A Internet das coisas está próxima, e o Brasil faz parte dessa revolução

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Por Paula Zogbi

25 de fevereiro de 2016 às 11:48 - Atualizado há 5 anos

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Os relógios são só o início. As coisas conectadas, desde eletrodomésticos até roupas, serão muito em breve uma realidade corriqueira, e não apenas nos países mais desenvolvidos. A discussão em torno da internet das coisas foi tema central da edição de 2016 do Fórum Econômico Mundial, que falou inclusive sobre a extinção de inúmeras vagas de empregos.

Essas tecnologias, de acordo com Ivan Silva, diretor da Software AG, empresa alemã com 40 anos de atuação no mercado de inovação e presente em 70 países, serão capazes de revolucionar a economia em diversos níveis, compondo a quarta revolução industrial.

Ao Podcast Rio Bravo, o executivo afirmou que, apesar da preocupação de analistas sobre uma possível defasagem do país, o Brasil terá suas próprias formas de surfar nesta onda, principalmente aprimorando a logística das empresas nacionais, em um primeiro momento.

Confira a transcrição completa da entrevista.

A internet das coisas ainda é tratada por alguns especialistas como algo relativo apenas ao futuro. Como esse ativo está relacionado ao contexto da indústria especificamente?

Você percebe que, na verdade, não é algo futuro. [A internet das coisas] já está presente em algum momento. Sempre que você conecta máquina com máquina, você já tem a internet das coisas acontecendo. Isso já tem sido feito por grandes marcas como a Nike, que inventou dispositivos que têm a capacidade de ler seu movimento e usar aquilo para perceber seu comportamento e, eventualmente, tirar proveito daquilo, ou para melhorar um produto ou para fazer uma venda futura. Então isso já é verdade.

Eu vejo que, de um tempo de 2 a 3 anos para cá, a indústria de software percebeu que há uma grande oportunidade, não só na indústria, que era muito percebido para marcas como a Nike, passou a ser percebido por provedores de software, e isso está sendo aplicado no mundo corporativo, mas já tem casso reais, hoje, funcionando. Não vejo como algo muito futuro. O que acontece é que, como a tecnologia é muito nova e recente, constantemete se descobre novas formas de utilização. Talvez daí que se tenha a percepção de que é algo futuro. Mas a internet das coisas já está presente na nossa vida.

Em quais ações a internet das coisas pode aprimorar as condições da produção corporativa especificamente? Quais os dispositivos utilizados nessa direção?

Sempre que se fala em produção de alguma coisa, uma linha de manufatura, se tem duas grandes linhas: a parte de manutenção, preditiva, onde você imagina que não se permite mais que uma linha de produção pare. Antes de ela parar, você toma uma ação. Você percebe que um dos equipamentos tem risco de sofrer uma parada, e em um momento oportuno, se programa para que antes que aconteça a parada total e você perca dinheiro, você tome uma ação, concerte aquele equipamento e ele não pare, ou reduz o tempo de parada, diminuindo assim o custo e até a produtividade. Isso aplicado para parte de manufatura, olhando manutenção preditiva.

O que se pode fazer também, que tem muita relação com a indústria e a manufatura em geral, é a parte logística, e aí os ganhos são muito maiores até do que a produção, falando especificamente de Brasil. Imagine que ao invés de comprimir a minha produção e talvez eu, depois de cumprir a produção, tenho que atender a um chamado e levar aquilo ali para um porto através de caminhão, que vai encontrar com um navio, que eventualmente vai para um aeroporto, que vai encontrar com avião. E nem sempre essas coisas estão muito casadas. Eu faço uma etapa da entrega da caminhão, chego no porto e a infraestrutura não está pronta para me suportar. Então perco 2, 3, 4 dias no porto com um grande material parado. Isso significa dinheiro para a indústria.

Quando você aplica a internet das coisas no contexto logístico, você pode por exemplo, garantir que todas essas fases vão ser feitas na sequencia correto e no tempo correto, gastando menos dinheiro e fazendo com que seu produto chegue na ponta de forma mais rápida.

Como a manutenção preditiva pode auxiliar as indústrias dos mais variados setores?

Vou dar exemplos de alguma indústrias. Especificamente no Brasil, isso tem sido muito usado em lugares muito remotos. No Brasil, você tem os grandes eixos, as capitais, mas tem lugares muito remotos onde demora o atendimento. Você imagina um local muito remoto no Norte ou no Nordeste onde ao invés de deixar acabar uma luz e demorar muito tempo para identificar porque não se tem tanta tecnologia para identificar qual foi o problema que ocasionou o rompimento de um fio, que ocasionou a falta de luz em um território muito grande.

O que se tem feito, e que acontece no Brasil, é o uso de drones que vão monitorando esses grandes postos. Drones que fica toda hora passeando entre os postos fotografando e mandando essa quantidade de fotos para um sistema que é baseado em algoritmo que fica processando uma série de fórmulas e percebe quando há uma diferença na imagem. Quando há diferença na imagem, ele parte para um outro processo mais detalhado de comparação. Por que mudou a imagem? É um fio que está rompendo, por exemplo. Você percebe que tem um fio que está rompendo e não rompeu ainda, você vai fazer a manutenção preditiva, por quê? Você vai disparar a ação no carro da concessionária para que vá naquele local e faça a manutenção desse fio, por exemplo, antes que aquilo ocasione uma parada e uma perda. Isso se economiza muito dinheiro para o país e para as indústrias em geral que estão em torno daquela região. E até a impressão que se tem daquela concessionária que está fornecendo a luz naquela região mais remota. Isso é um exemplo clássico de manutenção preditiva que tem sido aplicado no Brasil.

Essa mesma rega que citei de companhias de energia elétrica com drone é aplicada também para outros segmentos na linha de abastecimento. Por isso que sempre falamos que é dinâmico e dá para identificar toda hora uma oportunidade de aplicar a internet das coisas em alguma indústria diferente.

No setor de serviços também é possível isso?

No setor de serviços também. Imagine que, geralmente, a empresa a que presta serviço de manutenção nesses postos é terceirizada, essa empresa também está disposta, junto com a concessionária, para que se identifique de antemão qualquer problema. Quando você identifica de antemão, não precisa de tantas viaturas, tantos carros, tantos funcionários. Você pode movimentar funcionários, nem falo da redução de quadro de funcionários, esse nunca é o objetivo, mas você pode reduzir e até aumentar o nível da capacitação do seu pessoal para fazer essas análises.

Não no campo diretamente, você pode fazer em uma área especifica e você vai no campo com a ferramenta adequada, no momento adequado, onde deu aquele problema. Isso gera também uma economia para a empresa que está prestando o serviço. No geral, as empresas que prestam serviço estão acopladas com empresas de abastecimento, elas também se interessam. Muitas vezes, os projetos são feitos em conjunto. Dando até exemplo de logística, é sempre uma cadeia: você tem a fabricação do produto e a entrega. Muitas vezes você cria parcerias. Você junta dois ou três interessados ali e quem compra esse tipo de projeto de internet das coisas não é uma empresa só. As empresas se tratam com empresas parceiras mesmo.

Existe estimativa de que até 2020 o mercado global do mercado das coisas irá triplicar para algo em torno de 1,7 trilhão de dólares. Como essa cifra pode ser traduzida em termos de produto?

Já existem casos reais, mas imagino que todos os portos de navio, tudo que é infraestrutura marítima, em 2020 vai estar sendo suportado pela internet das coisas. Imagina o volume do que é transacionado através de portos. É muito alto. Se pegar uma país como o Brasil, por exemplo, que tem estradas lotadas de caminhão, tudo isso passará a ser monitorado pelo conceito de internet das coisas, pelo GPS vendo a geolocalização, velocidade, se tem risco de afetar algum material transportado, de seguranças. Tudo vai passar a ser monitorado, o próprio motorista. Acredita-se que não vai ter nada que não vai e star conectado até 2020. Algumas instituições olham esse mercado e acreditam que esse número pode até aumentar, parece um muito alto, mas pode aumentar para 2020.

Tem-se a impressão de que o cenário da internet das coisas é muito dinâmico. Como a Software AG tem se preparado para oferecer um produto mais ativo e tão dinâmico para as empresas?

Sempre que se fala de internet da coisas e sempre que se vai em um cliente e se entende um pouco do desafio do cliente do outro lado, você acaba descobrindo que dá para aplicar a internet das coisas em alguma situação nova.

Tem um caso recente de uma siderúrgica em que estávamos conversando, discutindo a internet das coisas em uma linha de logística e manutenção preditiva e veio uma ideia de se fazer reconhecimento de materiais através da internet das coisas. Imagina se eu utilizar uma câmera para fazer o reconhecimento de um material. O reconhecimento que é feito por pessoas humanas, suscetível a erro, e com volume pesado de dinheiro nesse reconhecimento de material, e acaba acontecendo erros, você transfere para uma máquina esse reconhecimento, através de dispositivos simples e consagrados, como uma câmera que já é usado há bastante tempo. Isso está resolvido e é relativamente barato.

Imagine que através da leitura de uma câmera, você pode aplicar a internet das coisas para reconhecer um material e assim reduzir o esforço humano e a quantidade de erros. Imagina que nós trabalhamos com a internet das coisas todos os dias, mesmo assim você se depara com situações em que você nunca viu um caso semelhante, e em uma conversa você acaba descobrindo possibilidade de aplicar a internet das coisas em situações completamente novas. Daí o dinamismo desse tema de forma geral.

Como esses novos recursos podem vingar no Brasil, um país que não necessariamente está na fronteira de inovação tecnológica? Há um preocupação de alguma entidades em relação à defasagem em que o Brasil vai estar em relação a outras nações, no tocante a essa quarta revolução industrial. Como podemos pensar a atuação do Brasil, ou a situação do Brasil, nesse cenário?

A Software AG é uma empresa alemã, então acabamos conhecendo muito do contexto da Europa. Imagina que o maior mercado nosso e de todas as empresas semelhantes a nossa acaba sendo a América do Norte, Estados Unidos e Canadá, mas muitas coisas é desenvolvido na Europa, o que é nosso caso. Na Europa, a internet das coisas é muito difundida na indústria, porque lá se briga muito por margem, a competitividade é muito alta. É um cenário complemente diferente do Brasil. Você pega a Europa que tem um contexto industrial sensacional, as margem são baixas, cada vez mais baixas por conta da concorrência, e a internet das coisas é muita aplicada ali para se buscar essa pequena diferença de margem que vai dar um ganho substancial para cada indústria naquela região, falando de Europa como um todo. Os EUA são mais focados em venda. Então [o país] cria uma coisa, fabrica na China ou em outra parte do mundo, e você percebe que a internet das coisas está mais aplicada no varejo, isso na região da América do Norte, Estados Unidos e Canadá. Você percebe uma diferença entre Europa e a América do Norte.

Aqui no Brasil, não vou nem estender para a América Latina, o contexto é muito na linha de logística. Quando se fala de logística, é isso que comentei. Imagine os portos, você percebe hoje no Brasil que não é difícil de encontrar navios 2, 3 dias parados, ou você chegar com uma mercadoria no porto e não ter onde armazenar essa mercadoria, ou se ter problemas de manifestação, de estradas, os caminhões não chegam a tempo. Tem lugares muito remotos que é muito difícil o transporte. Então, no Brasil, a internet das coisas é muito aplicada em logística. É aí que as empresas têm investido mais e se acredita que vamos ter mais sucesso aplicando a internet das coisas. É a mesma ideia de internet das coisas, mas com uso completamente diferente. Europa em uma linha de mais fator indústria, a América do Norte em linha mais de venda e experiência do cliente, e aqui no Brasil uma linha mais voltada para a logística.

Qual o impacto da internet da coisas em relação ao capital humano, pesando também no big data? Qual será o perfil dos colaboradores empregados nesse contexto, nesse ambiente de alta sofisticação tecnológica?

Eu imagino que, diferente de outras disciplinas, a internet das coisas requer uma experiência para se trabalhar com esse tipo de ativo. Antigamente, quando você falava de um profissional de TI, você associava com essa infraestrutura, ok. Esse outro perfil conhece desenvolvimento, ok. E tinha uma diferença entre desenvolvimento e infraestrutura. Depois essas coisas começaram a se juntar e você percebe um profissional de TI muito mais dinâmico. Ele consegue jogar bem em todas as áreas, conhece infraestrutura, conhece desenvolvimento, conhece interação com usuário com recursos Web.

Agora, quando você fala de internet das coisas fala muito de integração, que é um tema muito antigo, muito resolvido em muitas da companhias, e fala-se muito na separação completa do que é hardware e do que é software. Imagina que empresas de software, como a Software AG, está ligada a parte de software pura e simplesmente da ideia toda da internet das coisas, e tem outro tipo de empresa trabalhando com hardware. Que hardwares são esses? A tal câmera que comentei, que já está resolvido faz tempo a parte física, esses sensores nessas máquinas que editam a quantidade de quilômetros que um caminhão já rodou, a quantidade de combustível aquele caminhão tem, a posição através de um GPS. Há uma diferença muito clara do que é hardware e do que é software.

O que a gente percebe é que o mercado, que antigamente era muito separado, depois se juntou e todo mundo fala de tudo, está separando de novo. Está ficando muito claro quais os profissionais de software e quais são os de hardware. Uma linha muito mais de especialização. E como a internet das coisas, apesar de ser uma coisa nova, com grande pretensão para o futuro, ele depende de conhecimentos de coisas que já estão aí há muito tempo, que é o caso da integração. Dificilmente você vai conseguir profissionais entrando no mercado atuando com internet das coisas de forma muito rápida. Eu acredito que você dependa da experiência de pessoas que já estão ligadas e já perceberam essa evolução e que vai acompanhando o mercado há algum tempo. Para que você consolide todas essas coisas e aí ofereça a internet das coisas.

Você mencionou esse ponto da atuação da Software AG em outros países, principalmente os países de Europa e os EUA. Quais outras experiências você acredita que podem se replicadas em países como o Brasil, além das que já tem sido estabelecidas?

Acho que, de primeiro momento, essa parte de logística, que é um desafio em que se perde muito dinheiro no Brasil. Acho que a segunda onda de internet das coisas no Brasil vai ser um modelo semelhante ao dos EUA de varejo, experiência com cliente, a venda contextualizada, só te oferecer um produto que sei que você está procurando. Acho que essa é a próxima onda da internet das coisas no Brasil.

Qual tem sido a receptividade de indústria no momento de crise, como o atual, em relação a esse tipo de recursos?

Isso é o mais curioso. Quando falamos de logística, por exemplo, é muito fácil justificar uma economia. Você fala que vai automatizar toda essa operação que você faz de logística ou parte dela. A forma de se posicionar passa a ser diferente. Ao invés de você vender alguma coisa buscando dinheiro novo, imagina que você está buscando uma economia. Não tem nenhuma empresa nesse momento tirando seu gasto. Por exemplo, 1 milhão de reais por ano com logística. Não tem nenhuma empresa disposta a gastar mais de 500 mil reais com logística. Mas se você provar que ela pode gastar 1 milhão de reais, mas que aquilo vai reduzir o risco, vai ser mais rápido, vai aumentar a produtividade, que é uma outra ponta da linha produtiva, as empresas têm ouvido e investido um dinheiro que já existe lá. Não existe dinheiro novo no mercado. Existe uma economia. Você tem que provar que existe a economia para conseguir embarcar um projeto e dar sequência a ele, entregar e fazer acontecer.