Vasto mercado doméstico e dados transformam a China no maior hub fintech do mundo

Os pagamentos móveis e os empréstimos online, que tratam diretamente dos gastos dos consumidores e das demandas de crédito, são os dois setores mais proeminentes da indústria de fintech na China

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Por Lucas Bicudo

20 de agosto de 2018 às 16:27 - Atualizado há 2 anos

fintech

À medida que bandeiras norte-americanas, como American Express, MasterCard e Visa, se esforçam para tentar se estabelecer na China, os consumidores chineses estão usando cada vez mais seus smartphones para comprar bens e serviços. Como efeito, o país saltou do dinheiro para os pagamentos móveis, contornando o sistema de cartões de débito e crédito.

Fato é: pagamentos móveis constituem apenas um dos sete principais mercados para a indústria de fintech da China: empréstimos online, financiamento ao consumidor, fundos monetários online, seguros online, gerenciamento financeiro pessoal e corretagem online. Dos 27 “unicórnios” de tecnologia financeira no mundo, nove são chineses (incluindo um de Hong Kong) e 12 são norte-americanos.

Por trás do milagre das finanças da China está o ecossistema tecnológico único do país: uma população com conhecimento de tecnologia, um setor bancário subdesenvolvido e um ambiente regulatório inicialmente descontraído.

O rápido processo de urbanização do país estimulou o crescimento de uma grande classe média. Em dezembro de 2017, a China tinha 772 milhões de usuários da Internet, ou mais do que toda a população da Europa. No entanto, esse número representa apenas 55,6% da população da China. Talvez o mais importante de tudo, mais de 95% desses usuários acessam a web por meio de um dispositivo móvel.

Os bancos da China contrastam fortemente com a infraestrutura tecnológica bem desenvolvida e a crescente demanda por serviços financeiros. Durante muito tempo, os bancos comerciais chineses concentraram-se principalmente no serviço de empresas estatais chinesas, negligenciando as crescentes necessidades financeiras de pequenas e médias empresas (PMEs) e empreendedores.

Segundo dados do Banco Mundial, em 2014 apenas 9,6% dos adultos chineses tinham acesso ao crédito de uma instituição financeira, que inclui não apenas bancos, mas também cooperativas de crédito e instituições de microfinanças. Da mesma forma, de acordo com a Enterprise Survey, também do Banco Mundial, as PMEs chinesas receberam menos de 25% dos empréstimos concedidos pelos bancos chineses, apesar delas representarem mais de 60% do PIB da China e 80% do emprego urbano. Esta discrepância nos empréstimos bancários foi atribuída à falta de colaterais qualificados e históricos de crédito entre as PMEs.

As fintechs, de olho nesse excedente, entraram em cena para preencher o vazio. Os pagamentos móveis e os empréstimos online, que tratam diretamente dos gastos dos consumidores e das demandas de crédito, são os dois setores mais proeminentes da indústria de fintech na China. Falemos sobre eles:

Pagamentos móveis

Os números falam por si quando se trata de pagamentos móveis na China. Em 2016, os consumidores chineses gastaram aproximadamente US$ 22,8 trilhões (157,55 trilhões de RMB) em plataformas de pagamento móvel, excedendo em muito o volume de transações nos Estados Unidos (US$ 112 bilhões). Mais de 90% dessa soma resultou de aplicativos de pagamento móvel pertencentes aos dois maiores conglomerados de tecnologia da China: o Alipay, da Alibaba (54%), e o TenPay (37%), da Tencent.

A Cyber Monday atingiu um novo recorde de US$ 6,59 bilhões em vendas, tornando-se o maior dia de vendas online dos EUA. Em comparação, a Black Friday e o Dia de Ação de Graças trouxeram US$ 5,03 bilhões e US$ 2,87 bilhões em receita, respectivamente. Os EUA comemoraram estes números. Porém, o maior evento de compras online do mundo foi o Dia dos Solteiros da China no início de novembro, aonde a gigante Alibaba registrou vendas de US$ 25,4 bilhões.

A Alibaba lançou o Alipay em 2004 como um serviço do tipo PayPal, para facilitar as transações em seu e-commerce Taobao. O Alipay se tornou a maior plataforma de transações online do mundo e permaneceu com o posto até uma década depois, em 2014, quando seu monopólio foi destituído pela própria Tencent.

O “Weixin Pay” entrou em cena como o hongbao digital, ou “envelope vermelho” – uma referência ao material de papelaria comumente usado para presentes em dinheiro durante o ano novo chinês. A capacidade de enviar hongbao através de contas WeChat revolucionou uma prática secular. No ano passado, aproximadamente 46 bilhões de RMB foram trocados via hongbao digital durante o período de seis dias de férias.

A competição por participação de mercado impulsionou inovações que conectam pagamentos online com transações de varejo presenciais. Os QR Codes têm sido fundamentais para facilitar a interação offline para online e são amplamente usados ​​nas empresas de varejo da China, desde fornecedores de alimentos de rua, até a Starbucks.

Os QR Codes podem ser usados ​​em qualquer direção: um lojista pode exibir um código que os clientes digitalizam com seu celular para iniciar um pagamento; ou uma conta WeChat ou Alipay de um cliente pode gerar um código exclusivo específico de transação que um varejista digitaliza para concluir transação. Em ambos os casos, o celular funciona como uma espécie de cartão de pagamento. Transferência de dinheiro entre as partes também é tão simples quanto enviar uma mensagem de texto.

Ao contrário do mercado de pagamentos móveis desagregado nos Estados Unidos – onde o PayPal e o Visa Checkout são usados ​​para compras online, o Apple Pay e o Android Pay servem como carteiras de celulares e o Venmo e o Facebook Messenger são comuns para transferir dinheiro entre amigos –, a China integra todas essas funções. A agregação fornece maior conveniência para os usuários.

Empréstimos online

A China é responsável por três quartos do mercado global de empréstimos online. A maioria são peer-to-peer (P2P), plataformas de empréstimos que conectam potenciais tomadores de empréstimos, com credores que buscam retornos maiores do que as taxas de juros oferecidas pelos bancos.

À medida essas plataformas foram tomando forma, o capital privado – que antes ficava ocioso devido a oportunidades limitadas de investimento – começou a aumentar. As operações de P2P foram de 200 em 2012 para mais de 3 mil em 2015. Os empréstimos P2P alcançaram RMB 252,8 bilhões em 2014, número que foi quadruplicado para 982,3 bilhões de RMB em 2015.

Com uma grande quantidade de dados de usuários, as maiores fintechs da China estão à frente da curva na criação de suas próprias medições de crédito. A Alibaba lançou o Sesame Credit em 2015, que tem acesso direto aos dados relacionados aos mais de 500 milhões de consumidores que usam mensalmente os mercados da Taobao e Tmall, bem como históricos de pagamento de os mais de 400 milhões de usuários registrados no Alipay.

O Sesame Credit atribui aos usuários uma pontuação de 350 a 950, com base em cinco critérios: histórico de crédito, hábitos transacionais no online, informações pessoais, capacidade de honrar um contrato e afiliações de rede social. Aqueles com alta pontuação de crédito têm acesso a privilégios, incluindo crédito online, serviço em hotéis e aeroportos, isenção de depósitos em aluguéis e solicitações de visto agilizadas para Cingapura e Luxemburgo. A Tencent pisou no campo de batalha de pontuação de crédito em agosto passado, quando introduziu Tencent Credit, que funciona de maneira parecida.

Nos Estados Unidos, a maioria dos credores confiam nas pontuações FICO para determinar a qualidade de crédito de um mutuário. A pontuação é baseada em seu histórico de crédito, que inclui fatores como utilização de crédito, pagamentos no prazo e idade média das contas.

Em contrapartida, Sesame Credit e Tencent Credit aproveitam o conjunto massivo de dados de usuários das gigantes da tecnologia para atribuir pontuação de crédito, incorporando critérios como a rede social de um mutuário, histórico de compras online, histórico educacional, nível de renda e profissão.

A Alibaba e a Tencent são apenas duas das oito empresas de tecnologia que o governo chinês utilizou para desenvolver programas pilotos em relatórios de crédito ao consumidor. As empresas desenvolveram seus sistemas de crédito quase como programas de fidelidade – os clientes obtêm acesso a promoções e produtos especiais à medida que sua pontuação de crédito aumenta. No entanto, o governo está determinado a mesclar os esforços individuais em um sistema abrangente de relatórios de crédito.

Em janeiro deste ano, a National Internet Finance Association of China (NIFA) apresentou uma solicitação ao Banco Popular da China para obter uma licença para operar a primeira agência centralizada de informação de crédito pessoal do país.

O aplicativo, divulgado pelo banco central em seu site, mostra que a NIFA se tornará a acionista líder, com uma participação de 36% na nova empresa, enquanto oito empresas de relatórios de crédito, incluindo Sesame Credit e Tencent Credit, terão 8% cada uma.

Eles pretendem servir não apenas a bancos comerciais tradicionais, mas também a fintechs, como microcredores online, intermediários de empréstimos P2P e plataformas de compras online.

Maior fintech do mundo é chinesa!

A Ant Financial é líder mundial em pagamentos online e mobile – possui menos de 5 anos e já vale mais que o Goldman Sachs. Ela nasceu a partir da Alibaba e, no seu pouco tempo de vida, já investiu e firmou negócios com diversas empresas ao redor do mundo.

A empresa investiu na indiana Paytm em 2015 – a Alibaba se juntou a empreitada e ofereceu o dobro do investimento inicial -, e também expandiu para o Sudeste Asiático ao adquirir uma participação na Ascend Money, da Tailândia. Esses negócios colocam a companhia em mercados além da China, onde o Alipay é dominante com 450 milhões de usuários.

É possível que a fintech se torne o maior unicórnio do mundo. A Ant Financial está fechando uma rodada de investimentos em US$ 10 bilhões, o que resultaria em um valuation de US$ 150 bilhões.

A empresa tem um foco muito claro: habilitar indivíduos e pequenos negócios ao redor do mundo a terem igual acesso a serviços financeiros. Um modo de fazer isso é facilitando a realização de pagamentos mobile.

Para Eddie Deng, Sênior Manager da Ant Financial, não há mistério: “A Ant Financial é uma empresa privada com menos de cinco anos de idade, valuation de US$ 150 bilhões, valendo mais que a maioria das instituições financeiras tradicionais. Por quê? Porque nós estamos fazendo de um jeito diferente. Eles estão atendendo os top 20% e nós estamos focados nos 80% restantes”.

A Ant Financial não se considera uma fintech, mas sim, uma techfin, segundo Deng. “Nós não nos consideramos uma fintech, uma empresa ou instituição financeira. Nós nos consideramos uma techfin: somos uma empresa de tecnologia que habilita instituições financeiras a fornecer serviços financeiros inclusivos para indivíduos e microempresas”.

Segundo o Technology Review, Inteligência Artificial é usada em todos os cantos da Ant Financial: desde na otimização de negócios até na geração de novos produtos.

Internacionalização?

Em destinos populares como Hong Kong, Tailândia, Japão e Coréia, o WeChat Pay e Alipay estão ampliando agressivamente seu alcance, formando parcerias locais em lugares frequentados por turistas, incluindo lojas Duty-Free, pontos turísticos, shoppings e restaurantes.

As fintechs ad China estão ansiosas para replicar seu sucesso em outros mercados. A abordagem da Alibaba é simples: vá atrás de populações não atendidas por instituições financeiras, desenvolva e promova soluções móveis e colabore com parceiros locais.

Desde 2015, seu braço financeiro e operadora da Alipay, a Ant Financial, investiu em uma série de fintechs na Índia, Filipinas, Tailândia, Cingapura e Coreia do Sul. Nos próximos quatro anos, a Alibaba espera que mais da metade de seu crescimento em usuários seja proveniente de mercados estrangeiros.

É claro que as empresas de tecnologia financeira da China enfrentarão novos obstáculos ao entrarem em economias desenvolvidas como os Estados Unidos. Por exemplo, o esforço da Ant Financial para assumir a MoneyGram, uma empresa de transferência de dinheiro sediada em Dallas, Texas, foi submetido à CFIUS – a autoridade responsável por revisar e aprovar investimentos estrangeiros nos Estados Unidos – três vezes antes de ser rejeitada no início de 2018.

Isto segue um caso de setembro passado, quando o CFIUS rejeitou uma oferta por um grupo que incluísse a Tencent e NavInfo, um provedor de mapeamento baseado em Pequim, para comprar uma participação de 10% da Here, uma empresa de mapeamento com sede em Amsterdã, Chicago.

À medida que 2018 se desdobra, as fintechs chinesas que tentam entrar nos mercados desenvolvidos provavelmente enfrentarão mais retrocessos, dado o clima geopolítico atual e as crescentes preocupações com dados pessoais sendo adquiridos por grupos estrangeiros. Enquanto isso, o vasto mercado doméstico da China, junto com os mercados dos países em desenvolvimento, ainda deixa muito espaço para que essas empresas se expandam nos próximos anos.

StartSe de olho na China!

A StartSe traz para o Brasil o China Day Conference, evento completamente focado em discutir pontos como esses com maior profundidade! Se você quer saber ainda mais sobre a China, não deixe de conferir nossa semana de imersão por lá, liderada por Ricardo Geromel.

(via Brookings)

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