Shenzhen, Beijing, Shanghai e Hangzhou: conheça os principais polos de inovação da China

Avatar

Por Lucas Bicudo

26 de julho de 2018 às 18:04 - Atualizado há 2 anos

Logo ReStartSe

GRATUITO, 100% ONLINE E AO VIVO

Inscreva-se para o Maior Programa de Capacitação GRATUITO para empresários, gestores, empreendedores e profissionais que desejam reduzir os impactos da Crise em 2020

Com uma área de 9.536.499 km², distribuída em 22 províncias, 5 regiões autônomas, 2 regiões administrativas especiais e 4 municipalidades, a República Popular da China possui mais de 1,4 bilhão de habitantes, o equivalente a 20% da população mundial. Dentre seus diversos setores de atuação, destaque para o cultivo de arroz, batata-doce, trigo, milho, equinos, bovinos, suínos e ovinos; mineração de carvão, petróleo, minério de ferro, chumbo, zinco e enxofre; e produção de algodão, cimento, aço e equipamentos eletrônicos.

Em 2017, um crescimento de 6,9% em seu PIB, registrado em US$ 12 trilhões. Essa talvez seja a China do consenso geral, a China que estampa páginas e páginas de jornais aqui pelo Brasil, graças à estreita relação. Desde 2009, a China tornou-se o maior parceiro comercial do Brasil, desbancando os Estados Unidos. O governo local atua de maneira agressiva para fomentar negócios entre os dois países.

Há muito o que falar sobre o país – só essa introdução renderia boas horas de lucubração, discutindo balanço comercial, medidas de importação, exportação – mas o escopo de análise por aqui é a Nova Economia Digital – e o que está acontecendo na China em termos de inovação e tecnologia é algo com capacidade de catapultar o país para outro patamar de potência no cenário mundial.

Em algumas áreas, como fintech e varejo, a China já é, sem a menor sombra de dúvidas, a número um do mundo. Apenas as quatro maiores empresas de tecnologia do país já valem mais de US$ 1 trilhão e lançaram mais de 1 mil negócios, em mais de 20 setores nos últimos 10 anos.

O governo atua de maneira estratégica para posicionar a China na liderança em tecnologia de ponta até 2030, especialmente em Inteligência Artificial. Além disso, o recente anúncio de uma eventual proibição de motores a gasolina poderia ajudar a garantir uma vantagem a longo prazo no mercado global de veículos elétricos.

O governo chinês é o maior Venture Capital do mundo. Investiu US$ 300 bilhões em quase 800 companhias. Cerca de US$ 77 bilhões em investimentos de capital de risco foram injetados em empresas de tecnologia chinesas, de 2014 a 2016. Para efeito comparativo, entre 2011 e 2013 foram investidos US$ 12 bilhões. Em menos de 1 ano, o número de startups bilionárias na China saltou de 90 para mais de 160.

Empreendedores têm uma cultura e hábito de dedicação e foco total. A China terá, até 2020, cerca de 700 milhões de pessoas na classe média – aumento do poder aquisitivo, aumento do dinheiro circulando. O volume de pagamentos móveis atingiu quase quatro vezes o valor do ano passado, chegando a US$ 8,6 trilhões, em comparação com apenas US$ 112 bilhões nos Estados Unidos.

Quem quer construir negócios globais não pode ignorar a China. Um vasto mercado doméstico, trabalhadores qualificados e de baixo custo e um ecossistema de manufatura da próxima geração resulta em inovação. Cultura de inovação. A China, hoje, respira inovação. E o que vem a partir daí é um lampejo do futuro, das possibilidades que podemos tatear.

Separamos 4 dos principais polos de inovação do país e como esses hubs estão escrevendo a história de uma China do futuro e talhada na tecnologia. Confira:

Shenzhen

Shenzhen

Shenzhen é considerada fábrica de hardware do mundo. A região Pearl River Delta, onde está inserida por exemplo, tem um ecossistema de fabricação de classe mundial para componentes eletrônicos, com a infraestrutura física, logística e recursos de fabricação necessários. Ter um ecossistema de manufatura confere vários benefícios. Em primeiro lugar, as empresas chinesas podem realizar prototipagem rápida e encurtar o tempo para lançamentos de novos produtos.

Um protótipo que leva duas semanas para se desenvolver no Vale do Silício pode ser criado durante a noite em Shenzhen. Economias de escala na fabricação de componentes proporcionam às empresas chinesas uma vantagem de custo de 50 a 60%, ao mesmo tempo em que garantem a qualidade.

Essa é Shenzhen, também a maior produtora de celulares do mundo. Em 2016, a cidade foi responsável por produzir cerca de 1 bilhão de smartphones. Esse número é ainda mais assustador quando colocado em perspectiva: no mundo todo, são produzidos em média 1,8 bilhão. Olha o tamanho do mercado! São estimadas mais de 6 mil empresas relacionadas à produção de hardware para smartphones na cidade chinesa.

Mais alguns dados impressionantes: no período entre 1980 e 2016, o PIB de Shenzhen cresceu em uma média anual de 22% – hoje está na casa dos US$ 300 bilhões. Mais impressionante ainda: a cidade gasta mais de 4% do seu PIB em P&D, o dobro da média do continente; em Nanshan, um distrito de Shenzhen, esse número é superior ainda a 6%.

São 125 empresas de tecnologia listadas e, que quando somadas, registram um valor de mercado de quase US$ 400 bilhões.  As empresas em Shenzhen classificam mais patentes internacionais do que a França ou a Grã-Bretanha

Números expressivos e o título de capital de hardware do mundo. Acontece que Shenzhen nem sempre foi essa potência. Antes de 1980, quando foi transformada em uma Zona Econômica Especial – uma tentativa do governo para adotar medidas de gestão civil -, a cidade possuía 30 mil habitantes, com características bem rurais. É depois dos incentivos governamentais que Shenzhen se tornou um lugar onde investimentos estrangeiros e empresas privadas podem prosperar.

Hoje, somente em Shenzhen, são 11 milhões de habitantes – isso se deixar de lado toda a região Pearl River Delta, maior área urbana contínua do mundo, com 9 grandes cidades interligadas. Se contar com o fato, esse número pula para 60 milhões.

O governo tem um plano de, até 2030, transformar a região em uma megalópole conectada. Embora o crescimento econômico e industrial da cidade tenha sido alavancado depois de se tornar uma ZEE, Shenzhen ainda enfrentou algumas barreiras pelo seu caminho de desenvolvimento, como a falta de uma mão de obra realmente qualificada.

O crescimento da classe média na China nos últimos 10 anos é sem precedentes. De maior exportador do mundo, o país hoje possui a maior classe média consumista do planeta. Com isso, criou-se uma grande leva de empreendedores que já tinham a possibilidade de arriscar sem colocar toda a conta em risco. Sobretudo, esses empreendedores conheciam as necessidades e particularidades do consumidor chinês.

O fundador da Alibaba, Jack Ma, é um desses exemplos. O bilionário soube o que o eBay – na época considerados concorrentes – ignorou ao tentar entrar na China. A Alibaba soube atingir os pequenos empresários do país, soube fortalecer ainda mais essa classe média empreendedora em ascensão. Foi um ciclo exponencial, que criou um intenso fluxo de mão de obra especializada e interessada na inovação doméstica.

Beijing

Beijing

A capital Beijing (ou Pequim) pode ser também considerada a capital das startups, principalmente pela abundância de capital disponível e pelo baixo custo de vida para empreendedores. É um ecossistema maduro e completo, que converge governo, mundo acadêmico e empresas de tecnologia.

O governo chinês colabora com treinamento da força de trabalho, alocação de capital para pesquisa e desenvolvimento de universidades e centros focados em tecnologia, além de proporcionar infraestrutura de qualidade e incentivos fiscais para esses tipos de negócio.

56% dos unicórnios da China estão localizados na cidade e entre as estrelas de tecnologia que nasceram por lá estão: Lenovo, Tencent, Alibaba, Xiaomi, Meituan-Dianping, Didi-Kuaidi e Baidu. Peking, Tsinghua, Chinese Academy of Science (CAS) e Renmin University são algumas das melhores e mais prestigiosas universidades da China e que também merecem destaque por aqui. Em 2015, 12% dos universitários formados na Universidade de Beijing abriram ou trabalharam em startups. Em 2005, esse número era apenas 4%.

Mas sem dúvidas o grande destaque vai para Zhongguancun, região ao norte da cidade e que é considerada o Vale do Silício chinês. São apenas 1 milhão de pessoas e cerca de 20 mil empresas de tecnologia. Faça a proporção.

A comunidade de Zhongguancun tornou-se um dos principais destinos para os talentos não só́ da China, mas também de todo o mundo. A primeira faísca que tornou a região um incêndio de inovação aconteceu em 1980, com Chen Chunxian, pesquisador da Chinese Academy of Science.

Lá, Chen fundou a primeira instituição científica e de tecnologia de gestão civil, frente as reformas econômicas as quais o país passava. 6 anos depois, em 1986, já eram mais de 100 empresas privadas de tecnologia se instalando nas proximidades da região.

Em 1988, a área foi oficialmente reconhecida como Zona Experimental para o Desenvolvimento de Indústrias de Novas Tecnologias, um lugar onde novas medidas e novas instituições poderiam ser testadas. Para efeito de comparação, em 2017, o Z-Park (como também é conhecido) registrou abertura de 13 mil novas startups, que somadas, totalizaram um valor de US$ 560 bilhões.

De novo, estamos falando de um ecossistema maduro e completo. Para que essa proliferação acontecesse, as universidades de Tsinghua e Peking tiveram um papel fundamental, principalmente na hora de estreitar relações entre o mundo acadêmico e a realidade de empresas de tecnologia. Além da proximidade geográfica, estamos falando de universidades muito técnicas, que serviram de princípio ativo para a transformação da região em um polo tecnológico. Para se ter uma noção, a Lenovo saiu da CAS.

A Xiaomi, também baseada no centro de Zhongguancun, é considerada a 2ª startup mais valiosa do mundo. No último dia 09 de julho, a empresa abriu seu capital na bolsa de valores de Hong Kong e passou a valer US$ 54 bilhões.

A Xiaomi foi criada em abril de 2010. São apenas 8 anos de existência. 8 anos suficientes para a empresa reafirmar sua posição no mercado e se tornar uma inesperada pedra no sapato dos grandes fabricantes de smartphones. Hoje, já é a terceira potência do segmento em número de vendas, depois da Samsung e da Apple. Em 2014, foram registradas 61,1 milhões de unidades vendidas – cinco de cada oito celulares Android eram Xiaomi.

Até aqui beleza: um ecossistema maduro, que converge o mundo acadêmico e empresas de tecnologia. Tudo lindo no discurso, mas nada prosperaria sem a injeção abundante de capital. Os investimentos chineses orbitam Zhongguancun, que também é notória por abrir as portas para capital estrangeiro. A região é casa de centros de P&D de empresas do mundo todo, como Google, Microsoft e IBM.

Shanghai

Shanghai

Shanghai é, sem dúvidas, a capital financeira e o berço das fintechs da China Continental. Com a maior bolsa de valores do país, a Shanghai Stock Exchange, estima-se que mais de 10 empresas chinesas de tecnologia irão abrir o processo de IPO nos próximos anos e apenas essas terão um valor de mercado combinado de mais de US$ 500 bilhões.

Em 2009, a Bolsa de Valores de Shanghai ficou em terceiro lugar do mundo em termos de volume de negociação e sexto em termos de capitalização total – e o volume de comércio de cobre, borracha e zinco estavam todos os classificados em primeiro lugar no mundo. Desde 1992, a cidade registrou crescimento econômico de cerca de 10% todos os anos.

Em 2014, o governo de Shanghai anunciou que até 2020 formaria as bases essenciais em termos de infraestrutura para inovação. O plano vai além: entre 2020 e 2030 a cidade irá focar em se tornar um polo global de destaque como centro de inovação de alta tecnologia.

As indústrias que hoje impulsionam a economia de Shanghai são as de finanças e logística. O aeroporto é um dos mais movimentados do mundo e o porto da cidade é o que transporta mais containers em todo o mundo. Algumas das melhores universidades do país estão em Shanghai: Fudan University, Shanghai Jiao Tong University, e East China University of Science and Technology.

Nesse ecossistema vibrante, aberto à influência internacional, surgiu uma florescente cena de startups. Para essas empresas, faz muito sentido estar em uma cidade tão colossal. Lá, um nicho de mercado ainda tem centenas de milhares de clientes.

Entretanto, o ecossistema de startups de Shanghai não surgiu como o mero resultado das ações de empreendedores experientes. Não surgiu de uma maneira puramente natural. A cidade e a China como um todo estão crescendo graças aos investimentos maciços do governo em infraestrutura e recursos – e o que acontece com a economia geral, também vale para a inovação.

Shanghai possui diversas aceleradoras e incubadoras apoiadas por fundos do governo. Milhões de startups estão transformando os planos governamentais em ação. Recentemente, aceleradoras e incubadoras privadas começaram a também surgir na cidade. Na China, o capital privado segue o capital do governo.

Os investidores privados oferecem escala às prioridades politicamente designadas. A palavra “inovação” esteve no topo da lista das palavras mais cotadas no último plano quinquenal. O governo chinês alavancou a inovação no passado e está fazendo isso agora novamente.

Todo esse papo desemboca em um tema que é destaque na cidade: as fintechs. Lá está rolando muita discussão sobre blockchain. Para o governo, é cada vez mais difícil manter a supervisão do que está acontecendo na economia. É por isso que espera que a criação de sua própria criptomoeda possa suavizar o controle econômico e erradicar a corrupção. Quando o governo adota pagamentos digitais, as instituições financeiras de Shanghai – e até mesmo a Alibaba e a Tencent – podem ter de repensar seus modelos de negócios.

Hangzhou

Hangzhou

Com uma vasta capacidade de fabricação de alta tecnologia, Hangzhou tornou-se um dos maiores centros de inovação em Inteligência Artificial e robótica do mundo. A avançada malha de manufatura de Hangzhou, localizada no leste da cidade, se expande por mais de 500 quilômetros quadrados e pega o rio Qiantang e os distritos de Jianggan, Binjiang, Xiaoshan, Yuhang e Fuyang.

Hangzhou já é um centro de tecnologia de informação de ponta e de veículos autônomos e elétricos, mas agora o governo começa a expandir essa oferta para Realidade Virtual, voos espaciais, blockchain e tecnologia quântica. A cidade possui dezenas de parques industriais especializados em alta tecnologia, como a Zona de Alta Tecnologia de Hangzhou, o Centro Industrial de Dajiangdong, a Zona de Desenvolvimento Econômico de Hangzhou e a Zona de Desenvolvimento Econômico de Xiaoshan.

Seis novos parques internacionais de cooperação industrial estão planejados para os próximos sete anos, enquanto outros três centros serão construídos em outros lugares na província de Zhejiang.

A cidade, que é sede da Alibaba, da Universidade de Zhejiang, e da Future Sci-Tech City, atraiu empresas de e-commerce (mais de um terço de todos os e-commerce chineses estão baseados em Hangzhou) e de Internet das Coisas (IoT) de todo o mundo para criar uma economia dinâmica e inovadora.

Funcionários do governo que administram a Future Tech City construíram um pacote completo de serviços de apoio na operação do distrito, que inclui registro de patente, petição da FDA, registro de empresa, serviços de processamento em nuvem da Alibaba e espaço de laboratório totalmente equipado para prototipagem e desenvolvimento. De acordo com o jornal Daily China, Hangzhou é “o modelo de inovação da China”.

Com mais de 30 incubadoras e mais de 200 fundos com capital avaliado em US$ 25 bilhões, a “cidade dos sonhos” oferece condições quase que inacreditáveis para startups e empreendedores que passam no seu processo seletivo. Veja só: o governo aceita não só investir na startup, como também dá escritório de graça, condições de visto preferencias e chega a pagar até por moradia! Tudo isso sem ter nenhuma contrapartida de equity da startup.

A taxa de crescimento no número de startups em Hangzhou cresceu mais do que em qualquer outro lugar da China, atingindo 107%. A taxa de crescimento em quantidade de capital levantado por startups também cresceu mais do que qualquer cidade da China, atingindo 160%. Além disso, Hangzhou é a terceira cidade da China com o maior número de unicórnios (16 – atrás apenas de Beijing e Shanghai e na frente de Shenzhen).

Com o IPO da Alibaba e as oportunidades constantes da Universidade de Zhejiang, por exemplo, Hangzhou se qualificou com uma força de trabalho altamente especializada no setor de tecnologia. O icônico West Lake inspirou artistas e poetas por milênios. Mencionar a maravilha natural tornou-se mote em todo o país para criatividade e serenidade. O ambiente idílico cria o cenário perfeito para empreendedores que adotam uma abordagem inovadora aos desafios sociais.

StartSe de olho na China!

A StartSe traz para São Paulo o China Day Conference, evento completamente focado em discutir pontos como esses com maior profundidade! Se você quer saber ainda mais sobre a China, não deixe de conferir nossa semana de imersão por lá, liderada por Ricardo Geromel.

Baixe já o aplicativo da StartSe
App StorePlay Store