O tiro pode sair pela culatra: a mudança de prazo no repasse do cartão

Se mal aplicada, a medida do governo não atinge seu principal objetivo e ainda pode prejudicar as emissoras não financeiras, dentre elas algumas fintechs

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Por Da Redação

29 de dezembro de 2016 às 17:30 - Atualizado há 3 anos

nubank

*Por Marcelo Ciampolini, fundador da Lendico Global Services GmbH

Nesta semana uma grande polêmica envolvendo um conjunto de novas diretrizes de atuação do Banco Central, e que engloba medidas para reduzir o custo do crédito, tomou conta do noticiário e das redes sociais. O Nubank, fintech do setor de cartões, disse que fecharia as portas caso a autoridade monetária decidisse reduzir drasticamente o prazo de pagamento aos lojistas das vendas feitas com cartão de crédito. A declaração da empresa viralizou e gerou comoção na internet.

Nesse debate, há um aspecto importante que não vem sendo considerado: se mal aplicada, a medida do governo não atinge seu principal objetivo e ainda pode prejudicar as emissoras não financeiras, dentre elas algumas fintechs. O tiro pode sair pela culatra.

Atualmente, quando um consumidor realiza uma compra com  o cartão de crédito, o estabelecimento leva 30 dias para receber da operadora do cartão. O lojista pode optar por antecipar esse recebimento, mas para isso ele tem de arcar com o juros de antecipação (além das outras taxas inerentes à venda com cartão de crédito). Na lógica do governo o encurtamento do prazo de pagamento aos lojistas favorece a economia. Isso porque ao invés desses recursos permanecerem retidos nas mãos das operadoras, eles ficariam disponíveis para os lojistas trabalharem com  reposição de estoques, pagamentos de fornecedores, de funcionários etc. É dinheiro que movimentaria a atividade produtiva e o consumo. A medida sinalizada pelo Banco Central alinha a posição do Brasil com o que se pratica no resto do mundo. O prazo de 30 dias é uma particularidade que só acontece aqui. Em outros países, esse repasse em geral é feito em dois dias.

Até aqui, o impacto da medida seria justo e positivo. Mas para as emissoras de cartão, o efeito dessa mudança seria bastante significativo, o que poderia  provocar uma reação imediata com o aumento das taxas cobradas. E é aqui que mora o perigo. Na situação atual as operadoras “ganham”, em média, 15 dias de juros com os recebíveis. Em um cenário onde o pagamento ao lojista acontece 2 dias depois da venda, elas passarão a precisar de caixa extra para pagar aos lojistas, já que o pagamento da fatura por parte do cliente acontece em média 15 dias depois da realização da compra. Esse é o ponto que está tirando o sono do Nubank e de outras emissoras não financeiras: ao contrário dos grandes bancos emissores de cartões – que têm caixa – essas empresas precisariam ir a mercado para se financiar e poder pagar o lojista.

Seria preciso garantir ainda que, após a medida, as emissoras de cartão não reajustem as suas tarifas de intercâmbio (taxa que cobram do lojista pelo uso do cartão) de modo a incorporar a elas as receitas que antes vinham da antecipação. Se isso acontecer, o efeito da medida será praticamente nulo para os lojistas, já que hoje a maioria deles já faz antecipação de seus recebíveis.

A proposta do Banco Central deveria  considerar todas essas nuances para que, ao final, lojistas, consumidores e startups do setor não sejam prejudicados. A medida poderá ser boa para a economia, mas ainda precisa de ajustes para não acabar onerando quem não deveria.