Bolsa família universal, uma ideia que é melhor do que parece

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Por Isabella Câmara

5 de janeiro de 2017 às 09:10 - Atualizado há 4 anos

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Há um bom tempo atrás um senhor já de certa idade defendia a ideia de que deveria haver um mecanismo que garantisse uma renda mínima para cada indivíduo, independente do que ele fizesse, seu nome? Milton Friedman.

Gosto de pensar que sou uma pessoa bem informada e razoável. Costumo acompanhar notícias sobre tecnologia, inovação e economia. Também me considero alinhado ao pensamento libertário quando falamos sobre organizações sociais, e por isso, sei que esse texto vai fazer com que algumas pessoas queiram caçar minha carteirinha.

Diferente do que muitas pessoas pensam, a ideia de uma Renda Minima Universal (universal basic income ou UBI em inglês) não é nova. Surgiu a bastante tempo ainda durante o Iluminismo e vem ganhando força, tendo defensores inclusive entre os liberais, e cada vez mais, entre os empreendedores.

A proposta é simples: todo mundo recebe um valor mínimo, para ter uma certa segurança e qualidade de vida assegurados.

A UBI, deveria substituir os outros programas de wellfare, você dá o dinheiro e a pessoa usa como acha melhor. Porém, como tudo na vida, a ideia pode até ser simples, mas a execução dificilmente será.

A proposta de uma UBI enfrenta resistência de quase todos os lados da sociedade, independente do espectro politico ou econômico, você sempre vai achar pessoas que são contra por um motivo ou outro, alguns deles bons e outros ruins.

Nesse texto, quero abordar um pouco dos motivos pelos quais a UBI não só pode ser viabilizada, como também será necessária dentro de um espaço de tempo relativamente curto, como que alguns dos maiores medos sobre sua implantação não passam de desinformação, bem como ela pode ser viabilizada.

O Mito da fábrica de filhos

Durante muito tempo acreditei que o Bolsa Família que temos aqui no Brasil era algo terrível, não só que não passava de uma arma política para compra de votos institucionalizada, mas que era uma ferramenta para criar pessoas preguiçosas e dependentes, que iriam passar a ter filho atrás de filho, somente para continuar vivendo de uma renda dada pelo governo.

A realidade por outro lado, mostrou que eu estava sendo um idiota. Ainda acho que o bolsa família possui diversas falhas, e uma delas é o fato de poder ser simplesmente cancelado, porém a maioria das minhas criticas, eram cegas, e entender isso é importante para entender esse texto.

A primeira falácia era o fato de que o bolsa família era um gasto sem retorno, somente servia para “dar dinheiro para quem não merecia”, eu enxergava como uma queima idiota, porém a realidade mostra que cada R$1 investidos no Bolsa família, retornam como R$1,78 para o PIB.

O segundo ponto problemático era minha crença de que as famílias, iriam simplesmente passar a ter cada vez mais filhos para receber mais. Primeiramente hoje, vejo que isso seria idiota, já que o valor simplesmente não compensaria, além disso os dados mostram que a queda da taxa de natalidade, é maior entre beneficiários do programa.

Por fim, a terceira grande resistência que eu sempre tive ao programa, foi acreditar que ter uma garantia de renda, iria desestimular as pessoas a procurarem um emprego. Enquanto é sim verdade que isso pode acontecer (e provavelmente acontece), esse comportamento é a exceção não a regra, estudos mostram que a busca por oportunidades de emprego entre os beneficiários está aumentando.

A maioria das críticas feitas ao bolsa família, são ou desinformação, ou ignorância.

Hoje ainda não funciona

Porém é impossível negar que hoje, esses programas ainda não podem ser adotados em larga escala. Sim, programas de bem estar social ajudam milhares, as vezes milhões de pessoas não só no Brasil, mas também no mundo, mas como dizem por aí: não existe almoço grátis.

Alguém está pagando essa conta, e por mais que seja bacana ver os resultados positivos na vida das pessoas que são beneficiadas, não dá para conseguir isso através de grandes impostos no trabalho outros milhões. A conta não fecha nem se desmontarmos todo o resto do Estado.

A grande questão hoje é que a grande maioria do trabalho e consequentemente da riqueza produzida no mundo, é feita por pessoas. Sistemas de transferência de renda, como a UBI, se baseiam majoritariamente em impostos, ou seja, você tira uma pessoa, do seu trabalho, do tempo de vida de cada um. E há um limite de transferência de renda para que não criemos um sistema totalmente injusto que, verdadeiramente, prejudique quem trabalha em detrimento de quem OPTA por não trabalhar.

O fim dos empregos

E é justamente nisso que a sociedade está mudando, graças aos avanços tecnológicos dos últimos anos.

Sim, hoje, impostos são pagos por pessoas, na sua maioria, por trabalhadores, a classe média e pobre da população de qualquer país, sempre será a mais impactada pelas taxações.

Afinal, os mais ricos, enquanto donos dos meios de produção vão simplesmente repassar qualquer taxação para manter o seu padrão de vida, tornando os produtos e serviços mais caros.

Para piorar a situação, o avanço da automação está eliminando empregos em todo o mundo. Da fábrica de iPhones na China, até um operador de um fundo de investimentos, pouquíssimos empregos estão a salvo da automação hoje, e menos ainda a medida que a I.A avança.

Mesmo trabalhos criativos, estão ameaçados de desaparecem com base no avanço da inteligência artificial. Coisas como robôs escritores, ou mesmo compositores já são realidade, até mesmo sua comida pode ser preparada por um deles.

O vídeo abaixo mostra um pouco mais sobre como mesmo trabalhos considerados criativos, também possuem o risco real de serem substituídos por sistemas automatizados.

E por mais que você diga que é possível buscar outros trabalhos, esse outros trabalhos serão restritos a uma parcela mínima e super especializada da população.

A revolução da I.A hoje, é diferente da revolução industrial, não estamos simplesmente substituindo o trabalho braçal por algo mais eficiente, pela primeira vez na história, estamos substituindo o trabalho mental, por algo mais eficiente, e essa mudança, muda tudo.

Possível em breve

Mas nem tudo é tão terrível, na realidade, o fim dos empregos pode finalmente tornar a UBI, algo humano. Se hoje, a maior parte do trabalho e da riqueza, são produzidas por pessoas, o que automaticamente significa que os impostos são pagos por essas mesmas pessoas, em um futuro não muito distante essa realidade vai mudar.

Não vamos mais ter que depender do roubo da riqueza produzida por alguém, para poder financiar programas de bem estar social e a UBI.

Assim, a medida que cada vez mais empregos humanos, são substituídos por sistemas automatizados, mais nos aproximamos de uma realidade onde poderemos usar uma combinação de taxas sobre robôs, créditos de carbono, não mais iremos explorar o trabalho humano de alguns, para beneficiar outros.

Tempos sombrios e experimentos

Entretanto, ainda temos um último desafio no caminho para o desenvolvimento de uma sociedade onde a UBI seja possível sem a exploração de humanos.

Precisamos atingir o ponto de inflexão, onde a produção de riquezas não dependa mais de pessoas, e sim de robôs, isso significa cada vez mais empregos sendo substituídos, e enquanto hoje, a automação também cria novas oportunidades, em breve, essas novas oportunidades serão cada vez mais limitadas e veremos um número crescente de pessoas sem emprego e sem uma renda mínima. Serão tempos sombrios, como a tempestade antes do céu limpo.

Algumas experiência com a UBI estão sendo realizadas, a YCombinator (uma das maiores aceleradoras do mundo) está iniciando uma pesquisa com a UBI, financiada por recursos privados nos EUA.

Nomes como Elon Musk, defendem que a automação irá possibilitar a implantação da renda mínima. E alguns países também estão fazendo testes financiados com impostos.

Em resumo, as pesquisas sobre a viabilidade atual, impactos e requerimentos para a implementação de uma renda mínima global ou UBI, não é mais um sonho socialista ou libertário, mas sim, uma realidade, que está sendo abordada por todos os lados.

Muitos desses testes vão dar errado, alguns podem dar certo, mas em breve teremos uma resposta real sobre o assunto.

Hoje a UBI é em minha visão, algo inviável por vários motivos, e antes de se tornar possível, veremos uma crescente necessidade por ela, sem que ela ainda seja viável (tanto econômica, quanto socialmente), mas caminhamos para um futuro melhor, onde a ideia de uma bolsa família universal, deixará de ser uma ideia e se torne uma realidade, dando mais liberdade para as pessoas fazerem o que realmente querem, e assim, sejam realmente livres.

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