China: estará próximo do fim a supremacia do Vale do Silício?

Os investimentos em empresas chinesas da Nova Economia são 18 vezes maiores do que há cinco anos; fator que alimenta a percepção de que a China pode ultrapassar o Vale do Silício como celeiro mundial de novos negócios em tecnologia

0
shares

A China, ao lado dos Estados Unidos, é o berço das startups que valem mais de US$ 1 bilhão - atualmente, dos cinco maiores unicórnios do mundo, três são chineses e apenas dois são americanos. Recentemente, uma startup de Pequim que permite que as pessoas comprem café via smartphones entrou para a chamada "terra dos unicórnios" ao ser avaliada em US$ 1 bilhão após sete meses de seu lançamento.

De acordo com a Dow Jones VentureSource, além dos 109 unicórnios da China valerem mais do que as 127 empresas norte-americanas avaliadas em US$ 1 bilhão - as gigantes chinesas valem US$ 557 bilhões contra US$ 478 bilhões das americanas -, essas companhias se tornaram unicórnios mais rápido do que suas concorrentes nos Estados Unidos. Apesar da tensão com os americanos, as gigantes chinesas estão atraindo mais dinheiro do que suas rivais nos Estados Unidos - US$ 71 bilhões contra US $ 70 bilhões somente neste ano, segundo dados da VentureSource.

Além disso, a Sequoia Capital, uma das maiores empresas de capital de risco do Vale do Silício, pode, pela primeira vez, investir a maior parte do seu mais recente fundo global na China, dizem pessoas próximas ao fundo. O fundo deve investir até 60% do seu capital em startups chinesas, cerca de US$ 8 bilhões. O ritmo dos investimentos em empresas da China também espanta. De acordo com o The Wall Street Journal (WSJ), o volume de investimentos está 18 vezes maior do que há cinco anos, o que não é visto desde a bolha das ações de tecnologia de 2000, fator que alimenta a percepção de que a China está pronta para ultrapassar o Vale do Silício como centro tecnológico mundial. Em setembro, a empresa de investimentos chinesa Hillhouse Capital Group revelou que possui sob gestão US$ 10,6 bilhões, superando US $ 9,3 bilhões da americana KKR & Co. Dias antes, a gigantesca Meituan Dianping, plataforma online de compras coletivas, que perdeu pelo menos US$ 8,5 bilhões desde 2015, abriu o capital em Hong Kong com uma capitalização de mercado de cerca de US$ 53 bilhões.

As gigantes da China

O Manbang Group, mais conhecido como a Uber de caminhões, também procurou investidores neste ano. A empresa estava em busca de cerca de US$ 300 milhões em financiamento, mas, em abril, muitos manifestaram interesse, o que fez o Manbang levantasse US $ 2 bilhões e firmasse planos para uma frota de caminhões autônomos movidos a eletricidade - o que fez seu valor de mercado atingir a cifra de US $ 6 bilhões. Apesar do sucesso com os investidores, a maioria dos usuários do Manbang não são pagantes. A empresa conseguiu que cerca de 200 mil remetentes faturassem cerca de US$ 250 por ano em taxas de adesão e está empenhada em equilibrar o valor no próximo ano, disse uma pessoa a par do assunto. Recentemente, o Manbang começou a procurar mais US$ 1 bilhão em investimento, com uma avaliação de US $ 10 bilhões, mas ainda não fechou nenhum acordo.

Além disso, há empresas como Didi Chuxing, que presta serviços na área de tecnologia e transporte privado, que arrecadou cerca de US$ 24 bilhões nos últimos seis anos para disputar mercado com os seus seus concorrentes. Mesmo depois de uma batalha com a Uber, que há dois anos consome boa parte do caixa da empresa, a Didi ainda tem lucro. Atualmente, a Didi luta contra um rivais locais , incluindo a Meituan que expandiu o seu negócio no ano passado. Em março, a Meituan começou a oferecer passeios curtos em Xangai por menos do que um centavo americano, resultando em uma onda de usuários que começaram a utilizar carros para distâncias que normalmente percorrem a pé. Stephen Zhu, diretor de estratégia da Didi, disse que a concorrência na China é mais acirrada do que no Vale do Silício, e que as empresas levam tudo muito a sério.

Recentemente, a Didi entrou no mercado de delivery, segmento que representa a principal fonte de receita da Meituan e a Ele.me, uma empresa que a Alibaba adquiriu em maio. Em abril, a Didi tomou conta das ruas da cidade de Wuxi, no centro da China, com equipes de entrega que ofereciam salários mensais, para cooptar motoristas, e bônus expressivos, para trazer mais usuários. Em contrapartida, para concorrer contra o cupom único de 25 yuans (US $ 3,67) oferecido pela Didi, a Meituan e a Ele.me reagiram com grandes descontos - um usuário chegou a postar em sua rede social uma captura de tela de um pedido via Meituan para frango frito, suco de laranja e chá de leite que custava 0,01 yuan.

A concorrência é tão acirrada que Song Yunyi, chefe de um restaurante na China, disse que a equipe de marketing da Meituan o advertiu para não trabalhar com a Didi. Depois que ele listou a Didi como parceira, Yunyi afirma que o aplicativo da Meituan começou a descrever sua loja como fechada. Apesar das acusações, a Meituan se recusou a comentar sobre o assunto. A disputa terminou após órgãos do  governo interferirem na briga e, desde então, a Didi levou o serviços de entrega de alimentos para pelo menos mais três cidades, e está investindo recursos em compartilhamento de bicicletas e direção automatizada. Para entrar nesses novos mercados, a Didi também está à procura de mais investimentos e planeja se tornar pública com uma avaliação de até US$ 80 bilhões, de acordo com o Wall Street Journal, que ouviu fontes  familiarizadas com os planos da empresa.

Enquanto isso, a Meituan está promovendo o compartilhamento de bicicletas e a entrega de mantimentos. A controladora da Ele.me, a gigante Alibaba, está fundindo a companhia com uma afiliada e arrecadou US$ 3 bilhões para o negócio combinado, resultando em uma avaliação de US$ 25 bilhões. "No início, sim, você está praticamente dando refeições gratuitas aos consumidores", disse Wang Lei, executivo-chefe da Ele.me, ao WSJ. Mas em algum momento, os gastos “ se tornam mais lógicos”, disse ele sem dar uma previsão de quando essa lógica aparecerá.

Os fenômenos da china e seus motivos

Muitos especialistas acreditam que os riscos do boom tecnológico da China valerá a pena. “Aqui o potencial é enorme, e o crescimento das empresas chinesas é muito mais rápido do que fora da China", disse Richard Peng, ex-executivo da Tencent, cujo fundo, o Genesis Capital, investiu na última rodada do Manbang Group. Uma das referências chinesas é o Alibaba, cuja Oferta Pública Inicial (IPO) em 2014 foi a maior da história, o que deixou seus investidores, como a empresa de capital de risco americana GGV Capital, felizes. Quando a GGV investiu no Alibaba, em 2003, a empresa foi avaliada em cerca de US$ 180 milhões, afirmou o sócio-gerente, Hans Tung. Desde então, o valor do Alibaba aumentou mais de 2.000 vezes.

Além dos investimentos estrangeiros, um outro coringa para fomentar a "terra de unicórnios" é o próprio governo chinês. Os avanços dos gigantes da tecnologia são motivo de orgulho nacional e, atualmente, muitos líderes do país incentivam a inovação. O foco no usuário também é um diferencial quando falamos de unicórnios chineses. Enquanto os empresários americanos estão mais focados em produtos e tecnologia, as empresas chinesas são “mais agressivas e centradas no usuário”, disse Wang na Brainstorm Tech Conference deste ano, promovida pela Fortune.

De acordo com Connie Chan, sócio-geral da Andreessen Horowitz, as empresas ocidentais de tecnologia correm o risco de perder para empresas chinesas em mercados emergentes, se não entenderem como elas operam.

Atualize-se em apenas 5 minutos


Receba diariamente nossas análises e sinta-se preparado para tomar as melhores decisões no seu dia a dia gratuitamente.

Comentários