Ele escreveu um dos melhores livros sobre startups e é referência no Vale

Da Redação

Por Da Redação

5 de setembro de 2016 às 15:25 - Atualizado há 4 anos

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Algo, claramente, está acontecendo no mundo. Ninguém duvida que a tecnologia está mudando, de maneira significativa, a vida de milhares e milhares de pessoas.

E boa parte desta inovação vem do mesmo lugar do mundo: Vale do Silício, uma região da Califórnia que abraça São Francisco, a Universidade de Stanford e as cidades ao redor, que sediam algumas das maiores companhias do mundo, como Mountain View (Google), Cupertino (Apple) e Menlo Park (Facebook).

Por lá há mais de dois anos, Maurício Benvenutti é uma referência brasileira no Vale do Silício. Responsável pelo escritório do StartSe em Sâo Francisco, ele acaba de lançar o livro “Incansáveis”, livro que estará nas livrarias no final de setembro, mas que já pode ser obtido no site da Saraiva (clique aqui).

Eu tive acesso ao livro antes e posso dizer: é uma das leituras mais interessantes que eu já tive a respeito de startups em toda a literatura sobre o assunto. Ele capta com maestria toda a energia e mudança que o planeta está passando.

Maurício usa o seu tempo no Vale para aprender cada vez mais como inovar e mudar o mundo positivamente, conversando com várias das pessoas que estão transformando a sua vida. “Tenho um objetivo pessoal de conhecer uma pessoa nova por dia, seja ela quem for. E é surpreendente como uma simples conversa com alguém que pensa diferente faz a sua imaginação trabalhar mais forte”, conta.

E com essa experiência no exterior, Maurício sabe que muito ainda se pode fazer no Brasil – cujo mercado de startups engatinha mostrando grande potencial. “Eu sou um otimista em relação ao Brasil, principalmente porque há muita coisa para ser feita”, afirma.

Para esse desenvolvimento, é importante que investidores e grandes empresas apoiem o desenvolvimento dos talentos nacionais. Os investidores tem a ganhar, pois este tipo de investimento pode ser muito lucrativo.

E grandes empresas necessitam de fazer grandes programas de corporate venturing para se manterem relevantes em um mundo de transições. “Para se manter na vanguarda, principalmente em períodos de crise, o que muitas grandes corporações fazem é se aproximar dos lugares onde a inovação acontece. É cada vez mais comum ver empresas fazendo parcerias com aceleradoras, incubadoras, espaços de coworking e startups”, destaca.

Bati um papo com ele, confira:

StartSe: Maurício, qual é a sua trajetória profissional? Como veio parar neste mundo de startups?

Maurício Benvenutti: Trabalhava como parceiro da IBM. Seguia uma bela carreira executiva. Um dia, porém, o fundador de um desconhecido escritório de investimentos de Porto Alegre me convidou para se juntar a ele. A proposta era trabalhar duas vezes mais e ganhar quatro vezes menos. Minha família foi contra. Eu fui a favor. Pedi demissão do emprego estável para ser sócio de algo que pouca gente conhecia. Transformamos aquela pequena empresa na maior corretora do Brasil e uma das maiores instituições financeiras da América Latina avaliada hoje em mais de R$ 3 bilhões. Lá, criamos e expandimos a rede de escritórios parceiros de 20 para 500 unidades em todo Brasil e desenvolvemos a EXPERT, o maior evento para profissionais de investimentos do país, além de vários outros projetos.

Depois, me juntei ao StartSe, formamos um time sensacional e desenvolvemos a maior plataforma de conexão para empreendedores, investidores e mentores do país. Hoje moro no Vale do Silício, mergulhado no universo empreendedor, criativo e futurista da região mais inovadora do mundo.

ST: E o livro “Incansáveis”? Fale um pouco mais dele! 

MB: Vivemos em uma época onde tudo fica obsoleto mais rápido. Não só produtos ou serviços desaparecem substituídos por outros, mas indústrias inteiras são devoradas por formas mais eficientes de trabalho.

Setores tradicionais da economia, que funcionam da mesma forma há anos, enfrentam a concorrência de soluções criadas por empreendedores de garagem dispostos a romper com o sedentarismo de certas indústrias por meio de soluções melhores e mais eficientes. No epicentro disso tudo está o Vale do Silício, a região mais inovadora do mundo, de onde nascem a maioria dos negócios que transformam o planeta em um lugar diferente.

Jovens empresas, criadas como startups, ignoram formalidades, atacam o coração das ineficiências sociais e impactam a vida de todos. Quem não acompanhar, ficará para trás. Quem não entender para onde o futuro caminha, ficará obsoleto. INCANSÁVEIS aborda isso. O livro mostra como novos ou já estabelecidos negócios devem ser conduzidos dentro dessa realidade sem precedentes, desafiando o leitor a pensar diferente e confrontar teorias que hoje se tornaram insuficientes.

ST: Como se inspirar para conseguir produzir negócios inovadores? O que você faz?

MB: Inspiração não se desenvolve sozinho trancado em uma sala. Ela surge das descobertas, das novas experiências, do confronto constante de opiniões. Se você conviver sempre com as mesmas pessoas, terá sempre as mesmas ideias. Ouvirá sempre as mesmas opiniões. Mas as pessoas não são ilhas! A mágica acontece quando você sai do seu aquário! Quando você passa a conviver com diferentes tribos. Com gente que pensa diferente, se veste diferente, vive diferente. Aí a inspiração surge!

Quando Steve Jobs assumiu a construção dos estúdios Pixar, no Vale do Silício, ele pediu que fosse construído uma só área de banheiros em todo o campus. Algumas pessoas tinham que caminhar até 20 minutos para chegar lá! Mas ele dizia que filme é arte. E arte é inspiração. E como todos precisam ir ao banheiro pelo menos uma vez por dia, esse era o momento para cada funcionário sair do seu aquário, conversar com pessoas de outros setores e pegar insights novos. Busco inspiração assim. Tenho um objetivo pessoal de conhecer uma pessoa nova por dia, seja ela quem for. E é surpreendente como uma simples conversa com alguém que pensa diferente faz a sua imaginação trabalhar mais forte.

ST: Na sua opinião, o que é necessário para desenvolver a criatividade e o empreendedorismo?

MB: A criatividade surge na cabeça dos que não reclamam. O empreendedorismo está na veia dos que enxergam oportunidades ao invés de ameaças. Não adianta ser a pessoas mais privilegiada do mundo se o seu pensamento é pessimista. É preciso rebeldia, no bom sentido, para criar projetos criativos e impactantes. Há 100 anos atrás, a maior parte da população brasileira era rural. Vivia no campo. Mas a invenção do trator e de outras máquinas fez milhares de fazendeiros serem expulsos das suas terras. Se você perguntasse para uma dessas pessoas o que elas achavam disso, possivelmente muitos diriam: “Isso é uma tempestade, é o fim, o mundo acabou”!

A tecnologia tinha tirado desses trabalhadores a única coisa que eles sabiam fazer na vida e não havia clareza em relação ao que aconteceria. Mas quando essas pessoas desembarcaram nas cidades, eles aprenderam novas habilidades, inventaram produtos e serviços, construíram indústrias inteiras, empregos que não existiam passaram a existir, remodelando completamente o mercado de trabalho e oportunidades.

Hoje, quando vemos a tecnologia desafiando tradicionais modelos de negócios, a primeira reação de muita gente é o desespero: “O mundo acabou, estou perdido, vou reclamar”! Esse tipo de atitude não leva ninguém a lugar algum. Não há espaço para a criatividade dentro de uma cabeça dessas. É preciso aceitar que o mundo atual é diferente, se preparar para as mudanças e enxergar as novas oportunidades que surgem. Quem tiver esse comportamento é quem criará a próxima grande geração de negócios e indústrias.

ST: E de que que forma inovar e se destacar em períodos difíceis?

MB: A inovação não acontece mais nas áreas de P&D das empresas. Ela acontece em todo lugar. Em qualquer parte do mundo. Nas últimas décadas, a maioria das áreas de P&D se limitaram a fornecer inovações que protegem e prolongam a vida de produtos e serviços já estabelecidos. Elas não inventam algo completamente novo. Elas focam em tornar o que já existe melhor. Veja o setor automotivo, por exemplo. GM, Ford e outras montadoras inovam os seus produtos. Seus veículos têm alta tecnologia e são melhores ano após ano.

Mas precisou vir a Tesla para mostrar ao mercado que é possível vender carros sem concessionárias. Que a engenharia pode ser 100% aberta, ou seja, qualquer pessoa pode baixar o projeto e fabricar um Tesla no quintal de casa. Além disso, a fábrica só começa a produzir um carro depois que o cliente compra, ao contrário do modelo tradicional de produzir primeiro para depois colocar na vitrine e tentar vender. Ou seja, existe um mundo de inovações desafiando as tradicionais indústrias. E seu ritmo é cada vez mais rápido e intenso.

Assim, para se manter na vanguarda, principalmente em períodos de crise, o que muitas grandes corporações fazem é se aproximar dos lugares onde a inovação acontece. É cada vez mais comum ver empresas fazendo parcerias com aceleradoras, incubadoras, espaços de coworking e startups. Dessa forma, elas se mantêm perto do ecossistema empreendedor que está transformando o mundo e não precisam investir milhões tentando inovar dentro da própria casa.

ST: O que mudou nos dias de hoje?

MB: Com tantas opções de produtos similares a preços cada vez menores, o nível de exigência do brasileiro aumentou. Empresas medianas serão gradativamente esquecidas. E o que deu certo nos últimos 100 anos provavelmente não funcionará nos próximos 10. A forma de projetar, fabricar e vender está mudando radicalmente. Hoje, impressoras 3D permitem prototipar e fabricar qualquer coisa rapidamente. Até casas já são construídas com elas.

Escritórios de advocacia nos EUA estão contratando robôs para resolver em segundos os casos jurídicos mais básicos, justamente aqueles que os advogados iniciantes pegam e demoram dias para entregar uma solução. Amazon fez o número de livrarias nos EUA cair pela metade em 10 anos. Netflix acabou com a gigante Blockbuster. Além de uma diversidade de outros exemplos. O Uber foi só a ponta do iceberg. Qualquer empresa do mundo, por mais “intocável” que seja, precisa estar próxima desses avanços que surgem.

ST: Qual a sua visão do mercado de startups no Brasil?

MB: O empreendedorismo é hoje um fenômeno global. Qualquer pessoa que deseja criar uma startup possui todas as ferramentas e recursos necessários à sua disposição. E todas as condições de mercado para transformar essa startup em um negócio altamente rentável. O Brasil tem um mercado fantástico para as startups. São Paulo é o 12° maior ecossistema de empreendedorismo do mundo.

E o país tem excelentes casos de sucesso. O comparador de preços Buscapé foi uma das primeiras grandes startups do país, vendida por US$ 342 milhões em 2009. A Samba Tech, pioneira no mercado de distribuição de vídeos online, é considerada uma das startups mais inovadoras da América Latina. Easy Taxi é um sucesso em mais de 30 países. ContaAzul, sediada em Joinville e que possui um sistema de gestão para pequenas e médias empresas, foi destaque na revista Forbes. Nubank, que oferece serviços financeiros e cartões de crédito sem anuidade, foi a primeira empresa brasileira a receber aporte da Sequoia Capital, um dos mais conceituados fundos de investimento do Vale do Silício. Eu sou um otimista em relação ao Brasil, principalmente porque há muita coisa para ser feita.

ST: Tendo em vista o cenário político e econômico atual do Brasil, que momento o país vive?

MB: Quanto mais claro é o cenário, mais cara será a oportunidade de investimento. Muita gente que perdeu seus empregos nos últimos meses se juntou a amigos e criou novos negócios. Há talentos na rua, altamente qualificados, dispostos a usar o desemprego como oportunidade para criar algo realmente transformador. A constante redução da empresa de smartphones BlackBerry, por exemplo, despejou pelas ruas de Toronto centenas de talentos sem emprego. Eles se uniram, começaram a montar empresas e transformaram a cidade em um seleiro mundial de startups. Dessa forma, há muita oportunidade boa e barata no Brasil. Mas há também muita coisa ruim. O exercício é deixar de lado análises subjetivas e olhar os detalhes de cada opção existente.

ST: Falando de investimento, quais aspectos devem ser analisados ao buscar uma startup para investir?

MB: Existem vários fatores, mas vou pontuar 5 que considero vitais:

1) É importante analisar a característica da empresa. Gosto de negócios que tenham escalabilidade (capacidade de expandir rapidamente), repetitividade (quando uma mesma pessoa pode consumir o mesmo produto várias vezes) e impacto social (algo que verdadeiramente muda a vida de alguém).

2) Depois, analiso em que mercado esse negócio está inserido. A maioria das pessoas só olha para o tamanho e esquece a taxa de crescimento do segmento em que atua. É melhor investir em algo inserido em mercados pequenos e crescentes do que grandes e estagnados.

3) Como esse negócio gera receita? Como os sócios ganham dinheiro? Conhecer o modelo de monetização é essencial para quem busca investir em um novo negócio.

4) Quem compõe o time? Em geral, os novos negócios mudam muito entre o seu protótipo e a versão final que será lançada. Muita coisa acontece no meio do caminho. E você precisa ter certeza que a equipe é capaz de desenvolver as mudanças que serão necessárias.

5) Por que agora é o momento certo para esse novo negócio? Por que 2 anos antes era muito cedo e daqui 2 anos será muito tarde? Bem, para quem busca um novo investimento em novas empresas, ter atenção a esses detalhes ajuda.

ST: Quais características os gestores precisam desenvolver para impulsionar suas empresas? 

MB: Hoje, pessoas talentosas não querem um simples trabalho. Elas conhecem o seu potencial e não vão desperdiçar o seu tempo em qualquer lugar. Quem é talentoso quer embarcar em um foguete e ir para a Lua! Esse é o pacote de benefícios que atrai os seres mais brilhantes do planeta. No Vale do Silício, os processos seletivos são completamente invertidos, pois são as empresas quem se oferecem aos potenciais candidatos, e não os candidatos que tentam se “vender” para as empresas! Os gestores precisam entender isso.

A geração nascida por volta de 2000, e que hoje começa a entrar no mercado de trabalho, tem ideais e aspirações únicas! Não é plano de saúde, vale transporte e refeição que as inspira. É a causa! Gente boa quer construir um legado, deixar uma marca. Enquanto pessoas brilhantes constroem negócios brilhantes, pessoas medíocres constroem negócios medíocres! Por isso, todo gestor quer ter gente talentosa trabalhando com ele. Mas não dá para impulsionar isso usando técnicas rasas e medianas. Ou você apresenta o foguete e mostra o bilhete de embarque para a Lua, ou o talento vai procurar outro lugar para investir o seu tempo e conhecimento.