O sexismo e os conflitos de gênero no ecossistema brasileiro de startups

Não é a primeira vez que "conflitos de gênero" resultam em um grande debate no ecossistema

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Esta semana o Google demitiu um engenheiro de software sênior, depois que este publicou um memorando interno apontando as diferenças biológicas entre os sexos como causa da escassez de mulheres no Vale do Silício. Na carta de 3.000 palavras, o engenheiro afirmou que “as opções e as capacidades de homens e mulheres divergem, em grande parte devido a causas biológicas, e estas diferenças podem explicar por quê não existe uma representação igual de mulheres (em posições) de liderança”. A mensagem gerou polêmica e muitas acusações.

Esta não é a primeira vez que "conflitos de gênero"  resultam em um grande debate no ecossistema. No mês passado também veio à tona pela voz de mulheres que atuam no Vale, algumas denúncias de assédio sexual por parte de potenciais investidores. Por aqui vimos bastante replicação da matéria do New York Times, mas poucas empreendedoras falaram ou quiseram falar abertamente sobre a questão da mulher no nosso ecossistema brasileiro. Medo, vergonha ou simplesmente por aqui as coisas são diferentes?

Alline Oliveira, CTO da fintech Crebit, é programadora há 25 anos e empreendeu na maior parte do tempo, alternando sua trajetória profissional entre startups próprias e empregos no mundo corporativo. Ela já presenciou assédio sexual e moral tanto no Brasil, como no Vale do Silício. “Acredito que seja uma constante no mundo. Cada pessoa percebe o problema e reage de forma diferente, com mais ou menos intensidade e repulsa, mas a questão é global e prejudica todo o ecossistema. Prejudica inclusive os homens”, explica.

Para Alline, o Brasil não é o pior país do mundo para uma mulher empreender, mas também está muito longe de ser bom. “O que diferencia o Brasil do Vale é que lá está mais voltada a aplicação das leis, à punição aos abusadores”, diz. Ela explica que no Brasil a regra geral é não haver consequência real para a contravenção. “No Vale o preconceito existe, mas é mais velado e às escondidas, porque se tem mais consciência das consequências e da punição legal”, revela.

Já Elis Anne Coutinho, CEO da MANAS, atuando no setor de HealthCare e Social, são vários fatores que 'impedem' as mulheres de empreenderem no meio tech, como a estrutura e cultura patriarcais muito enraizados. Mesmo assim ela é otimista. “Eu acredito que a questão dos conflitos de gênero tende a melhorar: o ambiente ficará mais seguro, saudável e um pouco mais equilibrado. As mulheres estão se destacando cada vez mais e se juntando para poder progredir. Vejo também alguns homens se posicionam a favor delas e a ajuda deles é fundamental”, explicou.

Para Haydée Svab, CEO na ASK-AR,  fazer-se ouvir, de verdade, no ecossistema de startups é um verdadeiro desafio, diz. Existem várias situações sutis, mas constrangedoras que acontecem no ecossistema. "É comum acontecer de uma mulher que tem sócios homens ir acompanhada deles a reuniões de negócios com possíveis parceiros, clientes ou financiadores e estes remeterem-se apenas ao sócio e nunca à sócia durante a conversa”, lamenta. “Ou ainda, que mediante alguma afirmação da mulher, que peçam aos sócios homens para validar aquela informação”, explica.

Haydee também fala sobre outra situação que incomoda muitas empreendedoras. “Quando chega alguma mulher na sala e um homem faz um comentário sobre a ‘beleza que a mulher trouxe para reunião’ e ainda, se esse comentário não é visto como elogio, a mulher é julgada negativamente, como uma mal humorada ou “bossy”.

Segundo dados da pesquisa sobre o Perfil da Empreendedora Brasileira, organizada pela Rede Mulher Empreendedora em 2016, entre as razões para empreender está ‘Ter Flexibilidade de Horário’ para 52% das entrevistadas. Este dado leva a pensar na dificuldade de conciliar carreira, maternidade e outras tarefas domésticas, estas últimas ainda atribuídas principalmente às mulheres.

Empreender pode significar, além de se fazer o que gosta, ter a possibilidade de ser mais dona do próprio tempo, mesmo que se trabalhe mais empreendendo do que sendo empregada numa empresa. Contudo, continuam muito frequentes as jornadas de trabalho duplas e triplas. O empreendedorismo, nesse contexto, só flexibiliza jornadas, que podem até ser mais extensas – o que pode onerar saúde e qualidade de vidas das mulheres, especialmente no longo prazo.

Haydée toca em outro ponto importante na reportagem: “Ao ser um financiador anjo, porque não ter uma meta de financiar 50% de negócios capitaneados por mulheres em X tempo? E ainda, porque não considerar as vulnerabilidades cruzadas e colocar metas claras em financiar negócios de mulheres negras? Passamos mais de um século atrás dos muxarabis ou proibidas de trabalhar ou em trabalhos não reconhecidos nem remunerados. Agora, para equilibrar o jogo, é preciso mais do que apenas dizer “mulheres, venham empreender e valorizem-se”, é imprescindível oferecer condições para isso acontecer”, enfatiza.

Para Iana Chan, Program Manager na Liga Ventures e fundadora da PrograMaria, o importante é perceber que essas denúncias recentes de assédio não são exceções. “O que submerge são os casos mais graves, de violência e assédio sexual, mas isso está relacionado ao machismo enraizado em nossa sociedade, e agravado em um ecossistema que não tem representatividade de gênero. Isso vai desde o fato de a mulher não se sentir bem-vinda nos espaços, porque sofre microagressões, ouve piadinhas e tem suas ideias desacreditadas, até o fato de eventos só terem homens falando ou startups fundadas por mulheres receberem sistematicamente menos investimento do que as startups com fundadores homens, como mostram vários estudos”, explica.

Complementando a problemática apontada por Iana,  Anielle Guedes, fundadora da Urban3D, aponta que uma das soluções para buscar um caminho com mais equidade de gênero além do salário igual para funções equivalentes, também passa pelo reconhecimento da questão por toda a comunidade, em especial empreendedores e investidores homens com o intuito de criar espaços seguros para empreendedores em busca de clientes e investidores.

"Tenho conversado com diversas pessoas sobre a violência de gênero no mundo empreendedor com mais ênfase nos ´preconceitos inconscientes´ que estão presentes na maioria dos ambientes e em situações onde as mulheres são avaliadas por sua performance nos negócios. O que tenho encontrado é receptividade e abertura para falar do assunto, e inclusive para pró-ativamente atacar o problema partindo da premissa que mulheres e homens são tratados diferentes desde a primeira etapa da construção de seus negócios", explica Anielle.

Segundo um estudo de 2014 publicado por pesquisadores da Harvard, MIT e da Wharton School, os investidores são mais propensos a apostar em um homem do que em uma mulher.  Este ano foi feita também uma nova análise para compreender melhor esta enorme diferença de gênero no capital de risco. Para saber mais clique aqui.

Hoje cerca de 70% das empresas pertencentes a mulheres nos países em desenvolvimento não tem acesso a crédito que precisam para crescer. Em julho o Banco Mundial anunciou o lançamento de um programa público-privado de crédito destinando mais de US$ 1 bilhão (R$ 3,3 bilhões) a mulheres empreendedoras de países em desenvolvimento. Iniciativas como esta mostram que o futuro passa por ações que apoiam a igualdade de gênero beneficiando toda a sociedade. O programa trabalhará com os governos "para melhorar leis e regulamentações que sufocam as empreendedoras" e incentivar os bancos a liberar fundos para empresas comandadas por mulheres.

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