Brasileiro que criou primeiro portal de vídeo do mundo, antes do YouTube, teme o Facebook

Antes da falência do Videolog, Edson Mackeenzy considerava uma saída com a venda para o Facebook, e não para o Google

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Por Paula Zogbi

4 de fevereiro de 2016 às 09:44 - Atualizado há 4 anos

“Pode entrar aqui mesmo, isso, pela Radial”. A conversa do StartSe com Edson Mackeenzy, criador do Videolog, foi permeada por instruções desse tipo: o atribulado profissional havia acabado de sair de uma consulta médica e se dirigia ao escritório do iMasters, onde hoje trabalha como diretor de desenvolvimento.

Para quem não sabe – e isso é muita gente – o Videolog foi o primeiro portal de vídeos da internet mundial, lançado em maio de 2004, nove meses antes do YouTube.

Mas apesar da associação imediata, não é o YouTube que dominará este mercado, acredita o empreendedor, mas sim o Facebook. Aliás, para ele, a rede social de Mark Zuckerberg dominará absolutamente tudo.

“O Facebook nos últimos anos vem conscientemente fazendo movimentos sorrateiros e estratégicos em relação a dominação do mercado digital”, afirma Mackeenzy, que prefere ser chamado de Mack.

Para ele, o grande diferencial da rede social é que a comunidade já está lá dentro, e os investimentos, principalmente em vídeo, darão frutos mais significativos. “Antes, o Google tinha a velocidade que a Microsoft não tinha. Agora, o Google está cada vez mais lento, enquanto o Facebook tem essa agilidade – a cada semana é uma coisa nova”, comenta.

A rede social criará uma revolução televisiva, no sentido de que a plataforma se reinventa para dominar também este mercado. “Os posts com vídeo hoje têm mais relevância. E se você reparar, quando assiste a um vídeo no Facebook, se não fechar a janela, ele continua mostrando vídeos relacionados sem parar. O próximo passo é a publicidade”, explica.

O problema, segundo ele, é a dominação. “As comunidades e páginas atraíram as pessoas, investiram milhões. Depois, com as mudanças de algoritmo, você passou a falar com cada vez menos pessoas: hoje você fala com 10% da sua comunidade”, explica.

O início

“Eu e meu sócio trabalhávamos com produção de vídeo e, na época, discutíamos muito os custos das operações. Para entregar os vídeos, era necessário gravar em fita, transportar via motoboy, havia um prejuízo caso houvesse um acidente e aquele material fosse danificado, tudo isso tinha que estar contabilizado”, explica Mack. “O Videolog foi criado para nos ajudar”.

No início, o portal, que acabou durando 11 anos, nem parecia uma “boa ideia”, segundo o próprio. “Mas esses empreendimentos são ótimos. Se você consegue fazer de um jeito simples ou barato, ela pode dar errado, que não vai ser um grande prejuízo; mas se der certo surpreende”, comenta, bem humorado. O Videolog faliu em 2015, quando já não era mais tão ‘barato’, mas certamente surpreendeu.

“Nossa grande sacada foi o botão de play”, conta. “Naquela época, as pessoas ainda não entendiam o conceito de ‘fazer um download’. Então colocamos um botão de play, que qualquer pessoa daquele mercado já conhecia. Quando o material terminava de ser baixado, ele abria automaticamente no Windows Media Player. Era o primeiro portal de vídeo da internet”, rememora o empreendedor.

Concorrente ‘ianque’

Quase um ano depois, o YouTube chegou, e recebeu investimentos expressivos, de US$1 milhão. “Para a gente, com 22 e 23 anos, isso não era um negócio, mas sim uma ferramenta. E na época, 4 anos depois do Bug do Milênio e com o estouro da bolha das pontocom, nenhum investidor em sã consciência queria investir em nada que tivesse a ver com internet”.

Foi aí que o portal brasileiro começou a ser passado para trás na mídia. Apesar de pioneiro, eram poucos que falavam sobre o Videolog depois do lançamento do YouTube. “Uma coisa que eu sempre critiquei é que o brasileiro, tanto o mercado quanto a mídia, nunca teve muita paciência com o produto nacional. E na época, por desinformação, eu não gostava dos Estados Unidos”, conta Mack que, por ter nascido em uma família pobre, via o país como uma realidade extremamente distante.

Os empreendedores passaram, então, a divulgar o portal com grande ênfase no fato de ser brasileiro, com uma base de usuários em território nacional. Uma abordagem interessante para o site, que já tinha foco maior em usuários que produziam vídeos do que naqueles que simplesmente entravam para assistir a eles.

Parcerias

Convivendo com a corrida contra o YouTube, o Videolog começou a estabelecer seu foco e entrar em parcerias estratégicas.

“O que a gente fez em 2008 foi o contrário da movimentação do mercado. Todo mundo estava encolhendo e a gente começou a contratar as pessoas demitidas. Investimos muito, e de fato o mercado virou. Foi nessa época que começamos a entrar no break even, e quando isso acontece a gente começou a ter mais resultado e visibilidade”, relembra Mack, entre uma ou outra instrução para o taxista na ligação que, a essa altura, já havia sofrido algumas interferências de sinal.

“A gente começou independente, depois fechamos parcerias com Oi, UOL e, por último, R7”. Foi quando estavam trabalhando dentro do portal da Rede Record que as atividades começaram a desandar. “Tivemos alguns contratempos relacionados ao contrato e precisamos renegociar, mas não nos preparamos para isso”, lamenta, mas sem perder a compostura.

“Meu sócio acabou entrando em outros projetos e eu comprei a participação dele na empresa. Estava todo mundo prevendo encolhimento e se fechando. Eu fiz a aposta de ampliar a minha participação e contratar pessoas”. A diferença é que desta vez a crise não chegou ao Brasil como uma “marolinha”: investindo na empresa com recursos próprios, Mack teve que lidar com mensalidades de US$ 45 mil para manter a hospedagem do site, mas com o dólar chegando a R$ 4…

Nascimento da filha, decisão e legado

Foi nesse momento que a namorada de Mack engravidou de Sofia. “Tive que tomar uma decisão, não quis continuar trabalhando todos os dias, incluindo finais de semana e feriados, das 8h às 21h. Preferi ser um exemplo para a Sofia do que para as milhares de pessoas que usavam o Videolog”, explica ele, que escolheu o nome da criança não por ser “da moda”, mas pelo significado em grego: “sabedoria”.

Mack não se arrepende da decisão de acabar com o site. “Já passei da fase do luto. Talvez eu empreenda mais no futuro, mas hoje estou muito satisfeito com meu trabalho no iMasters”, conta. “Agora que os anéis caíram e os dedos ficaram, a única coisa que ninguém tira de mim é a minha dignidade”, profere Mack, que afirma acreditar que as relações interpessoais jamais podem ser deixadas de lado enquanto entra no elevador para mais um dia de trabalho.