Lições da China: 3 formas de adaptar seu negócio para o impacto do coronavírus

Direto de Pequim, equipe da StartSe China revela as melhores práticas que levaram negócios chineses a não perderem mercado durante o surto do Covid-19

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Por Da Redação

5 de março de 2020 às 10:39 - Atualizado há 4 semanas

Por Vinícius Oliveira, da equipe da StartSe China

Até esta terça-feira (3), o Ministério da Saúde confirmou dois casos do coronavírus (Covid-19) no Brasil. Apesar de a situação ainda não ser extremamente preocupante, principalmente devido ao fato de não existirem infecções nativas confirmadas, ou seja, passadas de pessoa para pessoa dentro de solo nacional, é inegável que o assunto se tornou um dos mais comentados e ligou um sinal de alerta na população.

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Na China, onde já são mais de 80 mil casos, guardada as devidas proporções, não foi diferente. Quando as primeiras infecções foram noticiadas, não se falava mais de outro assunto por todo o país, e itens como máscaras e álcool em gel desapareceram rapidamente das prateleiras dos mercados. Aqui de Pequim, acompanhei todo o desenvolvimento do surto pela China e pelo mundo. No momento, a situação na China, com exceção de Hubei (a província chinesa que é o epicentro da doença), está praticamente controlada, com número decrescente de novos casos diários.

Porém, devido à apreensão coletiva, estabelecimentos e empresas tiveram que se adaptar. Como mostro no vídeo abaixo, negócios chineses deram um show de criatividade, se reinventando para continuar funcionando durante este momento de adversidade.

Mesmo que a situação não seja tão grave como é noticiado em alguns veículos da mídia, é recomendável que o mercado brasileiro se prepare para mudança no comportamento da população, que se preocupa com uma possível ameaça.

Como um empreendedor deve gerir seus negócios durante essa situação? Deixo aqui três lições que observei e que deram muito certo na China:

  • Foco na higiene

Lavar as mãos, cobrir nariz e boca ao tossir ou espirrar e evitar aglomerações. Se cada indivíduo estiver mais preocupado com sua higiene pessoal, também irá esperar dos estabelecimentos que visita que mostrem cuidado com a higiene do local e dos funcionários.

Na China, onde o surto foi mais grave, medidas como medição de temperatura e limitação do número de pessoas no interior de estabelecimentos foram tomadas. No Brasil, no entanto, tais iniciativas provavelmente causariam mais espanto do que tranquilidade.

Por isso, é recomendável que estabelecimentos comerciais tomem medidas como desinfecção diária do local e uso de máscara e luva descartável pelos funcionários, além de deixar explícito para os clientes quais medidas estão sendo tomadas. Essa é uma solução que deu muito certo na China, trazendo maior tranquilidade e transparência para os consumidores.

  • Explore o digital

A crise do SARS (do inglês Severe Acute Respiratory Syndrome) em 2003, que causou a morte de centenas de pessoas, foi um dos maiores desafios do Alibaba (principal nome do comércio online na China), que encontrou diversas dificuldades para continuar funcionando. Porém, foi também um dos maiores motivos de seu crescimento exponencial. Com as pessoas dentro de casa, com medo de se contaminarem, o comércio online observou um aumento repentino de consumidores que queriam continuar comprando sem tomar risco à saúde.

Durante o atual surto do coronavírus, a situação não foi diferente. Lojas, restaurantes e bares viram uma diminuição brusca no número de clientes, o que causou levou muitos a fecharem as portas. Porém, houve também um crescimento exponencial do número de entregas de refeições de restaurantes e produtos frescos de supermercado. Escolas mudaram para o ensino online as aulas dos mais de 230 milhões de alunos chineses. Academias apostaram em aulas coletivas domiciliares através de vídeo-chamada. Bares começaram a transmitir seus DJs tocando ao vivo. Além disso, o dinheiro, que é uma fonte de propagação do vírus, foi praticamente extinto, sendo substituído pelo pagamento digital.

Apesar de não haver restrição de movimento no Brasil, é interessante que negócios de diferentes indústrias explorem alternativas online. Além da oferta de produtos e serviços online ser uma possível fonte de renda extra, é uma ótima saída caso haja alguma influência no funcionamento dos serviços offline. A adoção de pagamentos digitais também continua crescendo e talvez seja um ótimo momento para incorporar essa solução financeira.

  • Descubra o trabalho remoto

O surto do coronavírus resultou no fechamento das portas da maioria dos escritórios na China, em um esforço em conter a propagação. Gigantes como Alibaba, Baidu, Bytedance e Tencent (ABBT), foram todas afetadas. Apenas recentemente as empresas puderam começar o retorno dos funcionários gradualmente, após estenderem o feriado do Ano Novo Chinês por pelo menos 1 mês.

Com isso, ferramentas de comunicação corporativa como o DingTalk, do Alibaba, e WeChat Work, da Tencent, sofreram sobrecarga de usuários, com mais de 300 milhões de pessoas utilizando-as para trabalhar de casa durante o período que não podiam se encontrar com seus companheiros de trabalho. Com a mudança de hábito de trabalho offline para online repentina, surgiram diversos problemas como sobrecarga das ferramentas, dificuldades na experiência de usuários não nativos digitais e diminuição da produtividade.

Talvez seja prudente dar mais liberdade para que os funcionários se familiarizem com as ferramentas de comunicação corporativa e tenham a possibilidade de trabalhar remotamente. Diversos estudos apontam que o trabalho remoto pode causar impactos positivos na produtividade de funcionários, além de ser uma ótima saída caso o funcionamento do escritório seja afetado.

Apesar de tudo, mantenha o otimismo

Até o momento, no Brasil, tivemos apenas um par de casos provenientes de outro país mais impactado pelo surto do coronavírus. Além disso, estudos apontam que o vírus tem dificuldade de se propagar em locais com temperaturas altas. Medidas como foco na higiene, explorar o online e descobrir o trabalho remoto são medidas benéficas não apenas visando o possível efeito do coronavírus, mas também para qualquer negócio na nova economia.

Como durante o surto do SARS em 2003, a China experimenta diversos impactos negativos, principalmente em sua economia. Entretanto, mais uma vez mostra que terá muitos aprendizados. Nos últimos meses, ocorreram diversos avanços em áreas como medicina, construção, robótica e inteligência artificial, devido aos incentivos na aplicação de tecnologia para conter o avanço da propagação do vírus; além de negócios de diversos setores mostrando muita criatividade para continuar de pé nos momentos de adversidade. Com o surto chegando ao fim, a StartSe se prepara para continuar seus programas internacionais na China, com a certeza de que o final dessa crise apenas trará mais exemplos interessantes de superação e inovação. Como diz o provébio chinês, 吃一堑,长一智.A cada queda, um aprendizado”.

Vinicius Oliveira é líder da operação da StartSe em Pequim e vive na China há mais de 6 anos. Mestre em Engenharia Industrial pela Universidade de Aeronáutica e Astronáutica de Pequim, já trabalhou na icônica Huawei, uma das maiores fabricantes de smartphones do mundo e líder em 5G. Fluente em 4 idiomas, incluindo chinês, participa de diversos programas na TV chinesa divulgando a cultura brasileira.