Mais conhecimento, menos pedaços de papel

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Por Isabella Câmara

26 de agosto de 2016 às 19:53 - Atualizado há 4 anos

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Qual o seu maior sonho? O meu é poder deixar uma marca no mundo grande o bastante para ser lembrada nos livros de história, e a forma como escolhi fazer isso, é mudando como a educação empreendedora é tratada no Brasil.
A maioria das pessoas que conheço se espanta quando digo ter 21 anos, afinal, já trabalhei em grandes empresas como a Vale do Rio Doce e a Delphi Automotive, me formei no MIT, fundei minha startup e posso me orgulhar de já ter impactado a vida de muita gente por aí. Mas como tudo na vida, isso teve um preço. 
Minha jornada maluca começou a mais ou menos 6 anos, ainda no ensino médio decidi que queria ser engenheiro, fui para o técnico no CEFET, me formei com direito a uma das melhores notas da instituição, já engatilhei minha faculdade aos 16, Engenharia Bioenergética a engenharia do futuro eles diziam.  Segui firme, era um aluno dedicado, notas altas, trabalhos, estágio remunerado no 1 semestre que consegui sem precisar pedir indicação, era o mais novo da minha classe, provavelmente o menos afortunado também, não que eu fosse ou seja pobre, tenho uma familia de classe média, nunca tive uma vida de luxo, mas meus pais deram e dão duro para garantir que nunca falte pelo menos comida, um teto e educação para mim e meus irmãos e serei eternamente grato por isso. Mas estudando em na Universidade FUMEC em um bairro nobre em Belo Horizonte, meus colegas de classe custavam para entender que eu precisava viajar 1 hora e meia todos os dias para sair da minha casa para a faculdade, e mais outra hora para voltar ao final das aulas.
Meu esforço se pagou, consegui estágio com bolsa, departamento de logística, falando inglês que aprendi com video games e séries, lidando com grandes empresas, projetos milionários, sentia que estava fazendo o que queria, até perceber que aquilo não era pra mim, trabalhar em uma empresa gigante, com uma estrutura quase impossível de ser mudada, não era esse meu sonho, comecei a produzir menos, a me decepcionar, precisava mudar, larguei aquilo e fui descobrir o que eram as tais empresas juniores que alguns amigos falavam.
Descobri o fabuloso mundo do empreendedorismo, assim como a maioria dos empreendedores iniciantes, fui encantado pelas histórias de sucesso do dia para a noite (que ninguém conta que levaram 10 anos até chegarem nesse ponto), resolvi ajudar a fundar uma empresa júnior, mas eu não entendia nada de negócio, fui atrás, aprendi, meus pais me ensinaram que quando se quer algo, você luta e faz, e assim fiz, encontrei as pessoas certas para me ajudar, uma missão a ser cumprida, tudo conforme manda o livro e a empresa júnior da faculdade foi criada.
E mais uma vez as coisas não foram como eu esperava. Descobri que aquele mundo colorido do empreendedorismo só durava até a página dois; depois disso você precisa colocar as mãos na massa, a primeira coisa que descobri é que a faculdade diferente do que todo mundo me falava, não me preparava para o mundo, não me preparava para o mercado de trabalho e muito menos para criar a minha empresa. Faculdade te da um diploma, é por isso que você precisa do estágio, não é para colocar em prática o que estudou, mas para finalmente aprender algo prático. 
Alguns amigos e profissionais com os quais já havia trabalhado tinham me contado isso, de certa forma eu já sabia que era assim, mas ver em primeira mão, foi frustrante, desanimador, estava preso dentro de um sistema onde minha criatividade seria ceifada, onde as pessoas eram preparadas não para se tornarem lideres, mas sim para ocuparem um papel pré designado. Meus avós falando para prestar concurso, meus pais querendo que eu voltasse para algum emprego, e eu pensando que queria mudar tudo.
Que fique claro, não tenho nada contra quem quer prestar concurso ou trabalhar para outra pessoa, meu problema é com o fato de que após 5 anos de faculdade, você não está minimamente preparado para escolher um caminho diferente. 
Resolvi então ver o que estava acontecendo no mundo mais a fundo, afinal, quase todos os livros que li sobre empreendedorismo eram em inglês, da onde eles saíram? Quem escreveu? Foi quando comecei meu relacionamento com o MIT, em algum momento entre 2013 e 2014, 3 anos atrás, conheci a plataforma de ensino online que eles criaram, a edx.org. E dentro dela um curso de empreendedorismo, na minha cabeça aquela era a chance de ouro, aprender como uma das melhores universidades do mundo ensinava empreendedorismo, de graça e online, pulei com tudo.
Comecei a aprender cada vez mais, e quanto mais aprendia mais sentia que o Brasil estava ficando pra trás do mundo nesse sentido. Temos pessoas ótimas, empreendedores incríveis, mas quando você entra para a faculdade aqui no Brasil, as chances são de que você perca seu espirito empreendedor, sua criatividade e qualquer vontade de ser diferente. Aliás, ser diferente, querer ser o melhor naquilo que você ama, tem se tornado quase um crime por aqui.
No meio desses pensamentos, resolvi que iria fazer algo, se não consigo mudar a universidade ou sistema de ensino, vou criar uma alternativa, aproveitei que estava em uma empresa júnior e fui para o famoso “Benchmarking”, afinal, se tem algo no qual universitário é bom é em conversar e conhecer novas pessoas. Meu objetivo era simples, encontrar outras pessoas que compartilhassem do mesmo propósito, criar um ambiente propicio ao empreendedorismo e inovação dentro das universidades. Fui encontrar minha sócia Carol em São Carlos, dentro da UFSCar. Fundamos a Montain WOLVES (sim, Montain, sem o U, mas o motivo eu conto em outra oportunidade), nossa missão era conectar empreendedores universitários brasileiros, com mentores de todo mundo. Afinal, se a universidade não te ensinava ou dava apoio, a gente ia encontrar quem dava.
Em 3 meses, conseguimos 38 universitários interessados e 8 mentores, inclusive 2 deles do MIT, gente do mundo todo se dispôs a ajudar 2 empreendedores malucos no Brasil, que nunca haviam encontrado pessoalmente, e foi aí que as coisas ficaram realmente malucas. 
Lembra aquele curso online de empreendedorismo do MIT? Ele deu origem a um programa nos Estados Unidos, presencial, onde empreendedores ao redor do mundo eram selecionados para ir até lá, aprender como criar startups de alto impacto, me inscrevi sem pensar, e sendo honesto, sem muitas expectativas de passar, mas passei e fui selecionado para o MITx Global Entrepreneurship Bootcamp
O negócio é que como diz o ditado, felicidade de pobre dura pouco. Afinal, tinha um custo isso tudo, 6 mil dólares de tuition, fora as passagens, estádia, vistos, tudo, e o prazo de dois meses entre receber o convite e ter que estar nos Estados Unidos, mas desistir não era uma opção. Comecei a única opção que tinha, um crowdfunding para financiar minha viagem, e se você acha que fazer uma campanha de crowdfunding dar certo, pense novamente. 
Entenda, a maioria das campanhas de financiamento coletivo, são para produtos e funcionam de forma simples, você doa agora, caso a campanha dê certo, você consegue o produto por um preço menor do que pagaria depois, caso dê errado você recebe o dinheiro de volta. Mas eu não tinha produto, estava indo estudar, não foi fácil convencer as pessoas a doarem para receber uma camiseta e um ebook, cheguei a chorar na época, me sentir impotente, mas minha sócia e meus pais me deram uns tapas e me fizeram continuar. Foi quando as coisas também começaram a dar certo. O Felipe Moreno, editor chefe aqui do StartSe para quem mandei minha história, e que depois se tornou um grande amigo, resolveu apostar em mim, escreveu uma matéria para o portal no qual trabalha e foi um bum, a campanha começou a dar certo, doações entrando, algumas outras matérias foram publicadas, conheci mais pessoas que se interessaram pelo mesmo objetivo que eu tinha e me apoiaram, conheci o Reni que me deu as passagens e virou um mentor, o Seu Volnei e Dona Edna que me hospedaram, conheci muita gente interessante nessa jornada, mas nenhum neto bastardo do meu bisavô.
O importante é que fui para o MIT, alguns dos dias mais insanos da minha vida, começando as 7 da manhã, indo dormir as 4, trabalhando com gente do mundo todo, ouvia uns 10 ou 12 idiomas ao mesmo tempo em alguns momentos. Como eles diziam, era a experiência de viver os três primeiros anos de uma startup em poucos dias, algo que muda completamente a sua visão de mundo e negócios. Aprendi sobre a realidade de vários países, confirmei muitas coisas que já suspeitava e fiquei com aquela sensação de que as coisas poderiam ser melhoradas, mesmo aqui no Brasil, um dos lugares mais contrastantes do mundo, onde temos um povo super empreendedor e resiliente, ao mesmo tempo que temos um ambiente que devora todos os sonhos. 
Sai do Bootcamp como aluno aos 20, um diploma do MIT, e a vontade de fazer a diferença no Brasil, mas vamos ser sinceros, quem é que dá ouvidos a um garoto de classe média, que nem se quer terminou a graduação de engenharia aqui no Brasil? Provavelmente, o número real de pessoas dentro das universidades ou do sistema de ensino que ao menos pararam para me ouvir, foi ainda menor do que você imagina. A Montain WOLVES não era o bastante, conectar universitários a mentores era ótimo, mas aquilo era pequeno, não escalava, precisava de muito esforço humano, com poderia mudar isso?
Comecei então o Empreenda Junto, uma plataforma para permitir que empreendedores compartilhem suas ideias de negócios, e outras pessoas possam colaborar. A colaboração era um dos pilares do MIT e dos ecossistemas empreendedores no mundo, algo ainda em falta no Brasil e que eu queria mudar, passei a ajudar quase todo mundo que aparecia no site, conversava com mais ou menos umas 30 pessoas por dia, por meio de um chat, respondia ideias, dava feedback, ia atrás de quem pudesse ajudar mais. Mas aquilo ainda não era o que eu queria, eu estava ajudando algumas pessoas? Sim, mas novamente, não era um impacto real, era pequeno, e por mais que tudo deva começar pequeno, eu não enxergava como fazer crescer. Iniciei um blog, podcast, videos, tudo o que podia imaginar, produzindo conteúdo de graça, queimando cada reserva de dinheiro que um adolescente de 20 anos poderia ter para ir atrás de um sonho de fazer a diferença.
As coisas começaram a crescer, comecei a sentir que estava impactando mais pessoas, mudando um pouco o sistema, e foi quando a minha oportunidade de ouro apareceu. Se em 2015 eu participei do programa do MIT para formar empreendedores, em 2016, me tornei o primeiro brasileiro (e a pessoa mais jovem até o momento) a se tornar professor em empreendedorismo pelo MIT, ao participar do MITx Global Entrepreneurship Teachers Bootcamp. 
Apresentando uma proposta de curso de empreendedorismo para o Brasil, no MIT.

Apresentando uma proposta de curso de empreendedorismo para o Brasil, no MIT.

Sim, eu queria e quero mudar o sistema de ensino. Se assim como eu você acredita que universidades no Brasil só servem para entregar um pedaço de papel conhecido como diploma, você está certo. Mas não se engane, é assim em qualquer lugar do mundo!
Pelo menos foi o que ouvi de um dos meus professores dentro do MIT, a universidade número um do mundo quando falamos de inovação e tecnologia. Sim, uma das maiores universidades do mundo, sofre do mesmo mal que as universidades brasileiras, ou alemãs ou de qualquer lugar. O grande problema é que essas instituições se baseiam em um modelo onde elas possuem o monopólio da possibilidade de se emitir um diploma, e nossa sociedade valoriza o diploma mais do que o conhecimento.
Porém, aquele programa no qual eu estava era diferente, era um programa altamente seletivo, mas isso tinha um motivo. O MIT quer mudar a educação, ele está abrindo mão do modelo atual de ensino, para um modelo onde passa a exercer um papel de centro de conexão, um grande ponto comum da onde surgem comunidades de pessoas dispostas a mudar as coisas ao redor do mundo.
O grande problema por trás do modelo atual das universidades, é que a sua segurança de que somente elas podem dar os famosos diplomas, permite que sejam construídas estruturas rígidas para esse processo. Pense comigo em todas as inovações que já foram propostas para salas de aulas nos ultimo anos: internet, computadores, retroprojetores, até mesmo óculos 3D, e mesmo assim, se você quiser formar 50 alunos a mais por ano, você precisa de mais uma sala física, você ainda precisa frequentar seu curso por 4 ou 5 anos para conseguir um diploma de nível superior. Todos os anos ouvimos falar dessa nova tecnologia que vai mudar a educação, transformar o ensino, e coisas parecidas, porém isso nunca acontece de verdade.
No Teachers Bootcamp tive a chance de perceber que isso está começando a mudar. Mais uma vez, conheci pessoas de todo o mundo, porém diferente de quando eu estava na turma de estudantes, agora o papo era outro. Estávamos discutindo como muda a educação, tive a chance de debater com Eric Von Hippel, um dos maiores nomes do mundo quando falamos de inovação aberta, sobre como poderíamos trazer esse conceito para a sala de aula, ou ainda, será que as salas de aula são o modelo ideal? Como podemos mudar isso?
Diferente de tudo que eu havia visto até então, o foco ali não era mais a tecnologia. A internet, computador, smartphones, isso tudo era visto como o que é, um conjunto de ferramentas, o centro da discussão era como impactar as pessoas. Isso foi o que eu percebi que o MIT estava e está fazendo diferente do resto do mundo. Enquanto todos estão pensando em novas tecnologias que vão revolucionar o mundo da educação, ali o foco eram como empoderar as pessoas para que elas possam revolucionar a educação onde elas moram. 
Vinte pessoas com potencial e vontade de fazer a diferença ao redor do mundo, reunidas e discutindo como mudar a educação empreendedora. Desde como implementar isso dentro de grandes empresas em Londres, ensinar para jovens na China ou mesmo para universitários no Brasil. Ali, todos éramos iguais, discutindo, dando ideias, fazendo perguntas e propondo soluções, para criarmos um mundo onde mais pessoas possam ter acesso ao conhecimento. Como mudar as instituições de ensino para que elas se adequem a um mundo onde as pessoas finalmente estão valorizando mais o conhecimento do que o diploma.
E eu ali, aos meus tenros 21, com a conta bancária zerada, um sonho grande na cabeça e muita dedicação, discutindo em pé de igualdade com algumas das pessoas com maior capacidade de gerar impacto social e educacional no mundo. Tive a chance de ajudar a desenhar algumas ações que vão mudar a realidade de estudantes na Africa, Asia e Oceania, aprendi mais sobre como eu poderia mudar as coisas no Brasil, e o mais importante passei a fazer parte de uma comunidade que está desenhando e colocando em prática o futuro da educação empreendedora pelo mundo.
Uma revolução está vindo, a tempestade já se formou, e o Brasil está no meio disso tudo, temos brasileiros trabalhando duro, para impactar o mundo da educação, levantando questões e dando respostas. Dessa vez, não vamos simplesmente absorver o que o mundo está fazendo, e sermos espectadores na mudança, mas sim, atores no grupo principal do que está por vir! 
E eu? Bem, eu hoje posso dizer, aos 21, ajudei e estou ajudando, mesmo que só um pouco, a mudar e desenhar o futuro da educação. Agora é hora de encarar o próximo desafio.