publicadores e usuários e é denominada pela atenção relevante do usuário, ao mesmo tempo em que remove custos sociais e econômicos associados a redes publicitárias existentes, como fraude e violações de privacidade.

A empresa vê o BAT e tecnologias associadas como uma parte dos padrões do futuro da web, resolvendo o importante problema de monetizar o conteúdo do publicador enquanto protege a privacidade do usuário.

Como o Brave Software usará o bitcoin?

Enquanto o Brave Software ainda está desenvolvendo o sistema, agora totalmente em código aberto no github.com, a empresa afirma que usará bitcoin (BTC) apenas para entrega de pagamento sem permissão para carteiras de usuários e publicadores que ele criará usando as APIs do BitGo.

A empresa espera manter os fundos no BTC apenas em buffers de pagamento mensais, para reduzir os efeitos da volatilidade e pretende permitir que os usuários experientes “tragam sua própria BTC” para autofinanciar suas carteiras e auto-micropagos para navegarem o quanto quiserem.

Uma possível lacuna

Não pude deixar de notar uma falha que provavelmente não será usada, mas uma possível abertura que a Brave poderia ter para aqueles com intenção maliciosa – a oportunidade de enviar dinheiro de uma entidade para outra “debaixo da mesa”.

O modelo por trás de Brave pode ser usado para transações ilegais entre duas organizações / indivíduos, sendo que uma entidade financia as carteiras de um grupo de leitores alugados (como uma fazenda de cliques).

Esses leitores então visitam sites aleatórios, dos quais apenas um é um destino necessário (o site do destinatário).

No final do mês, quando a transação deve acontecer, os leitores contratados removem todos os outros sites aleatórios da lista dos publicadores aos quais sua contribuição irá (ou para torná-lo ainda menos óbvio – o remetente pode permitir um certo nível de ‘Vazamento’ para qualquer outro editor aleatório) e deixar apenas o site de destinatários pretendidos (o site pode ser apenas uma mídia compatível com qualquer organização como disfarce).

Enquanto Brave não permite a saída de BTC a partir da carteira do navegador no momento, a posse de BTCs em si é de valor.

Saiba como fazer parte desse ecossistema

Para fazer parte do ecossistema global de fintechs, você pode cadastrar sua startup na MEDICI e na StartSe Base.

A MEDICI é uma base de dados que conta hoje com 7.000 empresas de todo o mundo. Ela pertence à Let’s Talk Payments (LTP), empresa global de conteúdo e pesquisas sobre fintechs.

A StartSe Base é a maior base de dados de startups do Brasil, com mais de 5.000 empresas cadastradas.

Sobre a Let’s Talk Payments (LTP)

A LTP é a principal plataforma de conteúdo e pesquisas sobre fintechs no mundo. Mais de 400 instituições financeiras e 90 programas de inovação recorrem à LTP para obter informações sobre as empresas que estão disruptindo o setor financeiro.

Mariana Rodrigues é colaboradora regular da LTP, focada no mercado de fintechs do Brasil. Ela é COO da SGC Conteúdo. Para acompanhar o conteúdo produzido pela LTP no Brasil e no mundo, cadastre-se na newsletter.

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