Por que ainda temos poucas mulheres na tecnologia?

Nesta segunda reportagem da série “Mulheres da Tecnologia, sim elas fazem a diferença” , falamos com várias profissionais que quebram paradigmas em uma área dominada quase que exclusivamente por homens

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Como diz a CEO do Mastertech, Camila Achutti, “programe ou seja programado". Em tempos da era digital, não há mais como fugir. A tecnologia é o novo inglês. No entanto, mesmo sabendo disso, vemos poucas meninas se interessarem por este caminho. Nesta segunda reportagem da série “Mulheres da Tecnologia, sim elas fazem a diferença” (veja primeira matéria aqui), buscamos dados atualizados sobre o cenário da diversidade no mercado de TI e falamos com várias profissionais que quebram paradigmas em uma área dominada quase que exclusivamente por homens.

Talita Pagani, 30 anos, é designer de interação, desenvolvedora front-end e atua há 12 anos no mercado de TI. Ela aponta uma questão importante e negligenciada por todos nós: os estímulos da primeira infância. Em casa, ainda é comum as meninas não receberem estímulo para atividades que envolvam lógica, raciocínio, engenharia, matemática e ciência. “Quando a criança não recebe estímulos de que ela pode construir, programar ou fazer ciência, ela nem vislumbra a possibilidade de optar por uma área de exatas, isso nem passa pela cabeça dela na maioria dessas situações”, lamenta.

Nas escolas, também percebemos essa mesma falta de estímulo e de reconhecimento de habilidades lógico-matemáticas nas meninas, o que no futuro pode fazer total diferença na escolha da carreira. “Às vezes você pode ter uma mulher com uma habilidade incrível em lógica, mas talvez ela nunca desperte isso se não tiver um incentivo durante a vida”, explica. Para Talita, o maior problema para atingir a igualdade de gênero começa primeiro em casa e o mercado só reflete o que as pessoas foram ensinadas que era “coisa de menino” e “coisa de menina”.

No último mês a CA Technologies realizou um evento no Google Campus para discutir a desigualdade de gênero no mercado de TI. É o exemplo de que algumas empresas querem mudar este cenário de alguma maneira. O debate “Women in Tech – Should I Stay or Should I Go?” trouxe grandes executivas como Alessandra Bomura, CIO da Telefônica Vivo, Andrea Cabeça, Superintendente de Qualidade e Testes do Itaú Unibanco, Ana Paula Milani, Gerente de Qualidade de Software da Cielo, e Aruna Ravichandran, VP de DevOps da CA Technologies.

“Na maioria das vezes as mulheres não optam por um diploma técnico porque não conhecem as áreas, não sabem as possibilidades. Portanto, é importante criar essa consciência entre as meninas e convencê-las de que não é um caminho tão duro como imaginam. E se um cara pode fazer, uma garota definitivamente também pode”, defendeu Aruna Ravichandran, nomeada pelo San Jose Business Journal uma das 100 Mulheres mais Influentes no Vale do Silício e uma das Mulheres mais influentes e poderosas de 2016, pelo National Diversity Council.

Outro dilema é: apesar de 74% das profissionais afirmarem que amam seus trabalhos, 56% deixam o mercado em níveis hierárquicos médios, de acordo com a pesquisa do National Center for Women Information Technology. Para Tiago Takamoto, 31 anos, CTO e Empreendedor, é muito difícil compreender todos os obstáculos que uma mulher enfrenta quando escolhe a área de tecnologia. Em algumas empresas em que trabalhou viu muitas iniciativas surgirem pelo esforço das próprias engenheiras ou desenvolvedoras na busca por políticas que diminuíssem essa desigualdade. Na opinião de Annelise Gripp, 40 anos, que trabalha há 22 anos na área de TI, é necessário que não só políticas sejam criadas, mas ações diárias sejam feitas. “Para mudarmos o nosso mindset, temos que nos exercitar muito, até termos um ambiente em que todos respirem a mesma cultura”, explicou.

Embora o ambiente corporativo esteja melhorando aos poucos, algumas mulheres preferem se jogar no empreendedorismo. Foi o caso da própria Annelise que em 2015 deixou de trabalhar como CLT e abriu a própria empresa dando consultoria, workshops e palestras em todo o país e também da Ana Paula Batista, que trabalhou por quase 2 décadas em multinacionais, mas decidiu abrir sua própria empresa no ramo de tecnologia.

Ana já teve oportunidade de realizar treinamentos e mentorias para empresas de países de cultura extremamente machista e embora as dificuldades continuem existindo, ela não lamenta o caminho trilhado. “Não foi e não é um caminho fácil para nós, mulheres. Mas amo o que eu faço e o faço todos os dias com tanta paixão, que é como se cada dificuldade encontrada tivesse reforçado ainda mais que era exatamente o que eu queria”, explica com brilho nos olhos de quem realmente não se arrepende pela escolha que fez.

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