Como o WeChat usa sua influência para eliminar a concorrência

João Ortega

Por João Ortega

2 de março de 2020 às 15:47 - Atualizado há 7 meses

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O WeChat é o aplicativo que melhor conseguiu concretizar o conceito de super app. O app chinês, que começou a operar em 2011 como um serviço de mensagens, atingiu a marca de 1,2 bilhão de usuários e conta com um ecossistema interno de miniprogramas. Na prática, ele reúne quase todos os serviços, ferramentas e jogos que uma pessoa pode precisar no smartphone em sua rotina na China.

Desta forma, o WeChat deve ser comparado não aos demais aplicativos, mas sim a uma loja de apps – como a App Store, no iPhone, e a Google Play, em dispositivos com sistema Android. Neste sentido, a Tencent, empresa gigante por trás do super app, é quem define quais miniprogramas estarão em destaque no WeChat e, do contrário, quais terão links bloqueados ou serão plenamente removidos da plataforma.

O poder de influência da Tencent sobre uma base tão grande de usuários vem criando uma polêmica na China. A empresa é acusada por rivais de utilizar seu “monopólio digital” de forma desleal no mercado, boicotando links e miniprogramas de terceiros sem razões concretas para isto. Em abril de 2019, inclusive, a companhia foi processada por este motivo, mas o caso segue na justiça sem decisão da corte chinesa.

Agora, em meio à crise causada pela epidemia do coronavírus que teve origem em Wuhan, na China, o WeChat usa sua influência para dominar o mercado de ferramentas de comunicação corporativa. Este segmento, especialmente para videoconferências, ganhou relevância e tráfego no país devido a recomendação de que as pessoas trabalhassem de casa, evitando aglomerações.

Tencent x ByteDance

A ByteDance, startup por trás do TikTok (cuja versão chinesa chama-se Douyin), é uma das empresas de tecnologia que representa uma ameaça à Tencent, por conta da popularidade do aplicativo dentro e fora da China. Por consequência, os programas da ByteDance são alguns dos que mais sofrem boicotes no WeChat.

O Douyin, por exemplo, não aparece entre os miniprogramas do super app desde janeiro de 2019. Além disso, qualquer link para a rede social de vídeos curtos não abre no navegador próprio do WeChat. O usuário que quiser acessar conteúdo da plataforma da ByteDance precisa copiar e colar o link em um navegador externo.

Na mesma linha, o Feishu, app de comunicação corporativa da ByteDance, comunicou à imprensa chinesa neste sábado (29) que também foi banido do WeChat. De acordo com a startup, a concorrente não avisou sobre a exclusão do super app e, assim, “afetou significativamente a eficiência do trabalho e a experiência do usuário” durante a época de maior necessidade da plataforma no país, visto que algumas empresas ainda não retomaram as operações em seus escritórios.

Em resposta, a Tencent reitera sua política em relação aos apps de terceiros no WeChat: “Serão punidos sites ou aplicativos que enviam links para enganar ou convencer os usuários a baixar ou redirecionar para um aplicativo externo”. A ByteDance, por sua vez, nega ter violado estas regras de conduta.

Segundo o instituto de pesquisa chinês Qianzhan, o mercado de ferramentas de comunicação corporativas tende a crescer mais de 12% ao ano nos próximos quatro anos. A estimativa é que, em 2024, o setor chegue a US$ 7 bilhões no país. No momento, os líderes em downloads nas lojas de aplicativos são, respectivamente, DingTalk, da Alibaba, WeChat Work e Meeting, ambos da Tencent. O Feishu ainda está na 15ª posição da lista, mas subiu 40 lugares em menos de um mês.

Banidos do WeChat

De acordo com o portal South China Morning Post, dois veículos de mídia da China – 36Kr e ITHome – foram banidos do WeChat logo após reportarem a exclusão de links do Feishu no super app. A Tencent, por sua vez, respondeu que ambos os sites de notícias violaram as políticas do super app “em várias ocasiões”.

A tecnologia por trás do WeChat, super app com mais de 1 bilhão de usuários

Outros players que foram bloqueados do WeChat nos últimos meses são Taobao, marketplace da Alibaba e Haokan, app de vídeos curtos da Baidu. Em contraste, links do Pinduoduo e JD.com, marketplaces concorrentes da Alibaba, são liberados no super app. A Tencent é acionista de ambos.