O Brasil está pronto para o "open banking"?

Para João Fernando Nascimento, da CSMV Advogados, o sigilo das informações e a complexidade do sistema financeiro nacional serão alguns dos desafios para a evolução do setor

0
shares

O sistema financeiro brasileiro é sólido, robusto e sofisticado - o que dá segurança ao investidor. Ao mesmo tempo, é um setor com alto nível de concentração - há poucos bancos - e, por isso, com alta taxa de juros. Este último aspecto chama a atenção de players de outros países. A opinião é do advogado e sócio da CSMV Advogados, João Fernando Nascimento. O executivo foi responsável pela entrada de diversas empresas TechFin - que oferecem tecnologia para o setor financeiro - da China no Brasil, mas considera que o nosso país ainda resiste à entrada dos asiáticos. “Muito investimento foi feito em infraestrutura nos últimos anos. Isso criou uma casca muito grossa no nosso sistema”, disse Nascimento durante o China Day Conference 2018, realizado pela StartSe, na quarta-feira (24/10).

Os chineses, porém, continuam crescendo de forma acelerada. “As fintechs chinesas estão dominando o mercado. Recentemente, a China desbancou o Vale do Silício em volume de transações e empresas nesse ambiente”, ressaltou Nascimento. Com a presença de dois grandes players, a Tencent e Alibaba, que cada vez mais apostam em outros braços, como o de pagamentos, as empresas menores acabam encontrando alguns obstáculos para crescer no país. Assim, as fintechs chinesas são incentivadas a olhar para fora da China, explorando novos mercados - inclusive o Brasil.

Com a chegada dos chineses, segundo Nascimento, o Banco Central será um importante catalisador para futuras mudanças. “Até agora, ele já atuou em reestruturações no sistema de pagamento brasileiro, no incentivo à adoção de cartões de pagamento, na cooperação e interoperabilidade de redes, na segmentação de instituições financeiras e outras ações”, afirmou.

O que vem por aí?

Para o executivo, podemos esperar, entre outras ações, a regulação dos chamados “pagamentos instantâneos”, tornando-os mais ágeis e fora de uma estrutura carregada, e principalmente a consolidação do conceito de Open Banking. “Ele será um divisor de águas. Hoje, no Brasil, não faz sentido ter várias contas em diversos bancos, isso é um pesadelo. Os clientes concentram tudo em um banco só para ter uma tarifa mais baixa. E isso cria um certo confinamento”, ressaltou Nascimento.

Regulamentado na Europa, o Open Banking, ou seja, modelo de plataforma aberta para troca de informações entre bancos, já funciona muito no exterior. “Nesse modelo, é possível reunir, com a autorização do usuário, todas as informações dos bancos dele em um só lugar. O acesso às informações se torna mais prático”, disse o executivo. No Brasil, para que o mesmo aconteça, é preciso ter relacionamentos bilaterais.

“A tempestade perfeita acontece quando alguns fatores potencializam um fenômeno. No Brasil, com a mentalidade correta e com iniciativas para fomentar a abertura e competição, o país se tornará um mercado pronto para colocar em prática tudo isso e receber investimentos pesados”, disse Nascimento. Segundo ele, as empresas chinesas já estão vindo para o Brasil. Como exemplo, temos o investimento da Tencent no Nubank. “Estamos vendo uma tempestade acontecendo. Será uma revolução no sistema financeiro”, disse.

Mas, para que isso aconteça, é preciso superar alguns obstáculos. “O sigilo será um desafio muito grande, além da baixa tecnologia. Hoje, os grandes bancos têm sistemas complexos, que precisariam conversar com uma infraestrutura mais leve. Mas acredito que eles vão se transformar com a chegada das fintechs. Uma coisa vai puxar a outra”, afirmou Nascimento.

Atualize-se em apenas 5 minutos


Receba diariamente nossas análises e sinta-se preparado para tomar as melhores decisões no seu dia a dia gratuitamente.

Comentários