Vale do Silício: o guia completo para o ecossistema mais inovador do mundo

Conheça com detalhes o ecossistema do maior polo de inovação do mundo e aprenda quais as melhores formas de fazer parte dele

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Assim que você sai do Aeroporto Internacional de São Francisco, já é possível sentir-se dentro do Vale do Silício: outdoors anunciam nuvens para startups, as melhores corretoras de bitcoins e criptomoedas, a inteligência artificial mais barata e por aí vai. Nas diversas cidades que formam o polo de tecnologia não é diferente, uma vez que ao andar pelas suas ruas é possível cruzar com gigantes como Apple, Intel, HP, Google, universidades renomadas mundialmente, como Stanford e UC Berkeley, e grandes fundos de venture capital, como a Sequoia Capital, e (muito) mais. 

Bem-vindo ao Vale do Silício

O empreendedorismo e a inovação estão tão arraigados na cultura da região que alguns números são únicos de lá. Das 50 empresas mais inovadoras e eficazes do mundo, segundo o MIT, 18 são da Califórnia, com nomes como NVIDIA, Apple, 23andMe, Alphabet, Udacity e Tesla. Em 2017, o Vale do Silício contou com um total de US$ 25 bilhões em investimentos de venture capital, o que representa aproximadamente 38% de todo os EUA e 78% do Estado da Califórnia.  

De 2016 para 2017, mais de 47 mil novos empregos foram criados, sendo que 29% deles correspondem a trabalhos na área de tecnologia. Também, a região produziu 80 unicórnios desde 2003, segundo a Atomico (levando em consideração as empresas de software nascidas a partir de 2003). 

Diversidade e abertura

O impacto do mundo tecnológico é impulsionado pela diversidade cultural. Conversas em diversas línguas podem ser ouvidas e pessoas de origens variadas circulam por todos os lados. Não é para menos: a região é uma das que mais recebe imigrantes internacionais no mundo. Segundo o Silicon Valley Indicators, a média é de um recém-chegado a cada 24 minutos, sendo que 37% da população do Vale do Silício não nasceu nos EUA. 

 

A diversidade também é muitas vezes apontada como culpada por um dos ingredientes secretos da região: abertura e acessibilidade. Um exemplo disso é Ron Shigeta, especialista em biotecnologia (com universidades como Princeton, Stanford e Harvard no currículo), cofundador da IndieBio, primeira aceleradora de biologia sintética do mundo, e atual cientista no fundo de investimentos Babel Ventures e CSO da startup Wild Earth.

De sorriso fácil, o também investidor não teve frescura: no dia da entrevista, me encontrou na Galvanize, coworking em São Francisco onde está sediado o escritório da StartSe. Chegou esbaforido pela pressa, pediu um copo d'água, sentamos em um sofá e demos início. "Mesmo as pessoas que vem de outros lugares se tornam mais abertas aqui. Elas ouvem coisas aqui que eles não ouvem em casa e há motivos para isso: no momento, esse é um lugar em que as pessoas escutam", comentou.

Por sinal, para ele esse é um dos principais diferenciais da região. Com o olhar longe, o especialista contou: "Quando eu estava lá (Boston e Nova Jersey), se eu dissesse que eu tinha uma ideia, as pessoas me perguntariam quem eu era. Quando eu vim para o Vale do Silício, (aprendi que) elas me perguntariam qual era a minha ideia e iriam me valorizar inteiramente por essa ideia. Essa é a maior diferença daqui para qualquer outro lugar que eu já trabalhei."

Outro diferencial, para ele, é a ajuda entre as pessoas: "Você provavelmente vai ter que trabalhar muito, mas se estiver dando duro o suficiente, as pessoas vão vir para ajudar. Existem muitas pessoas como Ryan (Ryan Bethencourt, co-fundador da IndieBio e atual sócio da Babel Ventures) e eu que queremos ajudar!", defendeu.

Fronteiras variáveis

Junto com Shigeta, mais três milhões de pessoas habitam o Vale, distribuídas ao longo de mais de dois mil km², aproximadamente 20 cidades e muitos unicórnios. No caso, a extensão do polo de inovação é variável, uma vez que a região cresceu muito nas últimas décadas: por vezes, o Vale do Silício é citado fazendo referência somente aos condados de Santa Clara, San Mateo e a algumas cidades dos condados Alameda e Santa Cruz, excluindo o de São Francisco. 

Como diversos players importantes também estão em outras cidades ao redor da Baía, a definição do Vale do Silício ao longo dessa reportagem abrangerá as cidades: Berkeley, Campbell, Cupertino, Fremont, Los Altos, Los Gatos, Menlo Park, Mountain View, Milpitas, Newark, Palo Alto, Redwood City, San Francisco, San Jose, Santa Clara, Saratoga, Sunnyvale, Stanford e Union City. 

Recusa imitações 

Independente das fronteiras físicas, o Vale do Silício vibra em outra frequência. Mas isso não significa que é possível sintonizá-la em qualquer canto do globo. Há pelo menos 50 anos, a região chama a atenção do mundo pelos seus números e feitos impressionantes. Então, não é surpresa o fato de que já tiveram diversas tentativas de copiar a magia do Vale para reproduzi-la em outro lugar. 

Um exemplo disso é o de um grupo de empresas que na década de 1960 tentaram recriar o Vale do Silício em Nova Jersey. Segundo o MIT Technology Review, a estratégia delas foi contratar Frederick Terman, professor que tinha transformado a escola de engenharia de Stanford em um modelo de inovação e também considerado o "pai do Vale do Silício", fato que será explicado mais adiante. 

A forma como ele tinha alcançado esse feito foi incentivando departamentos de ciência e engenharia a trabalharem juntos, conectando-os a empresas locais e unindo esforços para solucionar problemas da indústria. Em outras palavras, o professor havia criado um micro-ecossistema que funcionava à base de cooperação. 

Ao ser chamado para reproduzir o feito em Nova Jersey, Terman traçou um plano que contava com a colaboração entre grandes players da região. Infelizmente, não deu certo. Um dos principais empecilhos foi exatamente a resistência de colaborar e compartilhar: a RCA se recusou a fazer uma parceria com a Bell Labs, a Esso não quis dividir seus melhores pesquisadores com uma universidade, entre outros. Resumindo: a preocupação com a concorrência era mais forte do que o foco em inovar de forma compartilhada. 

Esse foi somente um dos vários esforços de copiar o maior polo de inovação do mundo. Vários outros existiram ao redor do globo e ao longo dos anos. Os problemas para captar a fórmula mágica vão desde falta de colaboração ou de diversidade até a inexistência de players, sejam eles universidades de ponta, investidores, empresas inovadoras, etc.. Mas como tudo começou no Vale do Silício?  

 

Origens 

Há quem discorde que uma das causas para o Vale do Silício ser o que é se deve à sua história. Apesar disso, é impossível ignorar que a região foi palco de acontecimentos históricos, como a corrida do ouro, a corrida espacial, o surgimento do movimento hippie e o nascimento oficial do Vale do Silício com casos como os oito traidores e a criação da HP. 

É inegável que esses eventos influenciaram ou refletem uma parte importante da história do Vale do Silício, sendo essenciais para entender o maior polo de inovação do mundo. 

1849: A corrida do ouro 

Hoje se fala da grande concentração de capital no Vale do Silício, mas isso não é exatamente novidade para o lugar: ele já foi conhecido ao redor do globo há mais de um século pela presença abundante de ouro. Na década de 1840, foi descoberta uma quantidade muito grande de ouro na região da Califórnia. A notícia de uma possível riqueza instantânea se espalhou pelo mundo inteiro, resultando na corrida do ouro e trazendo com ela pessoas das mais diferentes origens e culturas. 

Segundo o Geology for Investors, em 1846, a Califórnia contava com 700 estrangeiros e 300 mil indígenas. Em 1849, no ápice da corrida do ouro, 40 mil mineradores tinham chegado à região. Na época, o simples fato de chegar à Califórnia já era um desafio: as rotas que levavam à costa oeste norte-americana eram muito perigosas e não era difícil a causa de morte por doenças como cólera. 

Apesar das promessas de uma vida melhor, na maioria dos casos o sonho de se tornar rico não se concretizou e quem tinha largado tudo para trás se viu sem saída. O que aconteceu em muitos casos foi que diversas pessoas começaram a arriscar e apostar em novos empreendimentos, prática que nunca foi abandonada até hoje. 

Aproximadamente 350 mil kg foram minerados durante a corrida. Como consequência, a região mudou para sempre: cidades começaram a tomar forma e a crescer permeadas pela diversidade cultural e espírito empreendedor. Vale notar que as universidades UC Berkeley e Stanford foram fundadas em 1868 e 1885, respectivamente. 

 

1938: Fundação da HP 

Ao andar pelos distritos University South e Professorville, em Palo Alto, é possível se perder admirando as casas com cercas baixas e seus jardins abundantes. As ruas são calmas e com pouco movimento, tanto de carros quanto de pessoas. 

A única exceção à regra é o número 367 da Addison Avenue, uma casa de tijolos com telhado verde-água, que não raro recebe grupos de visitantes armados de câmeras fotográficas e curiosidade. Eles vêm todos os dias para o endereço, que só se diferencia das outras casas ao redor por uma pequena placa na frente, avisando que aquele é o berço do Vale do Silício e, portanto, marco histórico nacional. 

Em 1938, antes das tentativas frustradas de replicar o Vale do Silício em outros lugares, Frederick Terman, então professor de Stanford, incentivou dois ex-alunos a empreender. Eles eram William Hewlett e David Packard, que com apenas US$ 500 no bolso deram início à empresa na famosa garagem do número 367 da Addison Avenue, Palo Alto, Califórnia. 

No começo, a empresa tinha foco total em produtos técnicos. Não é à toa que em 1938, antes mesmo de ter um nome oficial, seu primeiro produto (que teve como base feedbacks negativos anteriores) foi um oscilador de áudio, que conquistou clientes como a promissora Disney. 

Em janeiro de 1939, a parceria foi oficializada e, para decidir qual nome viria na frente, os sócios jogaram na moeda. O resultado final o mundo já conhece: Hewlett-Packard, ou HP. A importância da empresa não é para menos. Ela foi uma das pioneiras do mundo tecnológico e, uma vez que entrou no mercado consumidor, na década de 1960, fez sucesso estrondoso com calculadoras pessoais, computadores e, posteriormente, impressoras (que se tornariam uma marca registrada ao longo dos anos). 

1958: Criação da NASA 

A história da corrida especial é mundialmente conhecida, mas ela impactou diretamente o polo de inovação na década de 1960. Poucos anos antes, porém, em outubro de 1957, a União Soviética deu um passo inesperado para o mundo: ela fez o lançamento bem-sucedido do primeiro satélite artificial no espaço, o Sputnik-1. Como consequência, a tensão entre EUA e União Soviética aumentou, e a resposta norte-americana não tardou a chegar. 

Um ano depois, em outubro de 1958, a NASA deu início às suas operações com mais de 8 mil empregados, orçamento anual de US$ 100 milhões e três grandes laboratórios, sendo que um deles – Ames Aeronautical Laboratory – estava localizado no Vale do Silício. 

Com a promessa de colocar um homem na Lua até o final da década de 1960, os EUA tiveram que investir pesado na área. Dessa forma, além de ter um laboratório no coração do Vale, a NASA também contou com a ajuda da Fairchild Semiconductor, uma das empresas de tecnologia mais renomadas da região, que auxiliou na parte tecnológica. 

O evento, acompanhado dos investimentos massivos, foi determinante para a aceleração da evolução tecnológica, que nos anos seguintes continuou a se alastrar com o nascimento de empresas como Intel e NVIDIA e as indústrias de hardware, software e internet. 

1967: Movimento Hippie 

Ao mesmo tempo em que o Vale do Silício é altamente tecnológico, a atmosfera e jeito de viver é alternativo. Estereótipos de executivos milionários, geralmente de terno e inacessíveis, não são uma realidade lá. Pelo contrário: é capaz que você encontre uma personalidade importantíssima andando pelas ruas de jeans, colete e patinete elétrico. O que surpreende na região é o comportamento tranquilo e a cabeça aberta... Possível herança do movimento hippie, que nasceu em São Francisco na década de 1960. 

Parte importante dessa história é o Golden Gate Park, na região oeste da cidade de São Francisco. Ele é um parque urbano com mais de mil acres de extensão que teve uma forte presença na época. Entre suas quadras de tênis e a Haight Street, ponto culminante do Verão do Amor, em 1967, há um pequeno morro que foi muitas vezes palco do Movimento Hippie. A Hippie Hill, como é chamado o morro, é símbolo da contracultura e até hoje une rodas de músicos e simpatizantes do estilo de vida. 

Segundo a Wired, as empresas e empreendedores – entre eles Steve Jobs – da Baía de São Francisco foram impactados de forma significativa pelo movimento, abraçando uma postura mais liberal, a favor do compartilhamento de ideias entre todos, assim como de incentivar riscos e aceitar erros. 

Como exemplo, um dos lemas mais conhecidos do Vale é o Fail Fast, que significa que não há problema em falhar, contanto que você aprenda com isso e se recupere rapidamente para tentar de novo. Essa cultura de aceitar os erros está muito presente no ecossistema e pessoas que já falharam e se reergueram são vistas com admiração. 

Essas características marcaram a região e a tornaram única e de difícil reprodução. 

1956 – 1968: Os Oito Traidores, a criação da Intel e o nome Vale do Silício 

O feito de Frederick Terman em criar um ecossistema em Stanford ficou famoso na época e inspirou não só as empresas em Nova Jersey, como também outros profissionais. William Shockley, inventor do transistor e ganhador do Prêmio Nobel da Física, foi um deles e, buscando alcançar um feito parecido, decidiu convocar as mentes mais brilhantes do mercado para trabalhar em sua nova empreitada: a Shockley Semiconductor Labs. Apesar de aparentemente ter tudo para dar certo, o projeto enfrentou algumas dificuldades. 

A mais famosa e icônica delas foi a saída em conjunto de oito funcionários que estavam cansados das condições de trabalho na empresa. Eles eram: Sheldon Roberts, Eugene Kleiner, Victor Grinich, Jay Last, Julius Blank, Robert Noyce, Gordon Moore e Jean Hoerni. Ao saírem, eles fundaram juntos a Fairchild Semiconductor e foram chamados por Shockley de "os oito traidores". 

A Fairchild fez história, sendo a responsável pelo primeiro circuito integrado comercialmente disponível e por ter fornecido componentes de computador para o programa Apollo, da NASA. No final da década de 1960, porém, alguns dos Oito Traidores e outros funcionários deixaram a empresa para criar empresas próprias. Entre elas estão gigantes como a Intel, NVIDIA e AMD. 

Alguns anos depois, em 1971, o sucesso da indústria de semicondutores da região tinha ficado conhecido. Como consequência, em uma reportagem sobre ela, o jornalista Don Hoefler batizou o local de Vale do Silício. A lógica por trás do nome era simples: a Baía de São Francisco fica localizada no que é geograficamente um vale e silício é um dos elementos químicos principais na produção de semicondutores. 

 

Ecossistema 

Tantos acontecimentos fizeram com que o Vale atraísse pessoas, empresas e capital de todas as regiões possíveis do mundo. Esse fato somado à tecnologia e ao conhecimento abundante presente no local fizeram com que se formasse um ecossistema que beira a perfeição: há todos os tipos de investimento possível (desde semente até série C em diante), capital intelectual de sobra (marcado principalmente pelas Universidades de Stanford e UC Berkeley), grandes empresas e colaboração entre os players. Cada parte desse ecossistema é imprescindível, sendo interessante conhecer como funcionam. 

 

Empreendedorismo 

A um quarteirão da estação de trem de San Mateo, cidade quase na metade do caminho de São Francisco a San Jose, há uma das filiais do Philz Coffee, café especializado em blends diversos. Foi lá onde Michelle Messina, autora do livro Decoding Silicon Valley, atual CEO da consultoria internacional Explora International e aficionada por cappuccinos, escolheu para nos encontrarmos. 

Michelle começou a carreira de empreendedora cedo. Aos 17 anos, optou por começar um negócio ao invés de ir para a faculdade. Aos 19, ela vendeu seu empreendimento e apostou na faculdade, mas depois de 2 anos desistiu... estava entediada. Não é surpresa: a personalidade dinâmica é um reflexo da sua vida viajando ao redor do mundo, uma vez que seu pai era diplomata e atualmente ela dá consultoria internacional para empresas e governos espalhados pelo globo. 

Michelle Messina é quase uma cidadã do mundo, o que pode também ser aplicado a Paulo Martins, CEO da startup Arena, plataforma de transmissão de eventos em tempo real. Seu currículo tem empresas como NASA, Ubisoft e Hulu, sendo que o brasileiro já morou em três países diferentes (Brasil, França e EUA). 

Hoje, assim como Michelle, é um dos milhões que vive na Baía de São Francisco. Martins trabalha todo dia em Sunnyvale, ao sul do Vale, onde fica a Plug and Play, uma das aceleradoras mais prestigiosas da região. Ele vive no dia-a-dia, de forma intensa, o que é ser um empreendedor no maior polo de inovação do mundo: ao entrar na Plug and Play, você é bombardeado com placas de diversas empresas que passaram ou que estão lá. Somente em 2017, mais de 400 startups foram aceleradas no local. 

Ambos empreendedores contaram, baseados em suas experiências, como é empreender no Vale do Silício. É possível afirmar que, apesar da fama, empreender no Vale é tudo, menos fácil. 

Empreenda se for capaz 

Nos últimos oito anos, Messina visitou mais de 60 países e diversos ecossistemas, mas ela reconhece que o Vale do Silício é único no mundo. "Quando pessoas de fora vêm para cá e conhecem nosso mindset, abundância de dinheiro, pessoas muito inteligentes e expertise para criar empresas de sucesso, eles sentem que tem menos vácuos no ecossistema. É mais fácil empreender aqui do que nos outros lugares, mas ainda é muito difícil", defende. 

A dificuldade se deve ao mercado altamente competitivo: o Vale do Silício tem uma alta concentração de talentos nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática, chegando a mais de 330 mil, em 2015. Só na região, 17 mil estudantes se graduaram na área de ciências e engenharia no ano de 2016. No mesmo ano, a região da Baía de São Francisco alcançou um PIB de US$ 781 bilhões, ranqueando em 18º se comparado a economias mundiais. 

Como consequência, a mão-de-obra é extremamente bem qualificada, tornando a região uma das mais competitivas do mundo. Além disso, há a presença de grandes players e de muito capital, o que atrai milhares de pessoas todos os anos que sonham em empreender e acham que o Vale é a tão sonhada terra prometida. Apesar de ter oportunidades boas, a região está longe de ser um paraíso. 

Ao mesmo tempo em que a fama de polo de inovação é bem vista no resto do mundo, segundo Messina, ela pode ter suas desvantagens: "Acho que as pessoas pensam que é mais fácil empreender aqui (...) e isso é um conceito ruim. Ainda é preciso ser uma empresa muito boa, com equipe muito boa, com um mercado grande e uma tração relevante para os investidores considerarem que você é uma boa opção". 

De fato, o ritmo é intenso e ideias que são "geniais" não têm chance. Se você tem uma ideia de negócio, com toda certeza ela já foi pensada ou posta em prática por alguém antes, então não conte somente com isso. Pelo contrário, é preciso saber tirar proveito da situação. "Você aprende com quem já fez e já cometeu os erros (...). Outra vantagem é que você conhece seus competidores, encontra com eles em eventos, toma café junto. Nesses encontros, as pessoas podem ajudar, é possível fazer parcerias também", conta Paulo. 

Como empreender no Vale 

Apesar do caminho árduo que um empreendedor possa ter ao procurar ser bem-sucedido no Vale, a experiência de Messina decodificando a região fez com que ela conseguisse resumir quais são os ingredientes que acha essenciais para se dar bem. Eles são: pensamento positivo, uma vez que é preciso sempre acreditar que vai dar certo, foco no objetivo, já o empreendedor pode se encantar por outro projeto ao longo do caminho, e ter bons mentores, que deverão ser escolhidos com base no conhecimento que podem agregar à trajetória. 

Já Paulo acredita que há duas maneiras principais de entrar no ecossistema do Vale do Silício como empreendedor. Uma delas é ter um produto muito bom, com bastante tração, e a outra é nutrir as relações certas durante o processo, fazendo o networking com CEOs, mentores, investidores, entre outros. 

Mas atenção: nada de chegar despreparado! "Sempre chamo atenção para aproveitar a oportunidade com preparação. Por isso, é super importante ter o produto e um negócio sólido antes mesmo de começar a fazer o networking e a conexão. Você vai chamar muito mais atenção se tiver algo mais sólido", indica o CEO da Arena. 

 

Universidades 

Um ingrediente quase inestimável do ecossistema do Vale do Silício é a presença de universidades como Stanford e UC Berkeley. Ambas são renomadas mundialmente e têm um grande foco em empreendedorismo: em 2017, no ranking mundial de universidades com maior número de ex-alunos que se tornaram empreendedores, Stanford está no topo, com um total de 1.006 nos últimos 10 anos, e a UC Berkeley está em segundo, com 997. 

A Universidade de Stanford foi fundada em 1885 pelo senador da Califórnia Leland Stanford. Localizada na cidade de Palo Alto e com mais de 7 km², a universidade nasceu com o objetivo de promover educação sem exclusão, com preços acessíveis e ensinar tanto as artes tradicionais quanto as liberais e as tecnologias que começavam a impactar o mundo. 

O campus da universidade é impressionante: construções tradicionais se mesclam com a presença abundante de verde. Campos, árvores e fontes se espalham ao redor e por todos os lados jovens andam de bicicletas para lá e para cá. Como a maioria dos alunos mora no campus, o transporte em duas rodas acaba sendo o mais comum (no total, a universidade dispõe de 12 mil vagas para estacionar as bicicletas). 

No meio do ambiente universitário, cercado por jovens de diversas idades, é quase impensável que, se considerada um país à parte, Stanford ocuparia o 10º lugar como a maior economia do mundo, gerando cerca de US$ 2,7 trilhões anualmente. Esse dado considera as cerca de 39.900 empresas criadas por ex-alunos desde 1930. 

Não é preciso falar que a universidade é concorridíssima e que os aprovados são verdadeiros talentos. Um deles, por sinal, é Bruno Yoshimura, estudante de MBA na escola de negócios de Stanford. 

Enquanto a maioria dos adolescentes estava jogando videogames e assistindo TV, com 14 anos de idade Bruno já começava seu primeiro empreendimento. Em 2010, criou o seu segundo negócio, a KeKanto, que recebeu aporte da Kaszek Ventures e Accel Partners. Há três anos, ele entrou no mundo dos investimentos, atuando como investidor-anjo em diversos empreendimentos e hoje está dedicado ao MBA. 

Mão na massa: aulas práticas e atuais 

Um dos maiores diferenciais de Stanford é seu foco prático e atual. Uma prova disso é que os professores não se restringem à área acadêmica, pelo contrário: eles são muitas vezes advisors e investidores de grandes startups. Como consequência, não é difícil em uma aula estudar algum case do Uber, por exemplo, ou então ter como professor um expert do mercado.  

Bruno revela que uma de suas professoras é advisor de data science para a Sequoia Capital, mas não para por aí: "Esses últimos dias eu tive aula do AirBnB, dada pelo professor que é advisor deles, outra foi um dos cases mais famosos de litígio do Uber e o advogado que defendeu e ganhou pelo Uber foi quem deu a aula, a gente também teve aula sobre o eBay, contabilidade do Spotify, etc.".  

A parte prática também marca presença nas atividades em sala. Algo muito comum (mas nem sempre agradável) é quando os professores pedem que os alunos façam simulações ou "roleplays", uma forma de atuação em cima de uma situação que eles dão. Uma delas é de quando um aluno deve demitir o outro na frente da classe e ambos devem apresentar argumentos e se defender. Apesar de ser uma situação tensa, Bruno, que admite que já foi demitido nessas simulações, acha que elas são experiências ricas e válidas para a vida profissional. 

Foco empreendedor 

Outro grande foco da universidade é o de empreendedorismo. Até hoje, Stanford coleciona um total de 51 unicórnios, ou seja, startups que atingiram o valuation de US$ 1 bilhão. Não é à toa: há diversos incentivos internos para tal. Um deles são os professores, que não raro estão de olho nos alunos e seus projetos para serem os primeiros investidores-anjo. 

Na grade curricular, os alunos podem optar por pelo menos duas matérias que são focadas no lançamento de uma startup, sendo elas Product Launch, ministrada pelo renomado Steve Blank, que criou a teoria da startup enxuta, e Startup Garage, que aceita que os grupos que se inscreveram possam ter uma pessoa de fora da universidade. 

Outras iniciativas da universidade contam com uma aceleradora para startups de alunos, chamada StartX, e dois fundos: um é o Cardinal Ventures, fundo ministrado por alunos que só investe em estudantes, e o outro é o Dorm Room Fund, inspirado pelas empresas que nasceram nos dormitórios das faculdades, tais como Facebook e Google. 

Networking e abertura 

Outro diferencial de Stanford é sua rede de contatos. Bruno deixa claro que desde o momento em que foi aceito na universidade, sentiu uma diferença brutal em relação a contatos e à receptividade: "A abertura que você tem como estudante de Stanford é incrível. Você ganha uma rede de contatos, de ex-alunos inclusive, onde todo mundo responde muito rápido. Para empreendedores e investidores de venture capital, por exemplo, é essencial". 

Ao mesmo tempo, a humildade vem junto. Bruno revela que se surpreendeu ao entrar na universidade, pois, uma vez que todos são muito diferentes e muito bons, é comum que, ao saírem, os alunos fiquem mais modestos. Como resultado, você é contagiado pelo espírito colaborativo: "Você começa a ficar mais aberto às pessoas e a saber ouvir muito mais", conta o estudante. 

 

Aceleradora 

As aceleradoras são parte importantes no ecossistema, impulsionando negócios que estão começando e ajudando-os a ganharem escala. No Vale não é diferente e a região conta com algumas organizações de peso na área, como Y Combinator, Plug and Play, 500 Startups e a GSVlabs, que abriu as portas para conhecermos um pouco mais sobre ela. 

A GSVlabs tem uma fachada simples: uma construção térrea com parede cor bege e um grande estacionamento a céu aberto na frente. É preciso chegar perto para ver se realmente aquela é a entrada de uma das aceleradoras mais relevantes do Vale do Silício. 

Na recepção, é possível se deparar com uma foto-montagem, com as construções mais importantes de diversos lugares do mundo, lado a lado. A imagem faz jus ao nome da organização: Global Silicon Valley, ou seja, Vale do Silício Global. O objetivo dela é exatamente promover a inovação ao redor do mundo. E ela já está fazendo isso. 

A GSVlabs é viabilizada pelo GSV, um banco comercial moderno, e acelera hoje mais de 50 startups, divididas em cinco verticais: educação, sustentabilidade, mobile, big data e entretenimento. Com um network global, a GSVlabs tem diversas parcerias e programas em vários países. O Brasil é um deles: há pouco mais de um ano, a gigante firmou uma parceria com a Kyvo, aceleradora que é considerada o braço direito dela no país. 

O interior da aceleradora conta com grandes espaços e pé direito alto. O motivo é que um ambiente bem arejado faz com que as pessoas se sintam mais livres. Paredes espalhadas pelo escritório são preenchidas por frases de grandes figuras do mundo das startups, e uma inclusive conta com um hall da fama que celebra personalidades que impactaram o Vale e o mundo de alguma forma. 

Acelerando ideias 

Quem me recebeu e me deu um verdadeiro tour pelas instalações foi Bobby Amiri, diretor de operações internacionais da GSVlabs. Nativo do Vale do Silício, mais precisamente de Palo Alto, Amiri admite que enquanto estava crescendo não tinha tanta noção da importância da região, mas descobrir isso foi inevitável quando ficou mais velho. 

Antes da GSVlabs, ele passou por empresas como IBM e HP e fez um intercâmbio para o Brasil, onde estudou economia e negócios internacionais na Faculdade Getúlio Vargas. Apaixonado por culturas e línguas diferentes – ele é fluente tanto em português quanto em espanhol –, a posição na GSVlabs, em que ajuda a conectar iniciativas do mundo inteiro ao Vale do Silício, caiu como uma luva. 

O objetivo de conectar as iniciativas do globo ao Vale vem exatamente para ajudá-las. "Nós achamos que existem startups incríveis em todo o mundo, mas elas não têm a mesma conexão que temos aqui. Se nós conseguirmos ajudar essas empresas a terem nossas conexões e a lançá-las em novos mercados, ajudamos todo mundo", afirma Amiri. 

Como a aceleradora não tem fundos próprios, a forma como a GSVlabs procura alcançar esse objetivo é principalmente por meio de parcerias com corporações e governos. Além da parceria com a Visa no Brasil, a aceleradora trabalhou junto com o México e a Coréia do Sul, que organizaram programas focados no desenvolvimento de startups, visando impulsionar a economia. s 

A GSVlabs trabalha principalmente na organização e metodologia aplicada aos programas, dando um suporte também na hora da seleção. Segundo Bobby Amiri: "Nós ajudamos eles (parceiros) a escolherem as startups com o que chamamos de 4 Ps: pessoas, produto, potencial e previsibilidade, sendo que o mais importante são as pessoas". 

Um dos principais benefícios de entrar em programas de aceleração no Vale é poder contar com uma infraestrutura sem igual, mas a principal vantagem está nas conexões. Uma vez que a aceleradora traz as startups, ela a ajuda a formar seu networking. A importância disso é que, apesar do Vale ser conhecido pela sua abertura, saber se aproximar das pessoas certas pode tomar um tempo precioso. 

Para Bobby Amiri, ir para o Vale sem ser da região e sem conhecer ninguém pode resultar em uma experiência negativa, uma vez que fazer contatos demorará mais que o normal. Já ir com quem conhece ou ainda mais com empresas como a GSVlabs, que tem um grande network, possibilitará que o empreendedor, por exemplo, aproveite todo o potencial da região e consiga entrar no mercado mais facilmente. 

Se você quer vir para o Vale, saiba o porquê 

"Meu conselho para as startups é: só venham para o Vale quando vocês estiverem prontos e pensem o que vocês querem aprender. O mesmo eu falo para as corporações", indica Amiri. Para ele, ter um bom storytelling, tração e dados relevantes são essenciais para possíveis investidores entenderem sua importância. 

Se o objetivo é ir para o Vale, tenha em mãos uma boa estratégia (o porquê você está indo) e foque no networking que pode beneficiar o seu negócio. Uma vez no Vale, a dica do diretor é ser muito agressivo e ir atrás do que quer, mas nunca esqueça de ser genuíno. Para conseguir qualquer coisa é preciso construir relacionamentos e isso leva tempo. 

Para as corporações que pensam em ir para a região, Amiri indica se questionar se o ecossistema é o certo para a empresa. "Se você é uma empresa de mídia, talvez Los Angeles ou Nova York sejam uma opção melhor. Já agrotech e óleo, talvez Austin, no Texas", afirma.  

 

Investimento 

Como já citado,  só em 2017, o Vale do Silício contou com um total de US$ 25 bilhões em investimentos de venture capital, o que representa aproximadamente 38% de todo os EUA e 78% do Estado da Califórnia. O dado é prova de que há muito dinheiro no Vale do Silício, mas isso não significa que investidores são menos cotados. 

Na hora marcada para a entrevista, Pedro Sorrentino, investidor de venture capital e cofundador da ONEVC, chegou na Galvanize, coworking em São Francisco onde está sediado o escritório da StartSe. Mas, antes de conseguir chegar até a nossa mesa, ele foi interrompido por um jovem que ficava exatamente do nosso lado. O jovem conversou animadamente com ele, aproveitando também para apresentar o colega. Aquilo era networking puro e, quem sabe, uma grande oportunidade com um investidor que já coleciona alguns sucessos no portfólio. 

Sorrentino veio para o Vale do Silício em 2010 para fazer uma pós-graduação na University of Colorado Boulder. Logo em seguida, apostou em um empreendimento que depois de três anos foi comprado pela Buscapé. A partir de então, teve algumas experiências profissionais até entrar no Funders Club, que marcou sua entrada oficial no mundo dos investimentos, e hoje tem seu próprio fundo VC, o ONEVC. 

Quem também desbravou o Vale por conta própria foi Barbara Minuzzi, investidora e cofundadora da Babel Ventures e da Ausum, fundos VC focados em startups de saúde e biotecnologia em early stage e startups de tecnologias revolucionárias de blockchain, respectivamente.  

Antes de entrar para o mundo dos investimentos, Minuzzi empreendeu algumas vezes, mas sua paixão mesmo foi descobrir o mercado de venture capital. Quando isso aconteceu, em meados de 2015, ela morava em Miami, trabalhando em um clube de investimentos. Ela decidiu que queria ir para São Francisco, mas a investidora sabia que deveria migrar para o ecossistema do Vale do Silício aos poucos. Então, decidiu visitar São Francisco de quatro em quatro meses, durante um ano, para fazer o famoso networking. 

Não foi fácil. O mercado de investimentos é dominado por homens: em 2016, somente 6% dos investidores VC no mundo eram mulheres. No Vale não é tão diferente e, ainda por cima sendo imigrante e sem portfólio na área de venture capital, Barbara sentiu uma grande desconfiança de outros profissionais em relação à sua seriedade. Ela não se intimidou e fez por merecer: hoje comanda dois fundos e conquistou seu espaço, mais precisamente no ponto mais alto de São Francisco, onde acorda, trabalha e dorme com a vista da cidade inteira. 

Como entrar no mercado de investimentos no Vale do Silício 

Networking é o segredo. Barbara revela que começar a Babel Ventures não foi fácil. Depois de um ano indo para São Francisco a cada quatro meses para dar os primeiros passos e fazer alguns contatos, ela decidiu se mudar para lá. Quem a apoiou na empreitada foi Daniela Arruda, também cofundadora do fundo, que viajava para o Vale para ajudar Minuzzi a pedir opinião e receber feedback de outros profissionais. 

"Nós fazíamos um mapa com literalmente todo mundo que nós podíamos falar, com palestra, apresentação e etc. deles e ficávamos na saída dos palestrantes sempre esperando para conseguir falar com todos. Era muita vontade", recorda Barbara. Outro diferencial que foi sentido pela dupla foi o feedback sincero, algo que raramente acontece no Brasil. Segundo Minuzzi, se o projeto estava ruim, eles falavam com todas as letras e a partir desses insights, a Babel Ventures foi tomando forma.  

A rapidez para criar o fundo se deve a essas mentorias: "A gente corta caminho com essa ajuda. Eu ia errar tanto se eu não tivesse essas pessoas me ajudando a melhorar a minha tese e a estruturar meu fundo e isso foi muito bom, foi muito rápido", frisa a investidora.  

Segundo Pedro Sorrentino, o ecossistema do Vale do Silício tem um retorno muito grande, muitas pessoas colaboram e estão dispostas a pelo menos ouvir a sua história. "Eu digo que aqui no Vale a gente sempre tem um crédito para conseguir uma reunião com qualquer pessoa que quiser, mas para conseguir a segunda é responsabilidade de cada um", pontua. 

Dicas sobre o mercado 

Apesar da colaboração típica do Vale, no mercado de venture capital as coisas são um pouco diferentes. De acordo com Sorrentino, o dia-a-dia é solitário e competitivo: "A gente (ONEVC) colabora com investidores que investem antes ou depois. Quando encontro uma boa empresa, minha preocupação é tirá-la do mercado o mais rápido possível". 

Nesse momento, a colaboração entra na prática, uma vez que o investidor avisa outros fundos e investidores que conhece e confia para participarem da rodada e ele também recebe deals dessa forma. 

Outras duas questões muito importantes, segundo Minuzzi, é saber seu diferencial e respeitar o tempo das pessoas. Em relação ao diferencial, é preciso ter definido, como já abordado, o que você que fazer e aprender no Vale. Já em relação ao tempo, a investidora explica: "Ninguém tem tempo aqui, todo mundo faz tempo. Saiba por que uma reunião seria importante para você, qual conselho você quer e para o que. Tem que conhecer a pessoa com quem você está falando, gentilmente mostre que você sabe e que pesquisou". 

 

Corporate 

Corporações e empresas estabelecidas cada vez mais procuram formas de inovar e se manter atualizadas com as inovações da nova economia. Um exemplo disso é a a TOTVS, empresa brasileira de software e líder no setor na América Latina, uma das primeiras empresas brasileiras a se aventurar sozinha no polo. 

Hoje a TOTVS pensa sempre em design primeiro, faz parcerias com diversas empresas e é muito aberta. Apesar disso, o caminho até aqui foi longo: "O trabalho começou quando eu fui para lá e hoje olho para trás e vejo várias coisas que ajudaram a mudar essa mentalidade e a criar essa cultura mais aberta para trabalhar com startups e empresas menores", conta Vicente Goetten, atual diretor executivo da TOTVS Labs e peça fundamental da iniciativa, a empresa fundou seu laboratório em 2012 e transformou a corporação em símbolo de inovação. 

Apostando em inovação aberta 

Antes disso, no entanto, a TOTVS era uma típica grande empresa da velha economia: muito fechada e descrente na união entre corporações e startups. O ponto de partida foi quando a gigante decidiu que queria fazer um benchmark de uma tecnologia que ela tinha criado internamente. Para isso, ela começou a sondar duas universidades: Stanford e San Jose State University. 

À frente da iniciativa estava Goetten, que firmou parceria com Richard Dasher, professor de Stanford, para criarem um projeto de inovação aberta que buscasse formas de como empresas grandes poderiam tirar vantagem do ecossistema de startups, inclusive para diminuir o risco de R&D. 

O combinado era que, durante um ano, Goetten e Dasher reunissem sugestões de como a TOTVS poderia se beneficiar do Vale do Silício. Algumas foram escolhidas e até hoje são importantíssimas para a corporação. As princiapis são a TOTVS Labs e a TOTVS Ventures: o Labs é um laboratório de inovação, focado em desenvolver tecnologias inovadoras e disruptivas para empresas, já o TOTVS Ventures é a iniciativa de corporate venture da gigante. 

O escritório da TOTVS Labs no Vale do Silício é pequeno. A meta, no caso, não é ser gigante: a equipe conta com 30 pessoas no total, várias delas espalhadas pelo mundo. Além de uma parte do time, o lugar também abriga de tempos em tempos startups brasileiras que vão para o polo de inovação serem incubadas. 

Dos diversos projetos que já sugiram no laboratório, dois merecem destaque: a Fluig, plataforma de gestão, colaboração e produtividade; e a Carol, grande aposta de Goetten, que é uma plataforma de dados e de inteligência artificial, que analisa dados na mesma hora e também atua como assistente virtual, respondendo perguntas e oferecendo insights. 

Já a TOTVS Ventures começou com um case de sucesso: trazer a Good Data para o Brasil. A parceria foi um marco, transformando a TOTVS na primeira empresa da América Latina a fazer investimento de venture capital aqui no Vale. "A empresa não precisava da TOTVS: eles tinham o mercado norte-americano, europeu, etc.. (...) Foi um trabalho longo de convencimento para eles irem para o Brasil e para a TOTVS querer investir nisso", conta Vinícius Goetten. Não é preciso falar que a insistência valeu a pena. 

Como ir para o Vale 

Como foi uma das primeiras empresas a ir para o Vale do Silício, a TOTVS teve que desbravar o lugar quase que sozinha, fazendo parcerias aos poucos e construindo o próprio networking do zero. Hoje, há diversas formas de uma empresa ter contato ou se firmar no maior polo de inovação do mundo. 

Algumas delas são: parceria com empresas ou organizações da região, como a GSVlabs; com programas de mapeamento de inovações e missões personificadas, oferecidos pela StartSe; ou também indo por conta própria. Independente da escolha, é bom frisar o que já foi dito ao longo da reportagem: é imprescindível que a empresa saiba o que quer aproveitar da região e organize uma estratégia antes de se aventurar. 

 

Steve Jobs: a personificação do Vale do Silício  

De todos os empreendedores de sucesso que o Vale do Silício já produziu, talvez Steve Jobs seja o que mais personifica os principais elementos do lugar. O famoso CEO era filho de um imigrante, passou por altos e baixos na carreira, começou a Apple em uma garagem, tinha um lado hippie e acreditava na colaboração entre as pessoas. 

Ele nasceu no dia 24 de fevereiro de 1955, em São Francisco, filho biológico do imigrante sírio Abdul Fattah Jandali e de Joanne Schieble, ambos estudantes da Universidade de Wisconsin. Por conflitos com a família de sua mãe, que não aceitava o casamento com um muçulmano, Steve foi entregue à adoção. O casal que o acolheu foi Clara e Paul Jobs, que deram o famoso nome ao bebê. 

Adolescência, eletrônicos e espiritualidade 

Desde pequeno, Jobs demonstrou interesse em eletrônicos e, aos 12 anos, se deparou com um problema: ele queria construir um medidor de frequência, mas não tinha as partes necessárias. Para solucionar o problema, o garoto procurou o número de William Hewlett nas páginas amarelas e o ligou, pedindo as partes que faltavam. Além de conseguir o que queria, Steve também foi convidado a fazer um estágio de verão na HP, onde ele conheceu Steve Wozniak, engenheiro mais velho com quem fundaria a Apple anos depois. 

Em 1994, ele afirmou que ter essas iniciativas de ligar pedindo ajuda eram diferenças determinantes entre os que conseguiam coisas e os que não conseguiam algo: "A maioria das pessoas não têm essas experiências, porque elas nunca perguntam (...). Eu nunca achei ninguém que disse não ou que desligasse o telefone quando eu ligasse (...). Quando me ligam, eu tento ajudar ao máximo para retribuir o que eu tive". 

Depois de se formar no colégio, Jobs entrou em Reed College, mas saiu logo depois, porque desejava estudar com mais profundidade a espiritualidade e cultura oriental. Para isso, ele conseguiu um trabalho de meio período na Atari visando financiar a aventura para a Ásia. Não há muitos dados sobre a sua viagem, mas especula-se que ele passou alguns meses na Índia. Quando Jobs voltou para o Vale do Silício, onde reavivou a amizade com Wozniak. 

Na época, o engenheiro estava tentando construir um computador pequeno e o que era hobby para ele virou um negócio com o olhar ambicioso de Jobs. Em 1975, os dois oficializaram o nome de Apple para a empresa e começaram a trabalhar no primeiro modelo na garagem. Eles tinham US$ 1.350, arrecadados depois que Jobs vendeu seu carro e Wozniak, sua calculadora da HP. 

O início da Apple: Apple I, Apple II e Macintosh 

O primeiro produto da dupla foi o Apple I, que apesar de não ter feito muito sucesso, retornou um lucro suficiente para eles investirem na próxima empreitada: o Apple II. O segundo modelo, lançado em 1977, foi o primeiro computador pessoal com gráficos coloridos e teclado, fácil de usar e atrativo para o grande público. O sucesso foi imediato e no primeiro ano as vendas chegaram a US$ 3 milhões. 

Poucos anos depois, na década de 1980, a empresa passava por dificuldades, uma vez que versões como o Apple III e o LISA foram muito mal nas vendas. Na época, Jobs estava no comando da equipe responsável pelo Apple Macintosh, lançado em 1984 depois de uma campanha massiva de marketing. 

Apesar de ter sido um divisor de águas em termos de usabilidade de um computador pessoal, uma vez que era o primeiro com uma interface gráfica controlada por um mouse, as vendas não corresponderam às expectativas. Com o alto investimento em marketing, o valor do computador subiu, chegando no valor de US$ 2.495, algo inimaginável para o mercado consumidor. 

O conselho de diretores da Apple não viu com bons olhos o caminho que o negócio tinha tomado e Jobs foi afastado do conselho pelo CEO John Sculley. Em 1985, o fundador deixou a empresa. 

NeXTPixar e retorno à Apple 

Com o dinheiro que recebeu com as vendas das ações da Apple, Jobs deu início a outra empreitada, a NeXT. Depois de um primeiro computador cheio de inovações, mas com um valor alto demais (mais de US$ 9 mil!), Jobs mudou o foco da empresa de hardwares para softwares. 

Ao mesmo tempo, o empreendedor também decidiu se aventurar em outros projetos. Foi quando, em 1986, ele comprou a Pixar Animation Studios de George Lucas e, em parceria com a Disney, lançou Toy Story, o primeiro filme animado por computadores. 

O filme marcou o momento da virada para o empreendedor. Assim que foi lançado, o longa explodiu nos cinemas, arrecadando US$ 191 milhões só nos EUA, sendo a maior bilheteria de 1995. Aproveitando a onda de sucesso, Jobs fez a oferta pública inicial alguns meses depois e, ao final do primeiro dia, sua parte da empresa (equivalente a 80%) já valia US$ 1 bilhão. 

Em questão de dias, a NeXT recebeu uma oferta de compra pela Apple. O negócio foi fechado por US$ 400 milhões e Jobs voltou para o conselho como consultor do CEO da época, Gilbert F. Amelio. 

Renascimento da Apple 

A volta de Jobs para a Apple não foi sorte: a empresa estava indo de mal a pior e precisava de um milagre para se reerguer. Em 1997, a maçã anunciou a perda de US$ 700 milhões em um trimestre, o que resultou com o pedido de demissão de Amelio e a subida de Jobs para o cargo de CEO interino. 

Uma das primeiras medidas como CEO foi fechar uma parceria com a Microsoft, na qual a rival investiria US$ 150 milhões em uma ação minoritária e sem direito à votação na empresa. O acordo também previa que ambas cooperariam em diversas vendas e frentes de tecnologia. 

A direção de Jobs levou a Apple de volta ao topo, com produtos como o iMac, uma linha de computadores desktops com preço acessível. Depois de um ano de quase ter falido, a empresa já tinha voltado a gerar lucros, chegando a vender mais de US$ 5 bilhões. Esse foi só o começo das novidades que a Apple traria sob olhar do CEO. 

Na primeira década dos anos 2000, a gigante se tornaria sinônimo de inovação com produtos como o iPod, player portátil de músicas lançado em 2001, o iTunes Store, marketplace que revolucionou a indústria musical em 2003, o iPhone, em 2007, e o tablet iPad, em 2010. 

Câncer e falecimento 

Ao mesmo tempo em que o período entre 2000 e 2011 foram marcados pelo ápice da Apple com Jobs na direção, o CEO passava por problemas de saúde que se tornariam irreversíveis. Em 2004, o empreendedor mandou um e-mail para toda a equipe comunicando sobre uma operação que ele fez para remover um câncer do pâncreas. Depois dessa operação, Jobs estaria curado. 

No entanto, sete anos depois, o câncer voltou com força. Em janeiro de 2011, ele pediu um afastamento da Apple por razões médicas, reiterando que ainda seria CEO e tomaria as decisões mais importantes da empresa. Em agosto do mesmo ano, ele deixou o cargo de CEO, nomeando o COO Tim Cook no lugar. 

No dia 5 de outubro de 2011, Steve Jobs faleceu aos 56 anos de idade devido a complicações do câncer de pâncreas. 

Apesar da breve vida, Steve Jobs ficou na história. Seus feitos e visão resumem muito do que é o Vale do Silício: arriscar, errar, aprender com os erros, colaborar e sempre ter em mente que vai dar certo. Acima de tudo, a mensagem de continue faminto, continue ingênuo.

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