Didi Chuxing: Inteligência Artificial e domínio global para ter o negócio do futuro

Os algoritmos de Machine Learning da Didi “podem mostrar o futuro”, diz Diretor de Tecnologia da startup mais valiosa do mundo

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Por Lucas Bicudo

14 de agosto de 2018 às 18:53 - Atualizado há 2 anos

A presidente Jean Liu tem uma visão clara para o futuro da Didi Chuxing: “Um aplicativo de comando de voz que me permite apenas dizer: ’Preciso ir. Agora mesmo’”. Um veículo chegará um minuto depois. Ela não precisa especificar que tipo de carro: o mecanismo de Inteligência Artificial vai adivinhar o que ela quer. O sistema muitas vezes se oferece para enviar uma carona antes mesmo de ela perguntar, sabendo onde ela irá. Às vezes o motorista será humano. Mais tipicamente, será uma máquina.

O carro vai andar em ruas livres. “Não há semáforos”, explica Liu ao Wired. “A IA já está integrada”. Também não haverá estacionamentos: os veículos, todos elétricos, sairão silenciosamente para instalações de armazenamento quando não forem necessários. A própria Beijing de Liu, livre da necessidade de fornecer estacionamento para seis milhões de carros, será novamente agradável. “Estamos cercados por bons parques”, diz ela. “E quando você chegar ao seu destino, você nem precisa se preocupar em estacionar. Você apenas sai”.

Gigante do transporte e tecnologia

Cenários como esse parecem fantásticos ao lado de uma megalópole, seja no Brasil, seja na China. Liu, entretanto, na sede da Didi em Beijing, transparece otimismo de que isso pode se tornar real um dia, à medida que expõe suas ambições de transformar sua empresa em uma gigante global de transporte e tecnologia.

Atualmente, o aplicativo da Didi é muito parecido com o da Uber e da Lyft. O que diferencia a empresa é a escala. Com 400 milhões de clientes registrados em mais de 400 cidades chinesas, a startup oferece 25 milhões de viagens por dia, quase o dobro da Uber e de todos os outros aplicativos do tipo combinados no mundo. No futuro, Liu imagina um propósito ainda maior, já que a Didi usa Big Data e Machine Learning para consertar os muitos problemas que caotizam as áreas urbanas e a vida civil. “Quando você reprojetar o sistema de transporte, você basicamente redesenha toda a cidade. Você redefine como as pessoas devem viver”.

Liu, após mais de uma década no banco de investimentos Goldman Sachs, ingressou na Didi em 2014 para se tornar – sem dúvidas – a executiva-chefe de uma das tecnológicas mais proeminentes da China, ganhando atenção pela rápida expansão e poder de internacionalização do grupo.

Liu rapidamente se tornou o ponto de contato para investidores globais. Em dezembro passado, a empresa recebeu uma injeção de US$ 4 bilhões, que pavimentou o caminho para a Didi se tornar a startup mais valiosa do planeta, com um valuation de US$ 56 bilhões – ultrapassando inclusive a Uber, cuja rodada mais recente a deixou com uma avaliação de US$ 48 bilhões.

Para se tornar essa gigante internacional, a Didi primeiro teve que se defender em casa. A partir de 2015, Liu travou uma ação de retaguarda feroz pelo controle do mercado doméstico da China, após uma rápida incursão da Uber por lá. Por meio de descontos agressivos, a dupla acumulou enormes prejuízos antes de a concorrente norte-americana admitir a derrota em meados de 2016, vendendo suas operações para a Didi e a entregando totalmente o controle doméstico. O plano A havia sido bem executado, mas era necessário pensar adiante. Pensar além. Um plano B.

Esse plano, diz Liu, é crescer. A Didi está trabalhando com montadoras de carros para construir modelos que são “projetados para compartilhamento”, elétricos e autônomos. Em torno da China, ela está conectando dezenas de cidades, usando dados localizados para ajudar a reduzir os problemas de trânsito.

Mais do que tudo, porém, as ambições de Liu são globais. Até agora, poucas empresas de internet da China lançaram serviços fora de seu mercado doméstico, onde muitas vezes desfrutam de proteção regulatória contra empresas estrangeiras. A Didi restringiu-se em grande medida a investir em outras empresas de compartilhamento de veículos, incluindo a Lyft nos EUA, a Ola na Índia, o Taxify na Europa e a 99 no Brasil.

Em 2016, no entanto, Liu fechou um contrato raro com a Apple, avaliado em US$ 1 bilhão, alimentando especulações de que a Didi se uniria às ambições do grupo californiano de entrar no mercado automotivo. Então, em 2017, a Didi abriu um laboratório de pesquisa no Vale do Silício, contratando funcionários da Uber e outras gigantes para acelerar seus próprios planos de condução autônoma.

“Queremos ser uma empresa que atenda o transporte global”, diz ela. E é aqui que sua visão carrega seu maior significado – o alvorecer de um mundo no qual a Didi, juntamente com os titãs Alibaba, Baidu e Tencent, começam a expandir suas fronteiras para se tornarem tão onipresentes no Ocidente quanto Uber, Amazon, Google e Facebook.

As ambições de Liu nascem de uma simples frustração: o trânsito terrível de Beijing. Com 22 milhões de habitantes, a capital da China está entre as dez metrópoles mais congestionadas do mundo, de acordo com um índice da fabricante de GPS TomTom. Oito cidades chinesas estão no top 20, muito mais do que qualquer outro país.

Até o nome da Didi é um lembrete: em mandarim, significa “beep bip”, como a buzina de um carro.

Todas as manhãs, depois de levar seus três filhos para a escola, Liu passa duas horas para chegar em Zhongguancun, uma extensa série de parques de software e frequentemente descrito como “Vale do Silício da China”. Um campus pertence à Lenovo, fabricante de computadores fundada pelo pai de Liu, Liu Chuanzhi, uma herança familiar que lhe dá o status de realeza chinesa de tecnologia. Mais de uma dúzia de unicórnios têm escritórios nas proximidades, junto com o mecanismo de busca Baidu e o colosso de redes sociais Tencent.

Ainda no Goldman, Liu conheceu o co-fundador da Didi, Cheng Wei, para discutir um investimento. Naquela época, a Didi estava focada em consertar o sistema ineficiente de despacho de táxi da China. Mas, intrigada com as ambições mais ousadas de Wei em reinventar o trânsito urbano, Liu se juntou à empreitada. “Quando me demiti do Goldman, meu chefe dizia: ‘Você está louca? Você está dando tudo isso para uma empresa de táxi?’”.

A Didi expandiu-se rapidamente. Mais de três quartos dos americanos possuem carros, mas na China, é apenas um em dez – levando a uma enorme demanda por compartilhamento de caronas. Nos Estados Unidos, explica Liu, a maioria acha mais barato ter um veículo do que depender desse tipo de serviço. “Aqui é o oposto”, diz ela, especialmente com os altos impostos cobrados sobre os veículos.

A primeira tarefa de Liu foi orquestrar uma fusão complexa com o principal concorrente doméstico da Didi, Kuaidi Dache. Em 2015, a startup se tornou Didi Kuaidi e mais tarde assumiu a alcunha de Didi Chuxing.

De olho no futuro

Atualmente, a Didi está testando mais de dez protótipos de veículos autônomos na China e nos EUA. O número, que não assusta se comparado aos da Waymo, por exemplo, está atrás da verdadeira e poderosíssima arma da Didi: grandes quantidades de dados. Isso quem diz é Bob Zhang, o Diretor de Tecnologia do grupo.

A startup opera 25 milhões de viagens diárias, feitas por cerca de quatro milhões de motoristas. Esse mecanismo lança mais de 70 terabytes de dados, cobrindo tudo, desde onde os motoristas vão, até o quão rápido eles dirigem. Analisando tudo isso, os algoritmos de Machine Learning da Didi “podem mostrar o futuro”, diz Zhang.

Inteligência Artificial atualmente combina milhares de passageiros e motoristas a cada minuto, como parte de uma plataforma de tomada de decisões que a empresa chama de “Didi Brain”. Isso já prevê a probabilidade de passageiros quererem carros 15 minutos antes do tempo, com uma precisão de 85%. À medida que busca por mais padrões, o sistema conseguirá cada vez prever com maior antecedência, usando “Reinforcement Learning”, uma poderosa técnica de IA na qual os computadores aprendem por meio da experimentação.

A tecnologia de condução autônoma é o foco principal do novo laboratório da Didi em Mountain View, Califórnia. Localizada não muito longe da sede do Google, a instalação foi inaugurada no ano passado e agora abriga 100 pesquisadores, parte de uma equipe global de mais de 500 especialistas em Inteligência Artificial.

O centro no Vale do Silício está trabalhando, em parte, na segurança – no sentido de impedir que hackers adulterem seus sistemas ou até mesmo os próprios carros -, mas as máquinas também se debruçam sobre dados extraídos de sensores em telefones do motorista, mostrando padrões de aceleração ou curvas fechadas. Combine isso com o feedback dos passageiros, por exemplo, e o sistema aprende a identificar e punir a impetuosidade ao volante, enquanto recompensa motoristas mais seguros com mais tarifas.

Realidade Virtual e Aumentada é uma segunda prioridade do laboratório. No início, os para-brisas e as janelas dos carros se tornarão displays interativos. Liu está planejando mais mudanças físicas nos veículos, enquanto trabalha com as montadoras para projetar uma “nova geração de carros inteligentes”.

O design aprimorado ajudará a acomodar mais passageiros em cada carro, mas Liu diz que Inteligência Artificial é a chave para tornar seu serviço mais eficiente – e, no processo, atende à crescente demanda da China por caronas. Os executivos da Didi podem puxar mapas da cidade em tempo real direto de seus laptops, que sugam dados de milhões de carros. O mapa de Beijing é dividido em 15 mil hexágonos, cada um com apenas 500m de largura, com pontos vermelhos mostrando congestionamentos. “Cada célula, a cada segundo”, diz Liu orgulhosamente de seus algoritmos. “Dia chuvoso, dia de sol, dia de trabalho, horário de pico. Eles estão constantemente aprendendo”.

A Didi não está investindo sozinha em IA; todas as grandes empresas de tecnologia chinesas estão colocando dinheiro nisso. No ano passado, o presidente Xi Jinping estabeleceu uma meta para tornar seu país a maior referência em Inteligência Artificial no mundo até 2030. Apoiado pelo tamanho da população online chinesa, há uma determinação em fazê-lo.

Mas para a Didi, Machine Learning ajuda a resolver problemas mais básicos, como sinais de trânsito. “Às vezes, eles são operados manualmente a cada 90 segundos por alguém sentado em uma sala”, diz Liu. Na cidade de Jinan, no leste do país, os algoritmos da Didi agora acionam semáforos “inteligentes”, que otimizam os padrões baseados em dados de carros em tempo real, reduzindo o congestionamento em 10%. Projetos semelhantes estão em andamento em dezenas de cidades, juntamente com planos para melhorar o gerenciamento de faixas de tráfego e os sistemas de ônibus. Machine Learning ajuda a Didi a administrar seus milhões de motoristas, enquanto aprende as preferências de seus passageiros.

Liu sabe que ainda precisa mostrar essas capacidades no exterior, mas isso também está prestes a mudar. A Didi abrirá seu aplicativo em mercados estrangeiros? “Nós vamos”, diz a presidente. “Eu diria que faremos isso muito em breve”. Ela se recusa a dar detalhes ao Wired, embora a Reuters tenha informado em dezembro que a Didi planejava desembarcar no México. Em janeiro de 2018, a startup comprou a brasileira 99Taxis (empresa que anteriormente já havia investido US$ 100 milhões).

O laboratório no Vale do Silício também será “o primeiro” de uma série de instalações de pesquisa global, diz Liu. Ela também não descarta uma eventual incursão nos EUA, embora diga que prefere os mercados com apenas um outro grande concorrente existente.

Atualmente, os negócios da Didi continuam sendo um curioso híbrido de alta e baixa tecnologia, com Machine Learning emparelhando milhões de motoristas relativamente pouco qualificados. Liu diz que o crescimento rápido protegerá o futuro de seu funcionário. A Didi responde por apenas dois por cento das viagens de carro na China, mas aspira a dez ou mais. “Pense em quanto maior o mercado vai ficar”, diz ela. “Ainda podemos suportar mais 20 milhões de motoristas”.

(via Wired)

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